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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Um coração que morreu

Existem dias em que não tenho força. Dias em que acredito que chegou também a minha hora de dizer adeus, também a minha hora de abandonar tudo aquilo que é físico e que tantas vezes, para além de nos preencher, nos faz vazios. Dias em que a saudade parece transformar-se em raiva e em rancor; dias em que chorar não consegue aliviar uma alma que há tanto tempo parece inundada na sua própria comodidade que em nada lhe é cómoda. É aquela acumulação de sonhos não concretizados, de palavras deixadas por dizer, de beijos que ficaram por dar. Tantas coisas, tantas coisas que não são coisas. Andar à deriva como um barco de vela num dia de tempestade. Ter vontade de partir, mas sentir que nenhum sítio é suficientemente calmo para nos acolher. Aquela angústia que nos prende mas, ao mesmo tempo, nos liberta, e liberta em nós aquilo que de pior temos. Aquilo que, por ser tão obscuro, a ninguém mostramos. Vontade de partir tudo, de atirar tudo pela janela. Que se lixem!, que se lixem todos! Dúvidas que sabemos que nunca serão esclarecidas. Respostas que em nada satisfazem a nossa curiosidade. Tretas, tantas tretas. Porquê a nós?! Tantos caminhos, ter que tomar tantas decisões. Até quando aguentaremos? Até quando aguentarei? Quando a saudade me ataca, quando o frio não passa. Um coração transformado numa pedra. As mãos geladas, o resto do corpo a ferver. E por mais que as coisas corram bem, e que os dias bons se vão acumulando como as pegadas na areia, basta ver-te, pensar em ti, sentir-te, é como se o mar as apagasse, é como se nunca tivessem existido bons dias. Perco a cor. Tento encontrar-te; quando não te vejo, tento esquecer-te. Não sei o que sinto, não sei porque sinto tudo isto e ao mesmo tempo às vezes dou comigo a não sentir nada. E é aquela raiva, aquele ódio porque há quem tenha, e há quem não chore, e há quem tenha um rumo, e uma casa que é mais do que a que eu tenho, uma casa que é um coração preenchido, um coração amado, um coração que ama, um coração vivo. Talvez seja esse o problema: o meu coração morreu.
Morremos todos. Mais cedo ou mais tarde, perdemos a força. A vontade. A ambição. Os sonhos vão-se tornando tão distantes e tão irreais que deixam de ser concebíveis. E a melancolia da vida. E a melancolia da morte. Os disparos da personalidade, da euforia para a depressão, da embriaguez para ressaca. A vida assim. A vida sem nada. Um lugar cada vez mais vazio. Poeira, outono, geada, inverno. Quando dás por ti já desististe. Quando dás por ti estás a viver um desses dias. Desses dias que ninguém quer passar.
E aí, nesses dias, que de tão tristes que são nos tiram a vontade de os relembrar, apercebes-te de que apenas tu os podes ultrapassar. E que a força não pode simplesmente morrer sem lutar, sem lutar por ti.


5 comentários:

  1. Antes de ler o tu perfil, e depois de ler este post, eu diria que eras uma pessoa muito mais vivida., pela maturidade e pela forma excelente como escreves.
    Parabéns.
    http://fali-vendo-me.blogspot.com

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  2. As coisas só morrem se assim permitirmos, não é?
    Gosto de pensar que sim.

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  3. Hey, desculpa a demora se é que é demora, porque não me recordo se realmente te respondi na altura.
    Fizeste comentários no meu blog e tenho de te agradecer por eles apesar de ter estado 2 anos longe da escrita sinto que tenho de responder a toda a gente que dedica o seu tempo a ler as minhas porcarias :D
    Para te esclarecer, sou um rapaz sim e todos os textos são feitos por mim no meu mundo do "faz de conta".
    Tenho-te a dizer que escreves muito bem e tens aqui um optimo blog, segue-me o meu conselho não faças como eu, não desistas de escrever.
    Continua :)
    ~ Slizie

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  4. Parabéns, está muito bom!!! revejo me no texto...

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