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terça-feira, 4 de abril de 2017

Quase três anos desde a tua partida

Querido Pai,
Os anos vão passando, e engane-se quem acha que não damos por eles. Por mais que os dias corram, por vezes, a voar, é impossível viver sem me relembrar de que já não estás aqui. Cada sorriso meu, em cada vez que não me sinto confortável e ninguém dá por isso, cada vez que converso contigo, cada vez que choro por ti, cada vez que a minha gargalhada faz a tua, cada vez que falo de ti a alguém. Os anos passam, mas nada muda. O amor, esse muda, esse cresce: expande-se, não tem fronteiras. E as saudades, matreiras e que atacam, por vezes, sem avisar, essas também não param de crescer. Porque os dias passam, os meses vão-se construindo, e com eles vem mais um aniversário meu, outro teu, uma Páscoa, um Natal. As ocasiões continuam a ter de ser celebradas, as velas a terem de ser sopradas, e por mais que, tantas vezes, não tenhamos disposição para festejar, sabemos que estarmos felizes é a maior alegria que te podemos dar. Eu sei que é a maior alegria que te posso dar, e eu quero tanto que sejas feliz… Que me vigies aí do céu e me continues a avisar, tocando no meu coração, cada vez que for incorreta para com alguém, cada vez que não escolher o melhor caminho, cada vez que exigir demasiado de mim e cada vez também que deveria ter pedido mais aos outros. Porque eu erro, e erro tanto, e tantas vezes me esqueço de que te tenho como anjo da guarda e, imprudente, acelerada e impulsiva como sou, ajo sem te pedir que me aconselhes. Mas até nessas vezes, por mais que não te dê oportunidade para te prenunciares, e tantas vezes me atiro de cabeça, há uma certeza que ninguém me tirará: é que até aí, nessa hora que tanto te deve frustrar e preocupar, até aí eu sei que me protegerás. Que não me dirás perante o meu insucesso que me tinhas avisado, e que cada vez que me parabenizarem com dois beijinhos no rosto, um deles foi por ti encomendado.
O amor que sinto por ti faz com que todos os dias me esforce para ser melhor, e com que, nas vezes em que me desvio desse lugar bonito que tanto visionámos juntos, a seguir nasça em mim uma dor e uma revolta sem fim, porque sei o quão bonito era o teu olhar cada vez que te dizia ter conseguido conquistar mais um bocadinho daquilo que ambicionámos. E que otimistas e bonitas eram as tuas esperanças.
Não consigo imaginar, por mais que tente, como será esse sítio em que agora, com toda a certeza, dominas com o teu charme, alegria e boa disposição. Mas espero que esteja à altura para receber um Pai tão incrível como aquele que tu és, e que, por mais que te tenha custado adaptar-te, agora já tenhas encontrado a Paz que tanto almejo para ti.

Amo-te com todo o meu coração, e se na tua vida via um exemplo, na tua morte vejo a brevidade da primeira, a força do amor, a mágoa da saudade. Por mais anos que passem serás sempre recordado em lágrimas, mas acima de tudo, e eu prometo que vou tentar, com um sorriso de orgulho, gratidão, respeito, e mil beijinhos enviados diretamente para o Céu.

terça-feira, 14 de março de 2017

Querida mãe


Querida mãe,



Hoje completas mais uma Primavera, daquelas em que o Sol nunca desaparece e faz desabrochar as flores mais bonitas do jardim. Continuas linda como eras quando, em pequena, usavas duas grandes tranças e tocavas piano. Hoje em dia ainda te recordas das cifras da "Noite Feliz" e, apesar de isso não ser importante, tens de admitir que te deixa feliz a memória não te atraiçoar!

Cresceste no seio de uma família que, acima de tudo, te amava mais do que tudo aquilo que há para amar, e onde reinava o sonho que pudesses chegar, com o teu irmão, mais longe ainda do que aquilo que ambicionavam para vocês próprios. Foste para a Universidade e, com o mesmo brio com que fizeste o teu curso, ingressaste no mercado de trabalho. Fizeste-te mulher, e, com uma saia pelo joelho, que jamais hoje usarias, foste para aquele que continua a ser o teu local de trabalho, há mais de vinte anos. É engraçado como, ainda hoje, as tuas amigas recordam a tua vivacidade e vontade de fazer mais, algo que, por mais anos que passem, jamais perderás.

Muitas coisas aconteceram ao longo destes anos, abraçaste muitos projetos e viste-te obrigada a ceder perante outros que, apesar de terem detido por algum tempo a tua atenção, não eram, realmente, aquilo que querias encabeçar. Ensinaste, e continuas a ensinar, e não há quem tenha sido teu aluno que não saiba, hoje em dia, as proposições, nem que seja pela obrigatoriedade de criarem um rap em que as mesmas constem. De tudo aquilo que recordas hoje com mais saudade e felicidade, num misto de dor e agradecimento, o pai é a constante, como se antes dele nada tivesse, para ti, importância suficiente para ser contado: sei de cor como se conheceram, como se apaixonaram, e conheço as vossas juras de amor quase tão bem como as que também eu própria hoje faço com aquele que também espero ser o homem dos meus sonhos.

Deste-me à luz, e, uns anos mais tarde, à Carolina. Lembro-me de ser pequena e de olhar para cima e ver o teu rosto, sempre tão cuidado e iluminado, como se me teres ao teu colo fosse uma bênção. Enganaste-te, mãe, bênção foi ter-te como mãe, e ter sido concebida nesse ventre que foi tão acarinhado durante meses e meses pelo pai. Lembro-me de me fazeres crer, tal como o pai sempre fizera, que se acreditasse com muita força nos meus sonhos eles se concretizariam. E tenho um número infindável de memórias tuas, contigo, ao teu lado, que não trocava por nada deste Mundo.

Quando escrevi o prefácio do "Madalena", e procurava as palavras certas para homenagear o pai, disseste-me que escrevesse que tinha um caráter imensurável. Escrevi-o, pois não há palavra do dicionário que melhor adjetive aquilo que era e é, e, hoje, digo-te que também tu tens essa qualidade. Porque sempre foste a nossa melhor amiga, minha, da Carolina e do pai. Porque quiseste ser minha confidente numa adolescência que nem sempre quis confessar, porque me apoiaste e me deste a garra necessária para que me sentisse invencível até o ser efetivamente. Porque sempre nos protegeste, porque sempre nos deste tudo aquilo que precisávamos, mesmo que isso não significasse tudo aquilo que queríamos e, acima de tudo, porque sempre foste um exemplo. Tu, o teu amor com o pai, a família que construíste. És não só aquilo que quero ser, mas aquilo que tenho de ser: porque a tua inteligência, sentido de humor e sensibilidade me enchem de orgulho, e porque é esse orgulho que sinto que quero também ver, um dia, espelhado na alma dos meus. Porque tu sabes, só nós sabemos, o quanto o teu coração é grande e a força com que amas, e essa força arrebatadora que supera a distância que não se conta em quilómetros. Porque te ergueste durante a tempestade, porque pensaste sempre em nós em primeiro lugar, porque nos dizes tantas vezes estar bem para nos ver bem.

Só te posso agradecer por seres uma daquelas mulheres que eu, com dezanove anos, ambiciono e luto por ser. O teu coração é do tamanho do amor que sinto por ti, e por mais que a vida nos fuja das mãos, e nós sabemos como ela é matreira, estamos juntos, os quatro, e o pai não podia estar mais descansado, sabendo que deixou os seus três tesouros juntos, abraçadinhas, tantas vezes na mesma cama ao fim de semana, a rir e a contar o que aconteceu.



Amo-te muito, muito, muito! Eu sei que, desde que o pai faleceu, este dia é diferente, mas queria que soubesses que nem por isso deixarei de te desejar um dia muito feliz!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Um novo renascer

As expetativas das outras pessoas dão-nos força, mas também nos retraem. Quando não nos conhecem, não esperam nada de nós, e tudo o que fazemos, por pior que seja, não as desilude. Quando sabem quem somos, quando já nos elogiaram, quando já nos disseram que conseguíamos fazer melhor, aí sim, esperam algo de nós. Que nos superemos, que cheguemos mais longe, que nos reinventemos. E cada passo que damos, cada coisa que fazemos, elas estarão lá, e serão cada vez mais críticas, cada vez mais exigentes. E esse medo de não nos superarmos, esse receio de não lhes darmos tanto quanto merecem, tanto nos incentiva como nos deixa sob luzes que não pedimos que nos encadeassem.
Hoje inicio o meu novo livro, reticente, sem grande confiança. Porque sei que esperam de mim aquilo que, apesar de acreditar ser possível, não posso prometer sem reticências. Que escreva sem parar, que seja rápida, que seja bom. Que aquilo que passe para o papel continue a fazer as outras pessoas rir, chorar, e, acima de tudo, sentir. Porque não escrevo para ter sucesso, já teria parado de o fazer há muito tempo se essa fosse a meta a alcançar, nem para ouvir que, de alguma maneira, o faço bem, mas porque preciso de sentir menos, com menor intensidade, e escrever faz-me sofrer menos, faz-me gritar menos, faz-me amar menos, quando o amor está prestes a sair-me do peito, porque nele já não cabe. Porque escrever exige que me silencie de todas as coisas que digo da boca para fora, e deixe voar aquelas que, por nada, digo a alguém. Porque escrever me faz refletir, reviver, e por mais que, por vezes, me magoe, deixa-me mais forte.
Deixar as palavras que me enchem a alma no papel, faz-me ficar mais leve, e por mais egoísta que seja ambicionar que, um dia, nada eu tenha que não sonhos, a verdade é que dar-vos aquilo que sou dá-me a oportunidade de, um dia, poder ser mais. A bagagem é importante, mas ter espaço para poder guardar coisas novas, é fulcral para quem não se contenta com aquilo que é, mais do que com aquilo que tem.
Tenho vontade de chegar cada vez mais longe, de abraçar cada vez mais pessoas que, como eu, procuram o conforto que precisam nas palavras dos seus iguais, que, pela diferença, nos agarram até à última página. Tenho vontade de escrever até que me doam os dedos, até que nada me reste para dizer, até que todas as personagens que me assombram o cérebro ganhem forma e sigam as suas vidas. Não posso prometer que o farei com a excelência que me é exigida, e que cada palavra vos vá tocar tanto como qualquer outra que já possa ter escrito, mas fá-lo-ei com o mesmo amor, este que cresce e me arrebata. Porque, no fundo, para lá de todas as vozes que possam dizer que já consegui, eu ainda estou a lutar pelo meu sonho, pelo sonho incrivelmente bonito e puro que é querer escrever para o resto da vida, assim, de modo despretensioso, sem esperar nada de vós, ansiando que também não esperem muito de mim.
Tal como foram os primeiros a saber que hoje iniciei esta jornada, também será convosco que partilharei o seu fim. Que esta necessidade desmedida de me libertar não finde, e que aquilo que, tantas vezes, apelidam de inspiração seja um rio que não seca, seja uma gargalhada que não tem fim, seja uma borboleta que, mais cedo ou mais tarde, brilhará fora do seu casulo. Que seja um caminho bonito, daqueles que fazemos sem medos, com os pés assentes no chão, mas com aquela sensação de que, se quiséssemos, os poderíamos sobrevoar só com o alento que nos dão ao percorrê-los.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2017

Ontem iniciou-se um novo ano, e com ele vieram todos os sonhos, esperanças e metas que esperamos alcançar. Vieram as promessas, os arrependimentos ficaram para trás, as decisões mais emblemáticas e as resoluções sólidas, cuja firmeza tantas vezes se perde ao longo dos dias. Vieram os beijos, os abraços, o fogo de artifício, o álcool em excesso, a alegria desmedida por se começar alguma coisa. Parece que, de um minuto para o outro, nos é dada uma nova oportunidade, e que, a partir dali, das doze badaladas, a partir dali, é que vai ser. Vamos esforçar-nos para sermos melhores, vamos trabalhar para nos distinguirmos daqueles que connosco competem por um lugar no mundo do trabalho, vamos amar mais, vamos ter mais tempo para aqueles que querem o nosso bem.
É bom ter um dia que simboliza o zero, o ponto de partida. Não é um recomeço, nunca será um recomeço. É reconfortante saber, e acima de tudo acreditar, que, de um dia para o outro, temos a possibilidade de começar uma nova vida, de decidir coisas importantes, de nos impulsionarmos e reinventarmos. Porque nem sempre é fácil termos a coragem necessária para acordar e dizer que aquele dia, que até então não era comemorado, será no próximo ano, por ter sido o dia em que fizemos algo por nós mesmos. Parece que temos de esperar que chegue este dia para escrevermos uma lista com objetivos e resoluções, parece que temos de esperar que chegue este dia para que digamos àqueles que nos perfuram a alma que não o voltarão a fazer, e àqueles que amamos que não os queremos perder. Parece que temos de esperar que chegue este dia para erguermos a voz e nos fazermos ouvir, para acreditarmos num futuro melhor, para lutarmos por um futuro melhor. Não são as doze passas, a taça de champanhe ou os votos de felicidades dos conhecidos e amigos que fazem do nosso ano diferente: somos nós. É a nossa ambição, força, esperança e perseverança. É o nosso querer, a nossa fé, é a forma como abraçamos os dias e como nos despedimos das noites. É o jeito como deixamos que nos amem e que amamos, a facilidade com que admitimos o erro e pedimos desculpa. É o facto de nos conseguirmos rir das nossas falhas e de nos sentirmos bem ao ponto de não termos de revelar aos outros o nosso sucesso. E é a maneira como olhamos para o Céu, para a Terra e para o Mar. A maneira como um dia de chuva nos entristece ou um raio de sol luminoso nos retrai e nos faz ficar em casa. São os nossos sonhos e a escalada que fazemos até à concretização de cada um deles.
A vida nem sempre nos vai sorrir e, saber aceitar a tristeza que tantas vezes a mesma acarreta, é tão nobre como festejar aquilo que de melhor nos dá. Que este ano todos nós sejamos um bocadinho mais de paz, de amor e de esperança. Que nada nos seja impossível se trabalharmos e que aqueles, com quem partilhamos o que de melhor e pior somos, fiquem connosco por muitos e bons outros começos.





terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cinquenta anos, querido Pai.

Querido Pai,
Hoje era dia de festa, de porco no espeto, de prendas, de beijos. Era o dia em que a meia-noite era ansiada por mim e pela Carolina e que, mal chegava, te surpreendia a ti com canções, textos, carinho e desenhos. Era o dia em que a casa se enchia de família, de amigos, daquele barulho que tanto nos reconforta o coração e nos relembra de que não estamos sozinhos. Os copos estariam levantados, dir-se-ia que por ti tudo, e sem ti "nada, nada, nada", e, quase que posso apostar, seria um dia muito feliz, afinal, só se fazem 50 anos uma vez.
Infelizmente, não tiveste essa oportunidade, e não celebrámos hoje contigo meio século, porque a vida não to deixou viver. Ao invés de te abraçarmos à meia noite, e de passarmos o dia a passear ou a organizar uma festa, a mãe comprou um grande arranjo de flores brancas onde colocou uma fotografia do vosso casamento e as três, tal como sempre fazemos, fomos visitar-te ao cemitério. Não te cantámos os parabéns, e desculpa, mas não preparei com a Carolina nenhum teatro ou dança: ficámos simplesmente ali, a deixar a tua campa bonita como sempre está, em silêncio. Não imaginavas assim os teus cinquenta anos, pois não? E não é triste como a vida nos impede de concretizar os nossos planos, e nos afasta daqueles que mais amamos?  A verdade é que aí, no Céu, talvez tenha sido só mais um dia. Aqui também o foi, mas para nós foi um dia ainda mais triste, porque a revolta, Pai, a revolta... mói. Esmurra-me o estômago. Tira-me a fome. E a única coisa que me reconforta é lembrar-me de todos os aniversários que passámos juntos, e de todas as prendas que te dei, de todos os textos que te escrevi. A única coisa que me reconforta é saber que te amei e amarei com todas as minhas forças, tal como tu a mim, e que jamais nos abandonaremos.
Hoje fazias cinquenta anos. E há quase três anos, quando te vi pela última vez, eras lindo. Tenho a certeza de que nada mudou, e se aqui estivesses serias o cinquentão mais charmoso de Leiria, tal como eu, a mana e a mãe somos, para ti, as mulheres/meninas mais bonitas do Mundo.
Que a paz more no teu coração, e que vivas a morte com a mesma serenidade com que viveste a vida. Feliz aniversário, pai! Amamos-te muito! Hoje e sempre! Obrigada por nos teres deixado tanta coisa invisível aos olhos.
Muitos muitos parabéns, meu amado Pai. Continua a cuidar de nós e que contemos o teu aniversário por muitos e muitos anos, tantos até o celebrarmos aí, todos juntos.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Já assim, velhinhos

Um dia todos vamos envelhecer, não vamos? As rugas vão mostrar ao Mundo o quanto sorrimos, o quanto chorámos, o quanto amámos. A nossa memória terá cada vez mais coisas para guardar, mas nós teremos cada vez menos força para nos recordarmos de tudo. Os nossos olhos quererão ver mais coisas, mais paisagens, mais vidas como as nossas, mas nós só vamos ver ao perto, cada vez mais ao perto. Com a idade, vamos conhecendo cada vez melhor os sons, e distinguiremos, na perfeição, o chilrear do pequeno pássaro que teima em cantar às oito da manhã de todos os barulhos da Natureza; a buzina do carro do nosso pai que é mais aguda do que a do carro da nossa mãe e o barulho que os nossos filhos farão a descer as mesmas escadas, e que é tão diferente... Mas um dia iremos confundir alguns deles, porque são tantos sons, tantas melodias... Os nossos pés, que já viajaram tanto, vão cada vez conseguir dar menos passos, e, por mais que queiramos correr, só iremos andar, A vida vai-se encarregando de nos ensinar que nem sempre será como queremos, mas só e simplesmente como conseguimos. Que com o tempo, é o tempo que manda. E que por mais que queiramos continuar a levar um quotidiano acelerado, cheio de pressa, frenético como a cidade que não dorme, um dia todos nós seremos prado, campo, serenidade e a leve brisa do verão que passa por nós sem darmos conta.
Um dia todos nós vamos aperceber-nos de que a vida finda e de que não há nada que possamos fazer senão aceitar e viver o que nos resta. Vamos perder aquela vontade louca de viver como se não houvesse amanhã, como tantas vezes sentimos na adolescência, e provavelmente até vai existir dias em que teremos quase a certeza de que não haverá assim tantos depois daquele e aí, aí, ao contrário do que faríamos uns anos antes, não vamos beber até perder o norte, nem beijar até os nossos lábios arderem de paixão... Possivelmente nem sequer vamos escrever uma lista com desejos, com coisas que queremos concretizar, porque, nessa altura, já saberemos que o facto de pormos no papel não faz com que o consigamos realizar. Então que faremos? Quem seremos antes de não sermos mais nada, nunca mais? Não vamos chorar, não vamos fazer promessas, de nada nos vale rezar. Que faremos? Onde iremos? Como se recebe a morte? Teremos a coragem suficiente para ficarmos simplesmente sentados num banco de jardim com um livro ao colo à espera que ela nos feche os olhos e nos embale?
É assustador imaginar que, um dia, vamos chegar a uma fase da nossa vida em que sabemos que já não temos assim tanta vida pela frente, e que poucas serão as coisas que não fizemos até lá e que ainda poderemos idealizar... Lamentar-nos-emos pelas palavras que não dissemos? Gritaremos pelas horas que perdemos? Como será esse momento que tanto nos assombra e fascina?
Um dia todos seremos velhinhos, e vamos provavelmente olhar para o futuro com a cara enrugada e os olhos em lágrimas: que sejam de esperança, de orgulho, de saudade antecipada. Que sejam por termos vivido um grande amor, que sejam porque termos rido até mais não. Um dia todos partiremos. O melhor era que todos partíssemos apenas assim, velhinhos, com histórias para contar aos netos, a andar porque já não se corre, a ver ao perto porque longe já é complicado, no campo porque toda a vida já foi na cidade.