terça-feira, 9 de abril de 2019

Cinco anos


Cinco anos. Meia década. O final do meu Ensino Secundário, o final da minha Licenciatura. Um livro em tua homenagem. A minha temporada em Buenos Aires. Os meus amigos, os desencontros e reencontros da minha vida. O Pedro. A Carolina que, está aqui, está na Faculdade. O Xavier nasceu, e eu sou, pela primeira vez, madrinha de batismo. Os avós, finalmente, aceitam ir a outro restaurante que não o “Menino”. O meu próximo livro que teimo em não ter coragem de acabar, por sentir que não está bom o suficiente.
Cinco anos. Cinco anos desde a última vez que te vi, desde que nos despedimos. Cinco anos desde o dia em que pusemos a mesa para, quando chegasses, jantarmos e, desde aí, nunca mais tirei quatro pratos do armário. Cinco anos desde que, pela última vez, senti o teu cheiro na casa, o cheiro de um perfume forte, o cheiro de um perfume de homem.
Cinco anos. Cinco anos desde que vos vi a beijarem-se pela última vez, e que, ao olhar para vós, me senti tão feliz por ser parte da nossa família, por ter sido concebida e crescido no vosso seio, por ser fruto do vosso amor.
Cinco anos. Cinco anos desde que deixei de te ver com os olhos, e de te tocar com as mãos: foi, exatamente há cinco anos, que te comecei a procurar com o meu coração, ciente de que, desde há cinco anos, esta seria a única forma de te encontrar.
Cinco anos. Cinco anos desde que falo de ti com os olhos humedecidos, mas com um sorriso que não engana ninguém: sou tão feliz por ser tua filha! Foram dezasseis anos tão bons, tenho tanta sorte em te ter!
Há uns dias, enquanto comia um gelado com um irmão mais novo de um amigo, ele perguntou-me por ti. Onde estava o meu pai, e porque não o seguias tu no Instagram. Também já a Teresinha, tua sobrinha, me tinha perguntado, uma vez, algo semelhante, queria saber onde andava o meu pai e porque é que nunca aparecia nos almoços de família. Expliquei a ambos, com palavras diferentes, pois têm seis anos a separá-los, que tu já tinhas partido e que, agora, apesar de eu não te ver, tu me vigias constantemente. A Teresinha ficou confusa, e, por isso, disse-lhe que tu eras uma estrela muito brilhante e que, quando eu me enganava no caminho, a conduzir cá por Lisboa, punha a cabeça de fora e procurava-te, tranquila por saber que, seguindo-te, chegarei sempre a casa.
Cinco anos até parece muito tempo. Parece-me mais ainda agora que escrevo e, na minha cabeça, sucedem imagens à velocidade da luz, como se me fosse possível, em breves minutos, recordá-los ao pormenor: tantos momentos, tantas alegrias, tantas pessoas, tanta coisa. Por outro lado, parece que foi ontem. Dói como se tivesse sido ontem, principalmente hoje.
No entanto, por cá, respeitamos a tua vontade, vivemos sob os teus ideais. Seguimos com a nossa vida, esforçamo-nos por ser felizes e é tão bom cada vez que eu dou por mim e não há esforço, só há felicidade, e é tão bom, com o passar dos anos, ir encontrando a serenidade que sempre tiveste . Cada uma de nós vai trilhando o seu caminho: não nos largamos, nunca, por nada. Caminhamos de mãos dadas contigo, e também é juntas, tantas vezes com os nossos amigos à mesa, que nos rimos ao te recordarmos em voz alta, ao celebrarmos a tua vida.
Cinco anos. Se calhar há pessoas que, desde há cinco anos, nunca mais te viram, nunca mais ouviram falar de ti. Não sei. Mas tu, pai, para nós, ainda estás aqui. Não partiste na totalidade, porque deixaste um bocadinho de ti em nós. Eu lá me vou esforçando para ser à tua imagem, e lá vou redondamente falhando. Mas tu habitas em mim. Eu sou a tua continuação. E sei que, sem dúvida, essa é a melhor parte de mim.

sábado, 8 de setembro de 2018

Sair de cena

Li há uns dias, algures neste Mundo cibernético em que todos nós viajamos, que é preciso saber sair de cena. Na altura, tal era a velocidade com que o meu dedo puxava a informação para baixo, esta frase passou por mim com a mesma rapidez com que a maioria das coisas nos passam pelos olhos.  Mas, mais tarde, quiçá entre a insónia e o despertar tardio da manhã seguinte, dei por mim a pensar acerca disto.
Todos nós ambicionamos, mais do que ter coisas na vida, ser coisas na vida. Ter um emprego que nos traga estabilidade económica, que nos traga realização pessoal, e, tantas vezes, que nos traga reconhecimento. Faz parte de viver, esta coisa, tantas vezes ingrata, de querer que alguém, independentemente do lugar que ocupe na hierarquia em que nos encontramos, ou na sociedade da qual fazemos parte, nos elogie, reconheça, parabenize. E enquanto em determinadas profissões, diria menos criativas ou liberais, não há alturas certas para sair de cena, existem outras em que a pausa tem tanto mérito como a permanência.
Se sou fotógrafo há dez anos e, de repente, o único sítio onde estou é uma garagem sem luz, porque deverei eu continuar a fotografar todos os dias? Quem quererá ver exposições consecutivas de paredes pintadas com aquele branco, que outrora não era sujo, ou da caixa de ferramentas espalhada no chão, ao pé de todas as coisas que para lá vamos arrumando, porque já não gostamos o suficiente delas para as termos na sala, mas também não as desprezamos ao ponto de as pormos no lixo?
E se eu for pintor e, de repente, não souber mais o que retratar nos meus quadros? Devo continuar a pintar só porque ainda tenho baldes de tintas coloridas, mesmo que veja tudo em tons de sépia?
Eu percebo o medo adjacente às pausas. As pessoas podem esquecer-nos, os nossos feitos podem perder importância, as pessoas com quem inevitavelmente competíamos ganham espaço, notoriedade. Aos poucos, param de perguntar por nós, substituem-nos, descobrem pessoas que fazem aquilo que nós fazíamos melhor que nós. E isso tudo pesa no momento em que optamos por parar: é um misto de receios e vontade de ser livre, de acreditar que respirar nos revigora e de medo que o sufoco de ver tudo a avançar sem nós se torne insuportável.
Eu decidi parar. E estive parada o tempo suficiente para perceber que tomei a decisão correta. Não tinha nada para escrever, para além de uma vontade desmedida de ser escritora. E isso não chega. É preciso continuar a ler muito, é preciso viver coisas novas, conhecer pessoas novas, sentir coisas novas. É preciso não ter horas para fazer tudo, é preciso ter tempo para não fazer absolutamente nada. Estava a escrever por presunção, pela pressão constante de ter de dizer algo. Não é assim que se escreve, não é assim que eu quero escrever. Eu não tinha nada para dizer, e por isso retirei-me. Retirei-me para viver, para ter coisas para contar, para me conhecer, porque isto de escrever às vezes confunde-nos, as personagens entranham-se e a vida real e a literária perturbam-se e frustam-se mutuamente. Agora estou pronta para começar de novo.
Agora estou livre, as minhas asas estão abertas e que bonita é a sensação de agarrar uma caneta e sentir o meu espírito a desenhar-se entre as linhas, e entrelinhas vou dizendo aquilo que não digo em voz alta.
As pausas são boas. Transformam-nos, limpam-nos a alma, mostram-nos a nossa pequenez, e confrontam-nos com a realidade: ninguém é inesquecível. Se querermos ter sucesso, temos de trabalhar. Mas se queremos viver, também temos de saber parar.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Dias maus


                A vida tem dias em que nos prega partidas, em que nos põe à prova, em que nos mostra que nada está garantido e que, por vezes, a nossa pequenez será tão maior que nós que, por mais que tentemos superá-la, ela absorver-nos-á como se de uma onda gigante se tratasse. Nessas vezes, que tanto nos custam, decerto teremos quem nos diga que nos faz bem, que nos faz crescer, que nos torna pessoas melhores, com um olhar mais cru, e, portanto, mais real, daquilo que o Mundo é. Os nossos ouvidos, nessas vezes, serão surdos, independentemente dos nossos lábios desenharem palavras de compreensão e acatamento, e, por mais que queiramos encarar as derrotas, como encaramos as vitórias, a verdade é que ninguém procura as primeiras e, por isso, também não aguarda ansiosamente por recebê-las.
                A vida tem dias em que nos faz sentir sozinhos, por mais que as pessoas nos rodeiem, toquem, e façam sentir-se presentes. Há uma diferença muito grande entre estarem ao nosso lado, no mesmo espaço que nós, e connosco, disponíveis para os dias em que não estamos bem-humorados, em que queremos partilhar silêncio, em que não precisamos de nenhum plano para nos entreter, e em que nos contentamos com um copo de vinho vazio, esperando ser preenchido por nós… Como nós esperamos que alguém, ou algo, nos preencha.
                A nossa tristeza, por mais visível que seja, é nossa, e, quanto menos a virem, mais profundamente nos doerá. Ninguém gosta de viver na melancolia, naquela corda que não é firme entre estarmos a sorrir sem vontade, e a chorar sem motivos, mas a verdade é que, às vezes, nos habituamos. Os nossos lençóis são quentes, e lá fora chove… Se ficarmos em casa, recolhidos nos nossos pensamentos, provavelmente lembrar-nos-emos das razões pelas quais não saímos ontem, e que, por arrasto, nos farão ficar hoje.
                Eu sei que é complicado. Ter tudo delineado, projetar o futuro, dizer em voz alta que conseguiremos, que nada fugirá daquilo que tem de ser. E depois, às vezes, não é. Simplesmente não é como queríamos, não é como tínhamos imaginado, não é aquilo para que tínhamos trabalhado. E custa, claro que custa, todos nós ambicionamos coisas, lugares, experiências. Todos nós queremos ter recordações inesquecíveis, memórias inacreditáveis. E quando aqui é inverno, há um lugar qualquer no outro lado do Mundo em que o Sol radia, e isso frustra-nos, porque não gostamos de frio, porque parece que aqui o tempo não melhora. E isso adapta-se ao que sentimos, muitas vezes, em relação a tantas outras coisas… Parece que os outros chegaram primeiro, que conseguiram com menos esforço, que tiveram sorte. Às vezes estamos tão embrenhados nas nossas mágoas, nos nossos anseios, que caímos no ridículo de acreditar que somos os mais infelizes, aqueles a quem o azar não arreda pé, aqueles cujo destino não parece, em algum momento, cruzar-se com qualquer um dos objetivos que traçámos.
                É difícil, nestes dias, não desanimar. E é difícil, por vezes, não sentir inveja, não sentir que é injusto, não nos interrogarmos do porquê de não nos ter calhado a nós, de termos sido preteridos por outrem. É difícil, mas não é impossível de superar: é tão mais possível, e célere, quanto maiores formos. Porque dificuldades todos temos: dias assim, como estes que descrevo, em que tudo nos corre mal, são constantes na vida. Obstáculos farão, com toda a certeza, parte do caminho de todos nós. E aquilo que nos caracteriza, e que nos distingue dos outros, não são as peripécias que vivemos, não são os motivos que nos abalam, não são as lágrimas que nos molham a cara. Aquilo que nos caracteriza será sempre a forma como superamos as peripécias, como recuperamos dos abalos, como, caso sejamos mulheres, retocamos o rímel após as lágrimas.
                É normal que todos tenhamos, em alguma altura da nossa jornada, pedido, entre dentes, para não ter dias maus. Faz parte da natureza de ser humano não querer passar por coisas que o possam magoar, fazer sentir coisas como o desespero, a raiva, a solidão. No entanto, é inevitável. Só não sofre quem não vive, e quem não vive também já não tem dias bons, daqueles em que tudo nos corre de feição, e em que acreditamos que os maus não se repetirão.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Tempo

Quando os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez, e com os teus olhos me abriste as portas para o Oceano, eu afastei-me, porque a imensidão dos mesmos assustou-me, e eu fujo de tudo aquilo que me parece maior que eu. Voltámos a encontrar-nos nos corredores da vida, que desde aí pareceram ser poucos e impossíveis de não serem os mesmos, e eu prometi a mim mesma que não levantaria o rosto, com receio de que me sugasses para esse teu Mundo que é tão diferente e tão mais complexo do que o meu. Sem sucesso, tocaste-me na face e disseste-me que nada temesse, porque estarias comigo quando as ondas maiores me cobrissem o rosto e me fizessem sentir que poderia não regressar à tona da água. Deixei-me embalar todas as vezes em que decidi não o fazer, e, sem dar por mim, perdi o Norte que há tanto tempo me guiava, sem surpresas.

Deste-me uma rosa e eu, com receio de que me ferisse com os seus espinhos, nunca a quis aceitar. Deixaste-a no muro de minha casa e, durante semanas a fio, ela lá ficou. Um dia, ganhei coragem, aproximei-me dela e agarrei-a, como se se tratasse de algo tão distante que já não estava ali. Com cuidado, tomei-a como minha e, tal como me tinhas dito, a mesma não tinha espinhos: era vermelha, linda como me dizias ser, mas já estava a murchar. Tinha esperado demasiado tempo… O cheiro dissipara-se no meio de todos os outros, a cor tinha começado a esvoaçar para se confundir com a cor das paredes rosa que cercavam o meu lar e as pétalas caíam à medida que os segundos passavam e eu a agarrava junto ao peito.

Também me ofereceste uma chávena de café, e pediste-me que a bebesse contigo, enquanto conversávamos sobre todos os planos que já tinhas feito para nós. Recusei, porque o café faz-me despertar, e eu queria continuar a dormir, como se a vida, para mim, estivesse a ser um sonho e a realidade me melindrasse, por nela ter de tomar decisões e não poder apenas fazer aquilo que me ia passando pela cabeça. Passadas umas semanas, antes de uma noite de estudo, em que descansar não era a solução, fui à mesa onde me tinhas convidado para nos sentarmos, em busca do café, e ele lá continuava, mas estava frio, e toda gente sabe que café frio é intragável. Tinha esperado demasiado tempo...

Convidaste-me para assistir contigo a um concerto de uma banda que sempre admirei; para ver um filme que estava em exibição no cinema durante um tempo; para visitar uma exposição, daquelas que vão passando pelos vários museus, e que, dias depois, sairía de Lisboa... E eu, com medo, na minha inocência de que os segundos passariam mais devagar se a eles não sucumbisse, deixei o tempo passar, e quando quis tornar-me dona dele, ele já tinha passado e eu, mais uma vez, tinha esperado demasiado tempo... A banda terminou a sua digressão, o filme saiu de cena e a exposição já está numa cidade longínqua da nossa.

Perdoa-me por crer que há sempre tempo. Por ter de pensar demasiado em tudo, e por ver, na impulsividade, uma sala escura que só iluminada pela razão se torna habitável para nós. Não me recrimines por esperar que os prados fiquem coloridos pela Primavera para neles passear, nem por aguardar pacientemente que o Inverno chegue para ficar um sábado inteiro em casa. Eu tenho medo. Tenho muitos medos. E a tua completude assustou-me, bem como o teu sorriso nervoso e o toque da tua mão na minha, sem que dessémos pelas mesmas a aproximarem-se. Tu não imaginas como quero esquecer o Mundo e encontrá-lo no teu abraço. Não imaginas como quero esquecer o Mundo e encontrá-lo no teu colo. Tu, por culpa minha, não imaginas como gosto de ti. Como me deixas num vazio abismático quando te vais embora, e em como desejei tantas vezes que ficasses quando te disse que não te queria comigo. Se soubesse que esperar demasiado findaria o tempo que temos, não tinha deixado que o tempo passasse.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Quase três anos desde a tua partida

Querido Pai,
Os anos vão passando, e engane-se quem acha que não damos por eles. Por mais que os dias corram, por vezes, a voar, é impossível viver sem me relembrar de que já não estás aqui. Cada sorriso meu, em cada vez que não me sinto confortável e ninguém dá por isso, cada vez que converso contigo, cada vez que choro por ti, cada vez que a minha gargalhada faz a tua, cada vez que falo de ti a alguém. Os anos passam, mas nada muda. O amor, esse muda, esse cresce: expande-se, não tem fronteiras. E as saudades, matreiras e que atacam, por vezes, sem avisar, essas também não param de crescer. Porque os dias passam, os meses vão-se construindo, e com eles vem mais um aniversário meu, outro teu, uma Páscoa, um Natal. As ocasiões continuam a ter de ser celebradas, as velas a terem de ser sopradas, e por mais que, tantas vezes, não tenhamos disposição para festejar, sabemos que estarmos felizes é a maior alegria que te podemos dar. Eu sei que é a maior alegria que te posso dar, e eu quero tanto que sejas feliz… Que me vigies aí do céu e me continues a avisar, tocando no meu coração, cada vez que for incorreta para com alguém, cada vez que não escolher o melhor caminho, cada vez que exigir demasiado de mim e cada vez também que deveria ter pedido mais aos outros. Porque eu erro, e erro tanto, e tantas vezes me esqueço de que te tenho como anjo da guarda e, imprudente, acelerada e impulsiva como sou, ajo sem te pedir que me aconselhes. Mas até nessas vezes, por mais que não te dê oportunidade para te prenunciares, e tantas vezes me atiro de cabeça, há uma certeza que ninguém me tirará: é que até aí, nessa hora que tanto te deve frustrar e preocupar, até aí eu sei que me protegerás. Que não me dirás perante o meu insucesso que me tinhas avisado, e que cada vez que me parabenizarem com dois beijinhos no rosto, um deles foi por ti encomendado.
O amor que sinto por ti faz com que todos os dias me esforce para ser melhor, e com que, nas vezes em que me desvio desse lugar bonito que tanto visionámos juntos, a seguir nasça em mim uma dor e uma revolta sem fim, porque sei o quão bonito era o teu olhar cada vez que te dizia ter conseguido conquistar mais um bocadinho daquilo que ambicionámos. E que otimistas e bonitas eram as tuas esperanças.
Não consigo imaginar, por mais que tente, como será esse sítio em que agora, com toda a certeza, dominas com o teu charme, alegria e boa disposição. Mas espero que esteja à altura para receber um Pai tão incrível como aquele que tu és, e que, por mais que te tenha custado adaptar-te, agora já tenhas encontrado a Paz que tanto almejo para ti.

Amo-te com todo o meu coração, e se na tua vida via um exemplo, na tua morte vejo a brevidade da primeira, a força do amor, a mágoa da saudade. Por mais anos que passem serás sempre recordado em lágrimas, mas acima de tudo, e eu prometo que vou tentar, com um sorriso de orgulho, gratidão, respeito, e mil beijinhos enviados diretamente para o Céu.

terça-feira, 14 de março de 2017

Querida mãe


Querida mãe,



Hoje completas mais uma Primavera, daquelas em que o Sol nunca desaparece e faz desabrochar as flores mais bonitas do jardim. Continuas linda como eras quando, em pequena, usavas duas grandes tranças e tocavas piano. Hoje em dia ainda te recordas das cifras da "Noite Feliz" e, apesar de isso não ser importante, tens de admitir que te deixa feliz a memória não te atraiçoar!

Cresceste no seio de uma família que, acima de tudo, te amava mais do que tudo aquilo que há para amar, e onde reinava o sonho que pudesses chegar, com o teu irmão, mais longe ainda do que aquilo que ambicionavam para vocês próprios. Foste para a Universidade e, com o mesmo brio com que fizeste o teu curso, ingressaste no mercado de trabalho. Fizeste-te mulher, e, com uma saia pelo joelho, que jamais hoje usarias, foste para aquele que continua a ser o teu local de trabalho, há mais de vinte anos. É engraçado como, ainda hoje, as tuas amigas recordam a tua vivacidade e vontade de fazer mais, algo que, por mais anos que passem, jamais perderás.

Muitas coisas aconteceram ao longo destes anos, abraçaste muitos projetos e viste-te obrigada a ceder perante outros que, apesar de terem detido por algum tempo a tua atenção, não eram, realmente, aquilo que querias encabeçar. Ensinaste, e continuas a ensinar, e não há quem tenha sido teu aluno que não saiba, hoje em dia, as proposições, nem que seja pela obrigatoriedade de criarem um rap em que as mesmas constem. De tudo aquilo que recordas hoje com mais saudade e felicidade, num misto de dor e agradecimento, o pai é a constante, como se antes dele nada tivesse, para ti, importância suficiente para ser contado: sei de cor como se conheceram, como se apaixonaram, e conheço as vossas juras de amor quase tão bem como as que também eu própria hoje faço com aquele que também espero ser o homem dos meus sonhos.

Deste-me à luz, e, uns anos mais tarde, à Carolina. Lembro-me de ser pequena e de olhar para cima e ver o teu rosto, sempre tão cuidado e iluminado, como se me teres ao teu colo fosse uma bênção. Enganaste-te, mãe, bênção foi ter-te como mãe, e ter sido concebida nesse ventre que foi tão acarinhado durante meses e meses pelo pai. Lembro-me de me fazeres crer, tal como o pai sempre fizera, que se acreditasse com muita força nos meus sonhos eles se concretizariam. E tenho um número infindável de memórias tuas, contigo, ao teu lado, que não trocava por nada deste Mundo.

Quando escrevi o prefácio do "Madalena", e procurava as palavras certas para homenagear o pai, disseste-me que escrevesse que tinha um caráter imensurável. Escrevi-o, pois não há palavra do dicionário que melhor adjetive aquilo que era e é, e, hoje, digo-te que também tu tens essa qualidade. Porque sempre foste a nossa melhor amiga, minha, da Carolina e do pai. Porque quiseste ser minha confidente numa adolescência que nem sempre quis confessar, porque me apoiaste e me deste a garra necessária para que me sentisse invencível até o ser efetivamente. Porque sempre nos protegeste, porque sempre nos deste tudo aquilo que precisávamos, mesmo que isso não significasse tudo aquilo que queríamos e, acima de tudo, porque sempre foste um exemplo. Tu, o teu amor com o pai, a família que construíste. És não só aquilo que quero ser, mas aquilo que tenho de ser: porque a tua inteligência, sentido de humor e sensibilidade me enchem de orgulho, e porque é esse orgulho que sinto que quero também ver, um dia, espelhado na alma dos meus. Porque tu sabes, só nós sabemos, o quanto o teu coração é grande e a força com que amas, e essa força arrebatadora que supera a distância que não se conta em quilómetros. Porque te ergueste durante a tempestade, porque pensaste sempre em nós em primeiro lugar, porque nos dizes tantas vezes estar bem para nos ver bem.

Só te posso agradecer por seres uma daquelas mulheres que eu, com dezanove anos, ambiciono e luto por ser. O teu coração é do tamanho do amor que sinto por ti, e por mais que a vida nos fuja das mãos, e nós sabemos como ela é matreira, estamos juntos, os quatro, e o pai não podia estar mais descansado, sabendo que deixou os seus três tesouros juntos, abraçadinhas, tantas vezes na mesma cama ao fim de semana, a rir e a contar o que aconteceu.



Amo-te muito, muito, muito! Eu sei que, desde que o pai faleceu, este dia é diferente, mas queria que soubesses que nem por isso deixarei de te desejar um dia muito feliz!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Um novo renascer

As expetativas das outras pessoas dão-nos força, mas também nos retraem. Quando não nos conhecem, não esperam nada de nós, e tudo o que fazemos, por pior que seja, não as desilude. Quando sabem quem somos, quando já nos elogiaram, quando já nos disseram que conseguíamos fazer melhor, aí sim, esperam algo de nós. Que nos superemos, que cheguemos mais longe, que nos reinventemos. E cada passo que damos, cada coisa que fazemos, elas estarão lá, e serão cada vez mais críticas, cada vez mais exigentes. E esse medo de não nos superarmos, esse receio de não lhes darmos tanto quanto merecem, tanto nos incentiva como nos deixa sob luzes que não pedimos que nos encadeassem.
Hoje inicio o meu novo livro, reticente, sem grande confiança. Porque sei que esperam de mim aquilo que, apesar de acreditar ser possível, não posso prometer sem reticências. Que escreva sem parar, que seja rápida, que seja bom. Que aquilo que passe para o papel continue a fazer as outras pessoas rir, chorar, e, acima de tudo, sentir. Porque não escrevo para ter sucesso, já teria parado de o fazer há muito tempo se essa fosse a meta a alcançar, nem para ouvir que, de alguma maneira, o faço bem, mas porque preciso de sentir menos, com menor intensidade, e escrever faz-me sofrer menos, faz-me gritar menos, faz-me amar menos, quando o amor está prestes a sair-me do peito, porque nele já não cabe. Porque escrever exige que me silencie de todas as coisas que digo da boca para fora, e deixe voar aquelas que, por nada, digo a alguém. Porque escrever me faz refletir, reviver, e por mais que, por vezes, me magoe, deixa-me mais forte.
Deixar as palavras que me enchem a alma no papel, faz-me ficar mais leve, e por mais egoísta que seja ambicionar que, um dia, nada eu tenha que não sonhos, a verdade é que dar-vos aquilo que sou dá-me a oportunidade de, um dia, poder ser mais. A bagagem é importante, mas ter espaço para poder guardar coisas novas, é fulcral para quem não se contenta com aquilo que é, mais do que com aquilo que tem.
Tenho vontade de chegar cada vez mais longe, de abraçar cada vez mais pessoas que, como eu, procuram o conforto que precisam nas palavras dos seus iguais, que, pela diferença, nos agarram até à última página. Tenho vontade de escrever até que me doam os dedos, até que nada me reste para dizer, até que todas as personagens que me assombram o cérebro ganhem forma e sigam as suas vidas. Não posso prometer que o farei com a excelência que me é exigida, e que cada palavra vos vá tocar tanto como qualquer outra que já possa ter escrito, mas fá-lo-ei com o mesmo amor, este que cresce e me arrebata. Porque, no fundo, para lá de todas as vozes que possam dizer que já consegui, eu ainda estou a lutar pelo meu sonho, pelo sonho incrivelmente bonito e puro que é querer escrever para o resto da vida, assim, de modo despretensioso, sem esperar nada de vós, ansiando que também não esperem muito de mim.
Tal como foram os primeiros a saber que hoje iniciei esta jornada, também será convosco que partilharei o seu fim. Que esta necessidade desmedida de me libertar não finde, e que aquilo que, tantas vezes, apelidam de inspiração seja um rio que não seca, seja uma gargalhada que não tem fim, seja uma borboleta que, mais cedo ou mais tarde, brilhará fora do seu casulo. Que seja um caminho bonito, daqueles que fazemos sem medos, com os pés assentes no chão, mas com aquela sensação de que, se quiséssemos, os poderíamos sobrevoar só com o alento que nos dão ao percorrê-los.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2017

Ontem iniciou-se um novo ano, e com ele vieram todos os sonhos, esperanças e metas que esperamos alcançar. Vieram as promessas, os arrependimentos ficaram para trás, as decisões mais emblemáticas e as resoluções sólidas, cuja firmeza tantas vezes se perde ao longo dos dias. Vieram os beijos, os abraços, o fogo de artifício, o álcool em excesso, a alegria desmedida por se começar alguma coisa. Parece que, de um minuto para o outro, nos é dada uma nova oportunidade, e que, a partir dali, das doze badaladas, a partir dali, é que vai ser. Vamos esforçar-nos para sermos melhores, vamos trabalhar para nos distinguirmos daqueles que connosco competem por um lugar no mundo do trabalho, vamos amar mais, vamos ter mais tempo para aqueles que querem o nosso bem.
É bom ter um dia que simboliza o zero, o ponto de partida. Não é um recomeço, nunca será um recomeço. É reconfortante saber, e acima de tudo acreditar, que, de um dia para o outro, temos a possibilidade de começar uma nova vida, de decidir coisas importantes, de nos impulsionarmos e reinventarmos. Porque nem sempre é fácil termos a coragem necessária para acordar e dizer que aquele dia, que até então não era comemorado, será no próximo ano, por ter sido o dia em que fizemos algo por nós mesmos. Parece que temos de esperar que chegue este dia para escrevermos uma lista com objetivos e resoluções, parece que temos de esperar que chegue este dia para que digamos àqueles que nos perfuram a alma que não o voltarão a fazer, e àqueles que amamos que não os queremos perder. Parece que temos de esperar que chegue este dia para erguermos a voz e nos fazermos ouvir, para acreditarmos num futuro melhor, para lutarmos por um futuro melhor. Não são as doze passas, a taça de champanhe ou os votos de felicidades dos conhecidos e amigos que fazem do nosso ano diferente: somos nós. É a nossa ambição, força, esperança e perseverança. É o nosso querer, a nossa fé, é a forma como abraçamos os dias e como nos despedimos das noites. É o jeito como deixamos que nos amem e que amamos, a facilidade com que admitimos o erro e pedimos desculpa. É o facto de nos conseguirmos rir das nossas falhas e de nos sentirmos bem ao ponto de não termos de revelar aos outros o nosso sucesso. E é a maneira como olhamos para o Céu, para a Terra e para o Mar. A maneira como um dia de chuva nos entristece ou um raio de sol luminoso nos retrai e nos faz ficar em casa. São os nossos sonhos e a escalada que fazemos até à concretização de cada um deles.
A vida nem sempre nos vai sorrir e, saber aceitar a tristeza que tantas vezes a mesma acarreta, é tão nobre como festejar aquilo que de melhor nos dá. Que este ano todos nós sejamos um bocadinho mais de paz, de amor e de esperança. Que nada nos seja impossível se trabalharmos e que aqueles, com quem partilhamos o que de melhor e pior somos, fiquem connosco por muitos e bons outros começos.





terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cinquenta anos, querido Pai.

Querido Pai,
Hoje era dia de festa, de porco no espeto, de prendas, de beijos. Era o dia em que a meia-noite era ansiada por mim e pela Carolina e que, mal chegava, te surpreendia a ti com canções, textos, carinho e desenhos. Era o dia em que a casa se enchia de família, de amigos, daquele barulho que tanto nos reconforta o coração e nos relembra de que não estamos sozinhos. Os copos estariam levantados, dir-se-ia que por ti tudo, e sem ti "nada, nada, nada", e, quase que posso apostar, seria um dia muito feliz, afinal, só se fazem 50 anos uma vez.
Infelizmente, não tiveste essa oportunidade, e não celebrámos hoje contigo meio século, porque a vida não to deixou viver. Ao invés de te abraçarmos à meia noite, e de passarmos o dia a passear ou a organizar uma festa, a mãe comprou um grande arranjo de flores brancas onde colocou uma fotografia do vosso casamento e as três, tal como sempre fazemos, fomos visitar-te ao cemitério. Não te cantámos os parabéns, e desculpa, mas não preparei com a Carolina nenhum teatro ou dança: ficámos simplesmente ali, a deixar a tua campa bonita como sempre está, em silêncio. Não imaginavas assim os teus cinquenta anos, pois não? E não é triste como a vida nos impede de concretizar os nossos planos, e nos afasta daqueles que mais amamos?  A verdade é que aí, no Céu, talvez tenha sido só mais um dia. Aqui também o foi, mas para nós foi um dia ainda mais triste, porque a revolta, Pai, a revolta... mói. Esmurra-me o estômago. Tira-me a fome. E a única coisa que me reconforta é lembrar-me de todos os aniversários que passámos juntos, e de todas as prendas que te dei, de todos os textos que te escrevi. A única coisa que me reconforta é saber que te amei e amarei com todas as minhas forças, tal como tu a mim, e que jamais nos abandonaremos.
Hoje fazias cinquenta anos. E há quase três anos, quando te vi pela última vez, eras lindo. Tenho a certeza de que nada mudou, e se aqui estivesses serias o cinquentão mais charmoso de Leiria, tal como eu, a mana e a mãe somos, para ti, as mulheres/meninas mais bonitas do Mundo.
Que a paz more no teu coração, e que vivas a morte com a mesma serenidade com que viveste a vida. Feliz aniversário, pai! Amamos-te muito! Hoje e sempre! Obrigada por nos teres deixado tanta coisa invisível aos olhos.
Muitos muitos parabéns, meu amado Pai. Continua a cuidar de nós e que contemos o teu aniversário por muitos e muitos anos, tantos até o celebrarmos aí, todos juntos.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Já assim, velhinhos

Um dia todos vamos envelhecer, não vamos? As rugas vão mostrar ao Mundo o quanto sorrimos, o quanto chorámos, o quanto amámos. A nossa memória terá cada vez mais coisas para guardar, mas nós teremos cada vez menos força para nos recordarmos de tudo. Os nossos olhos quererão ver mais coisas, mais paisagens, mais vidas como as nossas, mas nós só vamos ver ao perto, cada vez mais ao perto. Com a idade, vamos conhecendo cada vez melhor os sons, e distinguiremos, na perfeição, o chilrear do pequeno pássaro que teima em cantar às oito da manhã de todos os barulhos da Natureza; a buzina do carro do nosso pai que é mais aguda do que a do carro da nossa mãe e o barulho que os nossos filhos farão a descer as mesmas escadas, e que é tão diferente... Mas um dia iremos confundir alguns deles, porque são tantos sons, tantas melodias... Os nossos pés, que já viajaram tanto, vão cada vez conseguir dar menos passos, e, por mais que queiramos correr, só iremos andar, A vida vai-se encarregando de nos ensinar que nem sempre será como queremos, mas só e simplesmente como conseguimos. Que com o tempo, é o tempo que manda. E que por mais que queiramos continuar a levar um quotidiano acelerado, cheio de pressa, frenético como a cidade que não dorme, um dia todos nós seremos prado, campo, serenidade e a leve brisa do verão que passa por nós sem darmos conta.
Um dia todos nós vamos aperceber-nos de que a vida finda e de que não há nada que possamos fazer senão aceitar e viver o que nos resta. Vamos perder aquela vontade louca de viver como se não houvesse amanhã, como tantas vezes sentimos na adolescência, e provavelmente até vai existir dias em que teremos quase a certeza de que não haverá assim tantos depois daquele e aí, aí, ao contrário do que faríamos uns anos antes, não vamos beber até perder o norte, nem beijar até os nossos lábios arderem de paixão... Possivelmente nem sequer vamos escrever uma lista com desejos, com coisas que queremos concretizar, porque, nessa altura, já saberemos que o facto de pormos no papel não faz com que o consigamos realizar. Então que faremos? Quem seremos antes de não sermos mais nada, nunca mais? Não vamos chorar, não vamos fazer promessas, de nada nos vale rezar. Que faremos? Onde iremos? Como se recebe a morte? Teremos a coragem suficiente para ficarmos simplesmente sentados num banco de jardim com um livro ao colo à espera que ela nos feche os olhos e nos embale?
É assustador imaginar que, um dia, vamos chegar a uma fase da nossa vida em que sabemos que já não temos assim tanta vida pela frente, e que poucas serão as coisas que não fizemos até lá e que ainda poderemos idealizar... Lamentar-nos-emos pelas palavras que não dissemos? Gritaremos pelas horas que perdemos? Como será esse momento que tanto nos assombra e fascina?
Um dia todos seremos velhinhos, e vamos provavelmente olhar para o futuro com a cara enrugada e os olhos em lágrimas: que sejam de esperança, de orgulho, de saudade antecipada. Que sejam por termos vivido um grande amor, que sejam porque termos rido até mais não. Um dia todos partiremos. O melhor era que todos partíssemos apenas assim, velhinhos, com histórias para contar aos netos, a andar porque já não se corre, a ver ao perto porque longe já é complicado, no campo porque toda a vida já foi na cidade.
 
   

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Receios

Receio não te ter dito que te amava vezes suficientes, todas as vezes em que te amei. Receio não te ter mostrado o quanto te admirava, e em como eras, para mim, um porto seguro, onde o mar não tinha corrente, e onde a areia não tinha conchas partidas. Receio ter guardado para mim tantos agradecimentos, tantas palavras de conforto, de carinho, de amizade, de admiração, e receio ainda mais que, no meio de todos os meus silêncios, não me tenhas ouvido falar.
Escrevo muito. Tanto quanto te amo. E gostava de conseguir dizer-te tudo aquilo que escrevo, e que me enche o coração e a alma, e me faz sorrir e chorar, que me emociona, que me enfraquece quando não me faz mais forte, mas não consigo. E, por isso, hoje digo-to por aqui. Digo-te que te amei muitas mais vezes do que aquelas em que to segredei, e que não te dei tantos beijos quantos aqueles que os meus lábios queriam, e que também não te pedi perdão todas as vezes em que me senti arrependida.
Digo-te hoje, sem vergonhas, sem medos, mas com muitos receios. Com receio que não te tenha conseguido dar tudo o que merecias, com receio que não tenha sido tudo aquilo que esperavas. Porque eu erro, e quantas vezes errei, e provavelmente perdoaste-me primeiro que eu a mim própria. Porque eu avanço, recuo, estou presente, mas tantas vezes chamaste por mim sem resposta, porque sabes, eu sou um espírito livre, uma alma sem dono, e toda a minha imaginação, todos os meus sonhos, tudo aquilo que eu sou é indomável, é fogo, é vento. Gostava de te dizer que desta vez seria diferente, e que existe um sítio no Mundo onde eu quero estar, e onde te prometo ser como esperas que seja, e dar-te aquilo que me dás, mas eu não sei se to posso prometer, e se é justo que nós, que vivemos a flor da idade, dos sonhos, da esperança, nos prendamos a promessas. Porque a vida nem sempre cumpre aquilo que nos prometeu, e porque as pessoas mudam, e, mesmo que os sítios fiquem nos mesmos lugares, deixam de ser nossos, para ser de alguém, para não serem de ninguém.
Receio que não te tenha conseguido mostrar aquilo que de mais profundo e bonito sinto, e receio-o principalmente porque sei o quanto gostarias de conhecer este amor que nutro desenfreadamente por ti, receio porque to mo mostraste, e como foi bom sentir que me amavas e que, por mais tempestades, dias difíceis, ausências, to me ias sempre amar.
Hoje olho para ti e sinto uma paz que nem sempre me foi característica: sinto que, por mais anos que passem, tu serás sempre o meu lugar preferido onde, por mais tempo que esteja longe, serei recebida de braços abertos, disposto a ouvir-me, a acarinhar-me, a amar-me. Porque é isso que fazes de melhor, porque é isso que és de melhor.
Receio, que um dia, quando a vida passar, me vás esquecendo, e que percas o meu cheiro no meio de todos os outros, e não recordes mais os meus vícios, as minhas manhas, os nossos sonhos. Que a nossa história seja eterna, e que a pintemos das cores mais felizes que as nossas tintas, as nossas lágrimas, os nossos sorrisos, consigam. Porque todos estes receios são fruto de um amor que não dorme, não descansa, não acalma. Que a vida fosse só amar, e como seríamos nós felizes.

sábado, 9 de abril de 2016

09-04-2016: dois anos desde a tua partida.

Querido pai,
No dia em que celebraremos o segundo aniversário do teu falecimento, não poderia deixar de te escrever. Como o tempo consegue, ao mesmo tempo, passar tão rápido e tão devagar. Às vezes parece que não te vejo há tanto tempo que se torna difícil recordar com exatidão o teu rosto; outras vezes, sinto que ainda ontem te abracei e te disse que ia dormir, certa de que te veria no dia seguinte. Hoje, por volta das seis e meia, realizaremos uma missa em tua honra, onde os nossos amigos e familiares marcarão presença, numa singela homenagem ao grande Homem que foste e serás.
Sinto-me triste todos os dias, por mais que ninguém o veja, e que poucos o saibam, sofro muito. Sofro muito, e sinto muitas vezes que devia chorar, devia viver o luto, sem conter os gritos, a raiva, as lágrimas, mas não consigo. Não consigo libertar-me desta máscara que criei para mim e onde me protejo, não consigo chorar tanto quanto queria, e principalmente, tanto quanto preciso, porque chorar implica explicar a todos aqueles que me rodeiam que ainda não consigo acreditar, e que ainda espero que tudo isto não passe de um pesadelo, e que um dia, tal como escrevi no meu livro, na "Madalena", tu regresses, rodando a tua chave na porta, com o teu sorriso e a tua barba, com a tua esperança e com a tua garra, com o meu porto de abrigo, com os meus sonhos, com a minha alegria.
Há dias particularmente difíceis, e este já está a ser um deles. Está a ser um deles porque hoje as pessoas abraçam-me e beijam-me mais do que o habitual, e falam de ti, e dizem-me que tens orgulho do que tenho feito e naquilo em que me tenho tornado, e ao invocarem o teu nome relembram-me de como durante dezasseis anos fomos uma família tão feliz e unida, e em como nada podia ser melhor. Abraçam-me e beijam-me e eu não consigo não acreditar que estás morto, porque se estivesses vivo não rezaríamos por ti, e as pessoas não choravam, e a mãe não estaria particularmente desanimada e a tentar desesperadamente que não o notemos.
Nestes dois anos que passaram por vezes a voar e outras vezes como se alguém me cravasse as suas unhas no meu peito até sangrar, nunca te esquecemos por um segundo. Só te posso agradecer por isso, por teres sido tão bom, tão grande, que jamais me senti perdida por não me lembrar de ti ou de nós. Obrigada por estares em mim e por fazeres com que seja melhor. Obrigada por seres o pai mais presente do Mundo, mesmo estando a quilómetros e quilómetros de distância, numa viagem que não terá fim e onde nos encontraremos mais cedo ou mais tarde. Prometo que ainda nos vamos ver, e que continuarei a ser a tua bebé, e que levarei comigo muitas vitórias, muitos sonhos concretizados, e muitos, muitos beijinhos, todos aqueles que guardei desde que partiste e que anseio desalmadamente libertá-los.
Amo-te muito! Lembrar-nos-emos para sempre do dia em que morreste, mas lembrar-nos-emos ainda mais do tempo em que viveste, e será sempre esse que recordaremos com um sorriso e com saudades.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Uma casa vazia

Vivemos, durante toda a nossa vida, numa busca incessante pelo conforto, pela estabilidade, pela paz. Procuramos, mesmo que acreditemos que não o fazemos, durante toda a nossa vida, pertencer a algo, a alguém. Assusta-nos ficarmos sozinhos, assusta-nos morrermos sozinhos. Imaginamos o nosso futuro e, inevitavelmente, imaginamo-lo perto de alguém. Conseguimos ver os sorrisos, ver as conquistas. Criamos uma casa vazia onde, aos poucos, o vazio se vai enchendo e vai dando lugar a um "nós" que jamais poderei ser só "eu": de móveis, de quadros, de pessoas, de memórias. O mar, com toda a sua irreverência, avança e recua, e nós, ali, nunca sozinhos, deixamos que ele nos molhe os pés, que ele nos molhe os pés até já não os sentirmos, de tão frios que estão. Vamos, então, para casa e aquecemos os pés um ao outro. O sol, também esse indomável, faz sentirmo-nos livres, livres para passear, para descobrir, para acreditar que o dia não acabará, e que nessa luta entre a luz e a imensidão das trevas, o sol vencerá. Nós os dois, que jamais imaginaremos estar sozinhos, iremos cuidar das sardas que alegram o rosto um do outro; iremos encontrar uma sombra que nos acolha de braços abertos e que nos faça conseguir ler aquele livro que ambos gostamos, apesar do sol imenso dessa tarde de primavera. À noite, quando o dia não vencer, e as estrelas teimarem em esconder-se, nunca nos sentiremos às escuras: eu serei a tua luz, tu serás a minha. Quando não souberes para onde ir, eu saberei onde te levar. Quando me sentir perdida, cheia de tudo e farta de nada, procurar-te-ei, e mesmo que nada esteja a nosso favor, e que todas as casas estejam ocupadas, todas as casas que poderiam ser nossas, e nas quais guardaríamos memórias, cores, sonhos, ficaremos, juntos, debaixo daquela ponte onde um dia nos podíamos ter cruzado. Não nos parece justo, assim sendo, não termos a oportunidade maravilhosa que é sermos felizes com alguém. Não nos parece justo que não tenhamos ninguém que sinta os nossos lábios, que queira envolver-nos nos seus braços e que veja em nós aquilo que mais ninguém viu. A beleza do meu acordar, a forma como os meus cabelos preenchem as minhas costas, a maneira como vejo o Mundo. Não somos mais, nem menos, e só pedimos que alguém que nos ame, nos compreenda, nos estime. Só queremos que exista alguém, por aí, que não peça demasiado, mas também não espere tão pouco. Que se aventure connosco nisto que é a vida, e que queira ler muito, viajar muito, sonhar muito, e sonhar alto. Que nos dê uma oportunidade para aprendermos, para nos apaixonarmos, para nos libertarmos. Procuramos uma companhia. Que não nos deixe morrer assim, sem ninguém, e que quando partirmos, nos recorde com saudades e conte, àqueles que o rodeiam, as nossas peripécias, as nossas histórias, os nossos feitos.
Não imaginamos estar sozinhos, porque isso parece implicar não ter filhos, não ter família, não ter almoços ao domingo, não ter surpresas depois de um dia cansativo de trabalho. Não imaginamos estar sozinhos porque, quando o estamos, parece que toda a gente tem alguém, e como é horrível ter de pôr sempre a chave na porta e nunca ninguém nos abrir quando tocamos à campainha. O que está em causa não é o agora, é, mas não é. É mais o futuro, essa incerteza sobre a qual tanto especulamos. É assustador, e ao mesmo tempo fascinante, não sabermos se daqui a alguns anos pertenceremos a algo, a alguém. Se teremos uma casa para mobilar, com coisas materiais, mas principalmente com aquelas que não o são; e não conseguirmos prepararmo-nos para a solidão, ou, por outro, para o amor, para a partilha, para a dor do outro, que, quando se ama, nos entristece mais que a nossa. E sonhamos, sonharemos sempre, e por mais que pensemos nisso provavelmente tudo será tão diferente, talvez melhor, talvez pior.
O importante é que, por mais que tenhamos medo de estarmos sozinhos, percebamos que a solidão não é sinónimo de tristeza, de rua amargurada, de céu cinzento. Que existem restaurantes abertos ao domingo, e que podemos reservar mesa só para um. Que viajar é a forma mais emocionante de nos afirmamos como seres livres, e que o facto de ninguém aplaudir as nossas batalhas ganhas não quer dizer que não tenhamos sido fantásticos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Querida Sofia

(Esta é a carta que a Madalena não chegou a entregar à sua querida filha Sofia, uma criança com um coração tão grande quanto o do seu avô, que aceitou um irmão adotado como se desde pequena o conhecesse e que só queria ver os seus pais juntos, e felizes, para sempre.)

Para a minha querida filha Sofia

Tem um bom dia, meu amor. Um dia tão bonito quanto o teu sorriso neste despertar. Acorda bem-disposta, veste-te, toma um bom-pequeno almoço e voa para longe de mim, para junto de todos aqueles que também te merecem ter. Vai com cuidado e, por favor, não te desconcentres na estrada: tens de olhar sempre para a esquerda e para a direita, e não te esqueças de que não é por ser uma passadeira que te podes aventurar num chão feito de zebras. Aprende muito, aliás, esforça-te para que nenhum dia seja em vão, para que o teu acordar não seja "por nada". Diverte-te, brinca, salta o mais alto que conseguires e não desistas só porque te dizem que jamais tocarás nas nuvens; respeita-te e respeita os outros, e recorda-te sempre de que a tua liberdade acaba onde a do próximo começa. Ri-te muito e faz os outros rir, como só tu sabes! Não excluas e não deixes que ninguém te ponha de parte. Basta seres tu própria: alegre, cheia de vida. Ensinar-te-ei mais tarde que nunca poderemos agradar a todos e que, por isso, é normal que nem todos aqueles com quem te cruzas sejam teus amigos para "todo o sempre", como nas histórias de encantar.
Quem me dera ter a tua idade de novo e ser assim, tão apaixonada, tão genuína. Com a idade vamos perdendo a nossa ingenuidade, vamos deixando de acreditar nos nossos sonhos, porque a ciência substitui a esperança no impossível, e começamos a ter uma visão muito menos colorida que a tua. Que isso demore a chegar, minha querida Sofia. Que continues a desejar, mais que tudo, um dia ser uma princesa, e que não te pareça impossível ser médica, cabeleireira e jardineira ao mesmo tempo. Que continues a amar os animais e que te emociones cada vez que o teu irmão te abraçar com força. Que sejas sempre solidária como até agora foste, e que me contes sempre o teu dia quando chegares da escola. Sem omissões, sem medo que, por algum motivo, te repreenda. Que continues a não distinguir as cores, porque isso só traz problemas, e que acredites para sempre que, no Mundo, só há pessoas boas. Espero que, por muitos anos, me vejas como uma heroína e ao teu pai como o super-herói mais admirado de toda a cidade e que, mesmo que tenhas mil e um amigos, e pessoas com quem amarás estar, jamais prefiras o café ao conforto do nosso sofá azul onde tantas vezes te contámos histórias. Quem me dera poder proteger-te para sempre, e deixar-te aqui, no sítio mais seguro do Mundo, perto de mim, do papá João e do Pedro. Se eu pudesse!
Mas não posso. E nós, mães, queremos inconscientemente que os nossos bebés, que para nós nunca o deixam de ser, fiquem connosco, para que cuidemos deles, para que, mais tarde, eles cuidem de nós. Mas a vida é uma estrada, com tantos quilómetros quantos aqueles que eu percorria por ti, e eu sei que tenho de te deixar ir. Sei que tens de fazer alguns percursos sem mim; outros precisarás que esteja ao teu lado, a apoiar as tuas decisões. Sei de tudo isto, mas mesmo assim custa, e cada vez que penso que vais crescer, e que um dia serás tu a ter força para me pegar ao colo, sinto um aperto muito grande no coração, porque só Deus sabe o quanto eu e o teu pai te amamos, e o quanto almejamos que sejas ainda mais feliz que nós.
Só te peço uma coisa, minha Sofia: cresce devagarinho. Um dia de cada vez, não tenhas pressas. Não arrumes as tuas bonecas no sótão cedo de mais, e não permitas que haja alguém que te diga que a fada dos dentes nunca existiu. Deixa-me pegar-te ao colo e beijar-te o rosto quando te levo à porta da escola e nunca recuses que te aperte essas bochechas pequeninas que herdaste do teu querido pai.
E sê feliz, pequenina! Sê feliz todos os dias, sê feliz como a mãe é, mesmo que nem sempre tudo corra como gostarias. Tens de ser forte, olha para mim. Olha para mim porque me esforço todos os dias para ser um exemplo para ti! Olha para o teu pai, porque ele, tal como eu, só quer iluminar o teu caminho e fazer de ti a pessoa mais acarinhada do Mundo.

Madalena



sábado, 29 de agosto de 2015

"Seremos o lugar onde tantas crianças sonham tocar (...)"

Na imensidão do céu, há sempre espaço para mais uma estrela. Por mais que ele se vá preenchendo, por mais que pareça que só existe lugar para mais uma, é surpreendente como se vão juntando e acumulando, uma a uma, por vezes em fila, outras vezes espalhadas por aquele mundo sem fim, onde o Homem tantas vezes já sonhou estar, mas onde, quando lá se encontra, se assusta e tem saudades de aqui estar. Todos nós um dia seremos estrelas, pequenas para quem nos vê como só mais uma numa noite iluminada, guias para aqueles que nos procurarão para reconfortarem os seus corações. Um dia todos nós partiremos, todos nós seremos estrelas cintilantes, à procura de um lugar no céu, tal como, durante a nossa vida inteira, procurámos um lugar na terra. A vida é feita de procura, da busca incessante: umas vezes com sucesso, outras vezes nunca encontramos aquilo que almejamos. Ter um lugar aqui, na terra, ou ali em cima, no céu, não depende só de nós, mas em muito está em nós: ser forte, ser crente, ser sonhador. Ter ambição e vontade e acreditarmos que alcançaremos tudo aquilo a que nos propusermos. Um dia faremos parte de uma constelação. Seremos o lugar onde tantas crianças sonham tocar quando nos vêem pelo telescópio, no sótão, e seremos, também, os ouvidos de todos aqueles que estão longe do seu amor, e que, na escuridão da noite, pedem-nos a nós, estrelas, que façamos com que a pessoa que mais amaram em vida, saiba que não a esquecem na morte. Quando todos nós formos estrelas, não haverá passado nem futuro, não haverá sonhos, nem desilusões. Estaremos ali, apenas ali, no céu, no escuro, escondidas ou cintilantes, entre as gotas da chuva, protegidas por uma nuvem maior, a criar os ambientes mais românticos ou a testemunhar as lágrimas mais sofridas.
Um dia, todos nós partiremos. Longe da pena, da saudade, do remediável, do reversível. Não seremos pó, não seremos lembranças, seremos estrelas. E brilharemos! Brilharemos como se não houvesse amanhã, até porque, para nós, estrelas, já não existem dias: somos apenas a noite. E, por mais que isso agora nos pareça distante, e nos faça ter medo, é o nosso destino, e temos de o aceitar com a mesma convicção com que uma árvore aceita ser despida no outono. Se anseia pelo momento em que todas as suas folhas partirão, e a deixarão ali, despida, desprotegida? Não. Mas sabe que esse momento vai chegar, e tem a serenidade e a quietude de o receber, como quem recebe o sol da primavera, e vê crescer em si bonitas flores ou saborosos frutos.


terça-feira, 14 de julho de 2015

15-07

Pai, hoje sinto tantas saudades tuas. São saudades tão sofridas, tão minhas, que não consigo partilhar com ninguém, o que faz com que, por momentos, Lhe peça que mas leve, porque não acredito conseguir viver com elas. São saudades daquelas que cortam a respiração e me fazem chorar compulsivamente agarrada a memórias distorcidas e a um rosto já falecido, visto no dia do teu funeral, quando te dissemos que te amaríamos para sempre. Amo-te tanto, meu querido pai. Há dias mais fáceis, em que me lembro de ti com uma saudade melhor, menos sofrida, repleta de orgulho e de esperança num futuro melhor. Mas há outros dias... em que sinto-me fora de mim, transfigurada, fragmentada, desfeita. Em que sinto que não aguento mais, que vou desabar, que o único sítio onde encontrarei paz é ao teu lado, no sítio onde acredito que estarás também és paz. Tenho sido uma guerreira. Temos sido as três, cada uma de nós como pode, como vai vivendo. Procuro-te pela casa, pela rua, no céu quando viajo de noite. Gosto muito de fixar uma estrela, a que brilhar mais, e ver se ela me segue até casa: quando isso acontece, acredito que sejas tu que me acompanhas e zelas pelo meu regresso ao lar. Amo-te muito! Obrigada por estares comigo, por me guiares, por me dares força para ser determinada e ambiciosa para chegar o mais longe possível. Estou sempre a pensar em ti e sei que tu também pensas em nós. Tenho saudades da tua voz e anseio ouvir o seu eco na nossa casa. Onde quer que estejas, está ciente de que nenhuma de nós se esquece um segundo que seja de ti e dos valores intemporais que nos deixaste. És um tesouro tão grande, tão raro que, por vezes, tenho medo de te desiludir, de não honrar o Homem e o Pai que foste. Esforço-me muito, todos os dias. Quero que olhes para mim e te sintas orgulhoso, que sintas que, por mais desorientada que hoje me encontre, nunca enveredarei por um caminho que te desagrade e que, por isso, podes dormir descansado.
Ainda não percebo o porquê de Deus te ter levado, e sinto muito raiva e mágoa pela tua partida porque tu eras e és a pessoa que eu mais amo no Mundo, e que sinto que me vai proteger para sempre. Sei que éramos iguais em muitas coisas, e que tu acreditas muito em mim, nos meus sonhos, nas minhas esperanças.


Sabes o quanto eu te amo. Não consigo escrever mais hoje, as lágrimas inundam o teclado do computador que tu e a mamã me ofereceram pelas minhas boas notas no oitavo ano. Muito obrigada por tudo. ÉS O MAIOR. Amo-te. És o meu anjo da guarda. E eu sei que nunca morrerás em mim!


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Feita de sonhos

Quando somos pequenos acreditamos que, um dia, teremos o Mundo aos nossos pés. É uma sensação fantástica aquela de acreditar que nunca é tarde de mais, e que ainda não chegou a nossa vez, "mas que está para chegar". Acreditamos que os dias maus são só para os outros e que os acidentes e as doenças são "coisas dos nossos primos muitos afastados". O tempo vai passando e, durante muitos anos, nós somos sonhos, apenas sonhos. Vivemos um dia de cada vez não com medo do dia seguinte, mas porque queremos aproveitar tudo ao máximo, sem pressas, na esperança garrida de que haverá sempre mais um dia, e que, para nós, o tempo é infindável. As tristezas são sol de pouca dura, e a chuva é fantástica porque rega o quintal dos nossos avós. Não vemos noticiários, e quando vemos não percebemos, mas "lá em casa vemos cada vez menos porque os meus pais dizem que são só desgraças". Não percebemos, aliás, muitas das vezes achamos que os adultos só podem ser disparatados, porque o Mundo não é nada como eles dizem! Avisam-nos para termos cuidado, pedem-nos para olharmos para os dois lados quando atravessamos a estrada, mas a verdade é que nós acreditamos que os carros vão parar e, se a bola que o João chutou vai para o meio da estrada, corremos sem medo para a apanhar, antes que a mãe dele ralhe por a bola se ter furado! Somos tão inocentes, tão felizes. A ignorância faz de nós donos do Mundo. Uma ignorância tão boa, tão saudável. Faz parte de nós ser assim. Ser sonhos, ser feitos de sonhos. Querer chegar à Lua como quem vai à padaria do Tio Zé e acreditar que vamos ser médicos e cabeleireiros e, quem sabe, jogadores profissionais de ténis de mesa. Ambicionamos tantas profissões, ter uma vida tão ocupada, com tanto trabalho, que nem nos lembramos que, caso conseguíssemos ser tudo aquilo que dizemos querer ser, mal teríamos tempo de nos sentarmos no sofá a ver os desenhos animados que tanto gostamos! Não obstante, adultos, escusam de nos dizer, quando somos crianças, que não podemos ser quatro profissões ao mesmo tempo: não queremos saber, simplesmente queremos ser!, e, quando se é criança, isso é o suficiente. Os nossos pais choram quando alguém parte e nós não percebemos o porquê de tantas lágrimas porque na catequese dizem-nos que "os melhores vão para o céu primeiro". Os nossos pais ralham-nos quando não estudamos ou quando tiramos más notas e nós ficamos realmente magoados, porque só nós sabemos o que estudámos (mesmo que tenha sido pouco, podíamos ter feito mil coisas mais interessantes quando pegámos nos livros!) e, para além disso, não precisamos de matemática para ser polícias! 
Temos tantos sonhos. Somos feitos deles, e de ilusões, e de histórias que impreterivelmente vamos escrevendo e nas quais fazemos ilustrações lindíssimas e cheias de cor, "tal e qual o Mundo é".

Aos poucos, como quem sobe pela primeira vez as escadas íngremes do palácio da Princesa Diana, vamos apercebendo-nos de algumas coisas e algumas delas, ai!, "quem nos dera nunca perceber!". Vamos perdendo muitas das ilusões que nos enchiam o coração de esperança e quando, ao jantar, os nossos pais insistem em pôr o noticiário, começamos a compreender o que os jornalistas dizem, com aquelas vozes ensaiadas e verdades escondidas. Na catequese, obrigam-nos, muitas vezes, a acreditar em coisas que não nos explicam e a Beatriz, que sempre foi mais adulta que nós, está a dizer que "não acredita no que não vê". Na escola disseram-me que não posso ser duas coisas ao mesmo tempo e que se neste país já conseguir ser uma devo dar-me por sortuda. Quando tiro uma má nota já não é preciso os meus pais me ralharem: fico mais tristes que eles, afinal, é o meu futuro que está em jogo! Tudo conta. Temos de nos aplicar. De lidar com pessoas de quem não gostamos e que, muitas das vezes, não nos respeitam, mas a nossa mãe diz-nos que, apesar disso, temos de as respeitar. Amamos como se não houvesse amanhã mas agora já ninguém nos pede em casamento como quando éramos crianças: o amor é assim mais leve, menos intenso... "um dia de cada vez". Não por querer viver tudo, mas por ter medo do futuro. Ao contrário de quando éramos crianças.

Um dia olhamos para trás e rimo-nos de nós próprios. Como é que é possível termos acreditado que o Mundo era assim?! Como é que é possível termos querido ser tantas coisas e pior, como é que achávamos que íamos conseguir concretizar todos os nossos sonhos? Onde tínhamos a cabeça quando achávamos que os nossos avós nunca seriam velhos de mais para partir, ou que os acidentes não existiam e que, por isso, nunca teríamos que chorar como os nossos pais? 

Eu sei onde tínhamos a cabeça. Tínhamos a cabeça nos sonhos! Quem me dera nunca ter deixado de ser feita deles.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Um ano desde a tua partida, pai.

Passou um ano. Como? Não faço a mínima ideia. Sinto-o como se fosse ontem. A intensidade do meu choro, do meu desespero e a força que faço para encarar todos os dias com um sorriso continuam a ser exatamente as mesmas de há um ano, quando o meu pai partiu para o Céu. As dúvidas não se dissiparam, antes pelo contrário: cresceram, e cresceram tanto que, por vezes, sinto-me "feita" de dúvidas, de questões que sei que jamais encontrarei resposta, mas sobre as quais é inevitável não me debater. Quem me conhece, sabe que sou católica, catequista até, e que, por isso, acredito muito em Deus, algo que me foi, primeiramente, incutido pelos meus pais. No dia em que me disseram que o meu pai se tinha ausentado para sempre, ajoelhei-me no chão da sala com o meu vizinho e rezámos, em conjunto, a Deus. Não estava ainda nada confirmado e, na minha cabeça, aquela oração podia mudar tudo. Rezei com tanta força e convicção, que a minha desilusão com Deus, quando soube que o meu pai tinha efetivamente morrido, não pode ser expressa em palavras. É tão difícil aceitar que Deus, o meu outro Pai, uma figura que me é tão querida, e com quem tantas vezes desabafei, me tirou uma das pessoas mais importantes da minha vida. Porquê?! Expliquem-me, por favor. Consolem esta minha mágoa que não vai embora, que me enche de lágrimas, de revolta, de sonhos destruídos, de pontes divididas a meio. Explica-me, Deus, por favor, o porquê de teres levado um Homem que, em vida, foi mais do que tanta gente que conheço e que se esforçou tanto para dar tudo àqueles que amava. Tem de haver uma explicação, não tem? Porra, eu amava e amo o meu pai TANTO! Era e é o meu ídolo e, ao mesmo tempo, o meu maior fã. Porque é que mo tiraram? A mim, à minha irmã, à minha mãe? Porque é que a vida levou  um Homem como tu, papá? Eu não quero acreditar que passou um ano, não quero, nem consigo acreditar que passou tão rápido e que, por outro lado, ainda vou ter de aguentar tantos anos quanto este, cheios de mágoa e de saudade. A vida é madrasta. Madrasta, difícil, estúpida. Qual é o direito que a vida tem de ser assim breve, de ser assim decisiva, de nos tirar tudo de um dia para o outro?
Já não acredito que vais voltar. Sei que não posso acreditar, porque isso me faz sonhar com o teu regresso e chorar ao acordar, Tenho de acreditar que foste para um sítio melhor, e que estás em Paz a observar-nos e a fazer com que consigamos concretizar todos os nossos sonhos, como sempre quiseste. Mas como é que queres que isso me conforte, pai,
se sei que aqui estavas em paz, e ao nosso lado, no melhor sítio do Mundo, o nosso lar?

Amanhã realizar-se-á uma missa em tua homenagem, no Convento dos Franciscanos, em Leiria, às sete e meia. Obrigada por estares em mim e por nunca me teres abandonado durante este ano. Obrigada por me teres amado como se estivesses aqui. És o meu Mundo, pai.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Dentro de mim. Tu sabes.

Pai,
Os dias têm passado. Um de cada vez, como quando aqui estavas. Cada dia continua a ter vinte e quatro horas. Continuo a ir para a cama por volta das dez e meia; a acordar às sete e meia para ir à escola, mas agora, desde que partiste, é a mãe que me faz o pequeno-almoço. Há dias melhores, outros piores. Quase um ano desde a tua partida, penso agora, quando te escrevo esta carta. Sinto a dor de te ter perdido com a mesma intensidade que na altura, quando recebi a notícia da tua morte. Parece que foi ontem...Disseram-me que este vazio que sinto ia diminuir com o tempo. Que a saudade que me revoltava e me fazia querer destruir tudo o que está à minha volta ia desaparecer, ia atenuar, porque nasceria em mim uma "saudade boa", que me faria recordar os bons momentos que passámos.., A verdade é que, todos os dias, me controlo tanto, faço tantos esforços, finjo tanto... Tu sabes. Tu sabes, porque estás dentro de mim, e sei que és tu que puxas as minhas lágrimas para dentro, quando sinto uma tristeza tão violenta que só se acalma ao escorrer pelo meu rosto. Tu sabes, porque vais a caminhar ao meu lado, quando estou na rua e vejo tantas famílias, tantas famílias que podíamos ser nós. Tu sabes, porque ouves as minhas conversas com Deus, ouves o quanto peço que Ele te traga de volta e ouves todas as vezes em que peço perdão por não ter sido uma filha melhor, mais presente. Tu sabes, pai.
Ainda hoje me interrogo porque é que Ele te levou. Sei que é uma pergunta para a qual jamais obterei resposta, mas isto não me impede de me questionar sobre o motivo da tua partida. Porque eu sei que tu não merecias, que tu não estavas pronto.
Deixaste-me a melhor mãe do Mundo. Que te ama todos os dias mais, tal como acontecia em vida. Tu sabes, tu consegues ouvi-la a falar de ti. Tu sabes, consegues vê-la a olhar para ti, a procurar-te onde quer que esteja.
Estou a lutar por nós. Juro que estou. Pela mamã, pela mana. A lutar para que nos mantínhamos unidas, para que a tua ausência não nos corrompa.
Estou a homenagear o Homem que foste, o Pai que és.
Não tenho palavras. Tu sabes. Tu sabes, porque vives em mim. Porque eu abri o meu coração e deixei que encarnasses no meu corpo, para que tenhas outra oportunidade de viver e para que eu consiga ser feliz.
Era impossível estarmos mais juntos, pai. 



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Encontrar-te de novo

Todos os dias me lembro do meu pai, da sua voz, da forma como fazia tudo para me ver sorrir. Aquele jeito tão dele de mostrar que me amava, as suas palavras sussurradas antes de eu adormecer e o volume do seu orgulho em relação a tudo o que eu fazia.
Um bom pai não é, nem nunca será, aquele que nos dá tudo o que queremos, mas sim aquele que, dentro do que alcançamos, nos ajuda a viver com todas as nossas experiências, boas e más, e nos educa, nos faz crescer e nos transmite valores que nos serão indispensáveis para sermos felizes. Com o passar do tempo, sinto-me cada vez mais em paz: estou a encontrar o meu pai em mim. “Finalmente”, penso.
As saudades não diminuem, mas o meu pai existiu, e, enquanto o pude tocar e sentir o seu abraço, sei que tive o melhor pai do Mundo e que, infelizmente, muitos, por mais anos que tenham os pais a seu lado, nunca sentirão a cumplicidade e o amor que eu e o meu pai tínhamos um com o outro.

Sei que não posso mudar o Mundo. Sempre o soube. Só que às vezes, neste caminho que percorro sozinha, à chuva, sinto-me fora de mim, sinto-me maior do que eu sou… e sonho. Sonho ter o meu pai de novo ao meu lado, não apenas em espírito, mas assim, agarradinho, junto ao meu peito, perto dos meus olhos. Sonho que nos voltamos a encontrar, e que é um encontro tão feliz, um encontro tão nosso. E como são bons os sonhos, e as saudades quando não nos arrancam o coração. Aprender a dominar as saudades é outro desafio… quase tão grande como o de mudar o Mundo. Não se aprende. Não se muda. Mas temos que viver com isso. Tenho que viver com isso. Perder o meu pai fez-me encontrá-lo de novo de uma forma que eu não acreditava poder encontrar alguém. Preferia encontrá-lo no jardim, como tantas vezes acontecia, sou sincera, mas encontro-o no meu coração, longe da visão, longe da possibilidade alucinante que é tocar-lhe outra vez. Mas já é tanto, já é tão bom, depois de tanto tempo sem o encontrar em lado algum.