Páginas

sábado, 16 de agosto de 2014

Feliz aniversário, pai.

Pai,
Hoje é o teu dia de anos. Tal como sempre fiz, escrever-te-ei uma carta, visto que sei que é algo que sempre gostaste de ler. É o teu primeiro aniversário que não passaremos juntos desde que eu nasci e não sabes o quanto isso me está a afetar. Passaram-se pouco mais de quatro meses desde a tua partida: há dias em que parece que se passaram anos, outros onde sinto que ainda foi ontem que te despediste com um “até já, meninas”. A vida não foi muito boa contigo, pois não?
Espero que nos estejas sempre a ver do Céu, aliás, tento acreditar nisso todos os dias, caso contrário ser-me-ia impossível viver. Imaginar que podes não estar aqui, nem em lado nenhum… Sinto-me demasiado perdida e despida para tal. Se nos vês, como acredito, sabes que não tem sido muito fácil: há alturas do dia em que nem sequer tenho vontade de abrir os olhos, sinto que se os tivesse fechado contigo, ou por ti, estava tudo tão melhor, fazes tanta falta… Outras, felizmente, já vou conseguindo viver sem ti, apesar da dor que me causa pensar nisso e na celeridade com que tivemos que voltar a falar, a andar, a ir para a escola, a viver efetivamente sem ti.
Quando faleceste achei que o Mundo tinha acabado, e não conseguia ver qualquer saída para tudo isto, mas agora sei, e em muito se deve à mulher fantástica que cá deixaste para nos criar, que temos que continuar, que temos que seguir em frente… Tal como a mãe diz, temos que fazer tudo aquilo que sabemos que tu gostarias, tudo aquilo que tivermos a certeza que te vai orgulhar, mesmo que não seja o mais fácil para nós.
Amamos-te muito, pai. A tua partida fez-nos crescer imenso, mais do que todas nós queríamos crescer. Eu, para ser sincera, ainda não acredito que morreste. Estou sempre a pensar que se enganaram a identificar o teu corpo, e que daqui a uns tempos regressarás vivo, com aquele sorriso tão só teu, e que dará em todos os noticiários o erro da polícia, e do médico, e o milagre que foi tu estares bem… Como me parece estúpido quando o escrevo mas tão bom e plausível quando o penso antes de adormecer. Tu não vais voltar, pois não?
Merda. Eu sei que não gostavas que dissesse asneiras, mas neste momento só me apetece gritar: merda, merda, merda. Temos tantas saudades tuas. Fazes tanta falta… A vida sem ti perdeu tanta cor, tanta coisa. Não estava preparada para te dizer adeus com dezasseis anos. Aliás, não estava preparada para te dizer adeus nunca. Tínhamos uma relação tão especial, lembras-te? Amava-te e ainda te amo de todo o coração. Meu melhor amigo, meu mais que tudo, meu pai. Não percebo por que razão Deus te tinha que levar agora, e não imaginas como é para mim confuso visitar-te todas as semanas no cemitério e falar contigo a olhar para terra, e ver bichinhos, e formigas a passarem por entre os ramos de flores e a tua fotografia mal tratada pela chuva. Porquê a nós?!
Tenho que te pedir desculpa mais uma vez por todo o sofrimento que te causei enquanto eras vivo: por todas as vezes em que me portei mal, por todas as vezes em que não correspondi às expetativas altíssimas que tinhas para mim… Se soubesse que ias embora tão cedo, tinha mostrado tão mais o amor que sempre nutri por ti. E a admiração… E tudo. Tinha e tenho tanto orgulho em ti, pai. Sempre disse a todos os meus amigos que te amava muito, e que eras o melhor treinador do Mundo, e o melhor pai também. Ver que as pessoas te amavam tanto, e que também elas choraram a tua morte, só me faz ter a certeza de que tinha motivos para me gabar de ti.
A nossa vida mudou muito. Sei que nos estás a ver, mas quero contar-te uma coisa: a Carolina e eu tivemos muito boas notas na escola, melhores que no segundo período, até! E a Carolina já consegue tocar algumas músicas na guitarra que lhe ofereceram no Natal, e eu estou a escrever outro livro, pai.
A mãe agora vai andar a pé às vezes. Lembras-te como a tentavas convencer a sair do sofá e a fazer desporto? Agora a mãe faz!
Fomos passar uns dias a Sesimbra, a um hotel que a mãe encontrou na net, e a mãe deixou-nos estar os três dias inteiros na piscina, mas claro que não entrou, também não exageremos! Agora estamos no Algarve ainda, e vamos cá passar o teu dia de anos, por isso quem te leva esta carta é um amigo de confiança… Tenho muita pena de não estar aí. Tinha pensado que poderia ficar à sombra a ler para ti ou simplesmente a contar-te as novidades, mas só vamos embora amanhã.
Desde que morreste que me tornei uma menina muito triste. Às vezes choro muito alto, mas a maioria delas choro para dentro, faço-me de forte porque não gosto que os outros vejam as minhas fraquezas, sempre fui assim, tu sabes. Sinto um vazio enorme no coração, como se uma parte de mim tivesse também ela falecido e partido contigo. E sabes o que é o pior? É que sempre que me lembro de ti lembro-me do quanto tinhas sonhos para nós, e do quanto nos prometeste que íamos fazer tantas coisas que a vida não deixou. O Quintal da Carolina, o meu segundo livro… Precisamos tanto de ti.
Antes de partires disseste que não sabias o que ia ser das tuas filhas, contou-nos uma senhora que ouviu as tuas últimas palavras. Obrigada pai, obrigada. É tão bom no meio de tudo isto saber que não te esqueceste de nós. Estamos vivas, pai, e não te preocupes agora, descansa em paz, que estamos bem. A viver para ti, e por ti, para te orgulhar.
Protege-me sempre, pai, mesmo quando os anos passarem. Nunca te esqueças do quanto te amo e da quantidade de vezes que olho para o céu sempre que saio de casa à noite e o afinco com que procuro a maior estrela. Onde quer que estejas, espero que estejas a ler esta carta e a lembrar-te das coisas boas que eu e a mana e a mãe te demos, e das férias, e das prendas, e das brincadeiras.
Este ano eu e a Carolina não te vamos fazer nenhum teatro, nem uma dança ou uma música como era habitual, mas vamos tentar estar bem, porque a mãe disse que essa era a melhor prenda que te podíamos dar neste dia tão especial. Sei que já não estavas há muitos anos com os teus pais no teu aniversário, e que isso também te magoava muito, por isso olha, pai, aproveita. Dá um beijinho muito grande aos avós, e a todos aqueles que partiram e que eram teus amigos ou da nossa família. Não sei como é aí no Céu, e se vais celebrar o teu aniversário, mas nós aqui vamos.
Muitos parabéns, papá. Amo-te muito, nunca te vamos esquecer, nem vamos esquecer este dia que sempre foi tão bom. Um beijinho do tamanho do Mundo e obrigada pelos melhores anos da minha vida. Vou continuar a escrever-te e a pôr coisas no blog como sempre mandaste. Amamos-te muito! Foste um ser humano incrível, como poucos existiram. Aquilo que nos deixaste a nível material em nada se compara ao tesouro que escondeste em cada um dos nossos corações e que jamais poderemos agradecer. Espero continuar a orgulhar-te e a ser motivo daquele teu olhar emocionado que via sempre que fazia alguma coisa bem, por mais pequena que fosse. Por detrás da tua voz, voz que nunca esquecerei, que tantos diziam ser assustadora de tão grossa, estava e sempre estará um homem com o maior H do Mundo, porque nunca conheci ninguém com um coração tão puro, tão fácil de perdoar. 
Dizem que Deus leva primeiro os melhores para junto de si. Tenho a certeza de que te escolheu porque também ele reconheceu como eras bom. Para nós foi injusto, e dói muito, mas se calhar aí é um lugar tão bom, tão calmo. Descansa em paz, pai. Descansa em paz porque se há alguém que merece tranquilidade e sossego esse alguém és tu, que tanto em vida fizeste pelos outros.
O Kiko ainda é vivo, e desde que partiste sempre que alguém se aproxima de nossa casa não pára de ladrar como se fosse um cão enorme. Ensinaste-o bem. Obrigada por tudo, tem um dia muito feliz, meu querido pai.
O amor que sinto por ti é inexplicável e nunca desaparecerá. Por mais anos que passem nunca, mas mesmo nunca, duvides disso. Serei sempre a tua menina.
16-08-2014

Sem comentários:

Enviar um comentário