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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Amo-te, Íris...

Lá estava ela. Flores na mão, cabelo apanhado num rabo de cavalo mal feito. O mesmo vestido de sempre, a cada dia que passava mais sujo e descolorado pelo uso. Pés descalços, pele branca. A caminhar pelos bosques, como uma princesa da natureza... Tanto corria, como deslizava por entre as folhas caídas de um outono acentuado. Não tinha nome, não sabia de onde vinha, ou quem era. Aparecera junto àquele rio num dia de chuva, há cerca de treze anos, e, depois de eu a acolher, de lhe dar um banho, de a vestir com aquele vestido que ainda hoje usava, e de a tentar tranquilizar, pernoitou nos meus braços. Uma, duas e três noites a fio. No início não falávamos  e ela tinha muito medo de mim, mas acho que o meu sorriso sincero e as minhas palavras, carregadas de compaixão, a fizeram desinibir-se aos poucos. Não sabia que idade tinha e eu também não era capaz de adivinhar. Penso que devia ter uns quinze anos quando chegou. E agora, agora é uma mulher. Batizei-a com o nome de Íris, porque me lembrava as fadas dos lares, e ela sempre fora muito prendada nas tarefas domésticas. Nunca insisti com ela para se tentar recordar de algo do seu passado, porque, assim que a vi, percebi que era o amor da minha vida. Na altura, quando a peguei ao colo e tentei perceber se chorava ou eram simplesmente as gotas da chuva que lhe tinham deixado os olhos carregados de medo, eu tinha dezasseis anos. Os meus pais morreram quando eu era uma criança, e eu cresci sozinho naquela casa que agora posso apelidar de o ninho do nosso amor. Chamo-me Rodrigo, e esta é a nossa história de amor.
Quando a trouxe para dentro, naquele primeiro dia, a primeira coisa que me disse foi que estava tudo bem. E sorriu. Agradeceu-me a hospitalidade e desmanchou-se em lágrimas. E, assim que o primeiro soluço se ouviu na nossa humilde casa de madeira, eu percebi que nunca tinha encontrado ninguém na minha vida, porque aquela era a única pessoa que me podia fazer feliz. Evoco, na minha mente, tudo como se fosse ontem: ela parecia não ter passado, porque tinha batido com a cabeça com muita força numa pedra enorme junto ao rio, que ainda hoje preserva um rasto imaculado do seu sangue, bem como guardara no seu corpo uma cicatriz na cabeça, mas, com o passar do tempo, ela foi reconstituindo a sua antiga vida. Eu sei disso, apesar de ela nunca mo ter dito. Gosto de pensar que o passado dela não era o que desejava, e que, o facto de a ter encontrado encostada àquela pedra, no meio de uma chuvada torrencial, com um golpe na cabeça e sem memória, foi obra do destino. Ela precisava de mim, e eu dela. Tal como agora. Nenhum de nós fala do que aconteceu antes das nossas vidas se cruzarem. Eu não lhe conto os pesadelos que tinha por viver sozinho naquela casa com os fantasmas dos meus pais, e ela não me fala sobre o facto de ter aparecido ali, sem qualquer explicação plausível. É como se as nossas vidas tivessem começado ali. Eu sou o Rodrigo, e ela é a Íris, e só nos temos um ao outro. Vivemos com aquilo que temos à nossa volta, numa pequena vila que talvez nem apareça no mapa. Não temos família, amigos, ou sequer colegas de escola, porque nunca tivemos oportunidade de frequentar uma. Gostamos de olhar para as estrelas à noite e de imaginar como será o Mundo fora da nossa casa. De dia, eu trato da agricultura, arranjo da melhor forma possível os buracos por onde a chuva entra e dou de comer ao nosso cavalo. E tu... tu deambulas junto ao rio, apanhas flores, fazes o almoço e o jantar, limpas a casa e falas-me acerca dos teus sonhos de ir para a cidade, de conhecer tudo. E como somos felizes assim...
Graças a ti, tenho tudo, mesmo sem ter nada. A nossa vida é simples e pode parecer vazia, mas o amor que transborda dos nossos corações preenche-a de uma forma mágica. E eu nunca quero deixar de viver assim.
Amo-te, Íris...


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