Cinco anos. Meia década. O final
do meu Ensino Secundário, o final da minha Licenciatura. Um livro em tua
homenagem. A minha temporada em Buenos Aires. Os meus amigos, os desencontros e
reencontros da minha vida. O Pedro. A Carolina que, está aqui, está na
Faculdade. O Xavier nasceu, e eu sou, pela primeira vez, madrinha de batismo.
Os avós, finalmente, aceitam ir a outro restaurante que não o “Menino”. O meu
próximo livro que teimo em não ter coragem de acabar, por sentir que não está
bom o suficiente.
Cinco anos. Cinco anos desde a
última vez que te vi, desde que nos despedimos. Cinco anos desde o dia em que
pusemos a mesa para, quando chegasses, jantarmos e, desde aí, nunca mais tirei
quatro pratos do armário. Cinco anos desde que, pela última vez, senti o teu
cheiro na casa, o cheiro de um perfume forte, o cheiro de um perfume de homem.
Cinco anos. Cinco anos desde que
vos vi a beijarem-se pela última vez, e que, ao olhar para vós, me senti tão
feliz por ser parte da nossa família, por ter sido concebida e crescido no
vosso seio, por ser fruto do vosso amor.
Cinco anos. Cinco anos desde que deixei
de te ver com os olhos, e de te tocar com as mãos: foi, exatamente há cinco
anos, que te comecei a procurar com o meu coração, ciente de que, desde há cinco
anos, esta seria a única forma de te encontrar.
Cinco anos. Cinco anos desde que
falo de ti com os olhos humedecidos, mas com um sorriso que não engana ninguém:
sou tão feliz por ser tua filha! Foram dezasseis anos tão bons, tenho tanta
sorte em te ter!
Há uns dias, enquanto comia um
gelado com um irmão mais novo de um amigo, ele perguntou-me por ti. Onde estava
o meu pai, e porque não o seguias tu no Instagram.
Também já a Teresinha, tua sobrinha, me tinha perguntado, uma vez, algo
semelhante, queria saber onde andava o meu pai e porque é que nunca aparecia nos
almoços de família. Expliquei a ambos, com palavras diferentes, pois têm seis
anos a separá-los, que tu já tinhas partido e que, agora, apesar de eu não te
ver, tu me vigias constantemente. A Teresinha ficou confusa, e, por isso,
disse-lhe que tu eras uma estrela muito brilhante e que, quando eu me enganava
no caminho, a conduzir cá por Lisboa, punha a cabeça de fora e procurava-te,
tranquila por saber que, seguindo-te, chegarei sempre a casa.
Cinco anos até parece muito
tempo. Parece-me mais ainda agora que escrevo e, na minha cabeça, sucedem
imagens à velocidade da luz, como se me fosse possível, em breves minutos,
recordá-los ao pormenor: tantos momentos, tantas alegrias, tantas pessoas, tanta
coisa. Por outro lado, parece que foi ontem. Dói como se tivesse sido ontem,
principalmente hoje.
No entanto, por cá, respeitamos a
tua vontade, vivemos sob os teus ideais. Seguimos com a nossa vida,
esforçamo-nos por ser felizes e é tão bom cada vez que eu dou por mim e não há
esforço, só há felicidade, e é tão bom, com o passar dos anos, ir encontrando a
serenidade que sempre tiveste . Cada uma de nós vai trilhando o seu caminho:
não nos largamos, nunca, por nada. Caminhamos de mãos dadas contigo, e também é
juntas, tantas vezes com os nossos amigos à mesa, que nos rimos ao te
recordarmos em voz alta, ao celebrarmos a tua vida.
Cinco anos. Se calhar há pessoas
que, desde há cinco anos, nunca mais te viram, nunca mais ouviram falar de ti.
Não sei. Mas tu, pai, para nós, ainda estás aqui. Não partiste na totalidade,
porque deixaste um bocadinho de ti em nós. Eu lá me vou esforçando para ser à
tua imagem, e lá vou redondamente falhando. Mas tu habitas em mim. Eu sou a tua
continuação. E sei que, sem dúvida, essa é a melhor parte de mim.
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