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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Dentro de mim. Tu sabes.

Pai,
Os dias têm passado. Um de cada vez, como quando aqui estavas. Cada dia continua a ter vinte e quatro horas. Continuo a ir para a cama por volta das dez e meia; a acordar às sete e meia para ir à escola, mas agora, desde que partiste, é a mãe que me faz o pequeno-almoço. Há dias melhores, outros piores. Quase um ano desde a tua partida, penso agora, quando te escrevo esta carta. Sinto a dor de te ter perdido com a mesma intensidade que na altura, quando recebi a notícia da tua morte. Parece que foi ontem...Disseram-me que este vazio que sinto ia diminuir com o tempo. Que a saudade que me revoltava e me fazia querer destruir tudo o que está à minha volta ia desaparecer, ia atenuar, porque nasceria em mim uma "saudade boa", que me faria recordar os bons momentos que passámos.., A verdade é que, todos os dias, me controlo tanto, faço tantos esforços, finjo tanto... Tu sabes. Tu sabes, porque estás dentro de mim, e sei que és tu que puxas as minhas lágrimas para dentro, quando sinto uma tristeza tão violenta que só se acalma ao escorrer pelo meu rosto. Tu sabes, porque vais a caminhar ao meu lado, quando estou na rua e vejo tantas famílias, tantas famílias que podíamos ser nós. Tu sabes, porque ouves as minhas conversas com Deus, ouves o quanto peço que Ele te traga de volta e ouves todas as vezes em que peço perdão por não ter sido uma filha melhor, mais presente. Tu sabes, pai.
Ainda hoje me interrogo porque é que Ele te levou. Sei que é uma pergunta para a qual jamais obterei resposta, mas isto não me impede de me questionar sobre o motivo da tua partida. Porque eu sei que tu não merecias, que tu não estavas pronto.
Deixaste-me a melhor mãe do Mundo. Que te ama todos os dias mais, tal como acontecia em vida. Tu sabes, tu consegues ouvi-la a falar de ti. Tu sabes, consegues vê-la a olhar para ti, a procurar-te onde quer que esteja.
Estou a lutar por nós. Juro que estou. Pela mamã, pela mana. A lutar para que nos mantínhamos unidas, para que a tua ausência não nos corrompa.
Estou a homenagear o Homem que foste, o Pai que és.
Não tenho palavras. Tu sabes. Tu sabes, porque vives em mim. Porque eu abri o meu coração e deixei que encarnasses no meu corpo, para que tenhas outra oportunidade de viver e para que eu consiga ser feliz.
Era impossível estarmos mais juntos, pai. 



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