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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Já assim, velhinhos

Um dia todos vamos envelhecer, não vamos? As rugas vão mostrar ao Mundo o quanto sorrimos, o quanto chorámos, o quanto amámos. A nossa memória terá cada vez mais coisas para guardar, mas nós teremos cada vez menos força para nos recordarmos de tudo. Os nossos olhos quererão ver mais coisas, mais paisagens, mais vidas como as nossas, mas nós só vamos ver ao perto, cada vez mais ao perto. Com a idade, vamos conhecendo cada vez melhor os sons, e distinguiremos, na perfeição, o chilrear do pequeno pássaro que teima em cantar às oito da manhã de todos os barulhos da Natureza; a buzina do carro do nosso pai que é mais aguda do que a do carro da nossa mãe e o barulho que os nossos filhos farão a descer as mesmas escadas, e que é tão diferente... Mas um dia iremos confundir alguns deles, porque são tantos sons, tantas melodias... Os nossos pés, que já viajaram tanto, vão cada vez conseguir dar menos passos, e, por mais que queiramos correr, só iremos andar, A vida vai-se encarregando de nos ensinar que nem sempre será como queremos, mas só e simplesmente como conseguimos. Que com o tempo, é o tempo que manda. E que por mais que queiramos continuar a levar um quotidiano acelerado, cheio de pressa, frenético como a cidade que não dorme, um dia todos nós seremos prado, campo, serenidade e a leve brisa do verão que passa por nós sem darmos conta.
Um dia todos nós vamos aperceber-nos de que a vida finda e de que não há nada que possamos fazer senão aceitar e viver o que nos resta. Vamos perder aquela vontade louca de viver como se não houvesse amanhã, como tantas vezes sentimos na adolescência, e provavelmente até vai existir dias em que teremos quase a certeza de que não haverá assim tantos depois daquele e aí, aí, ao contrário do que faríamos uns anos antes, não vamos beber até perder o norte, nem beijar até os nossos lábios arderem de paixão... Possivelmente nem sequer vamos escrever uma lista com desejos, com coisas que queremos concretizar, porque, nessa altura, já saberemos que o facto de pormos no papel não faz com que o consigamos realizar. Então que faremos? Quem seremos antes de não sermos mais nada, nunca mais? Não vamos chorar, não vamos fazer promessas, de nada nos vale rezar. Que faremos? Onde iremos? Como se recebe a morte? Teremos a coragem suficiente para ficarmos simplesmente sentados num banco de jardim com um livro ao colo à espera que ela nos feche os olhos e nos embale?
É assustador imaginar que, um dia, vamos chegar a uma fase da nossa vida em que sabemos que já não temos assim tanta vida pela frente, e que poucas serão as coisas que não fizemos até lá e que ainda poderemos idealizar... Lamentar-nos-emos pelas palavras que não dissemos? Gritaremos pelas horas que perdemos? Como será esse momento que tanto nos assombra e fascina?
Um dia todos seremos velhinhos, e vamos provavelmente olhar para o futuro com a cara enrugada e os olhos em lágrimas: que sejam de esperança, de orgulho, de saudade antecipada. Que sejam por termos vivido um grande amor, que sejam porque termos rido até mais não. Um dia todos partiremos. O melhor era que todos partíssemos apenas assim, velhinhos, com histórias para contar aos netos, a andar porque já não se corre, a ver ao perto porque longe já é complicado, no campo porque toda a vida já foi na cidade.
 
   

1 comentário:

  1. Antes de mais, deixa-me dizer-te que simplesmente adorei o texto, este assunto mexe comigo..
    «É assustador imaginar que, um dia, vamos chegar a uma fase da nossa vida em que sabemos que já não temos assim tanta vida pela frente, e que poucas serão as coisas que não fizemos até lá e que ainda poderemos idealizar...» É realmente assustador e às vezes penso mesmo nisso!
    Passei a seguir o Blog, se quiseres dá uma vista de olhos no meu ^-^

    Aproveito por convidar-te a assistir ao meu último vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=SgsDHkocwEc , é um Vlog na praia das rocas. Desde já obrigada, até à próxima. Beijinho :)

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