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terça-feira, 19 de julho de 2011

Diário da raptada

(…) Estou aqui, neste lugar, onde tudo o que era mau é pior e tudo o que desprezava antes, rezo para ter agora.
Preciso de um ombro amigo, de uma palavra de consolo ou de um simples gesto de amizade, de ternura, preciso do que tinha e não do que me faz falta, preciso do simples, do natural, do humano, preciso de sentir a liberdade, a força, o poder de optar, preciso de correr pela rua, de nadar no mar salgado, de gritar depois de uma picada de insecto.

Preciso de voar, preciso de cantar, de saltar, eu preciso (…) preciso de chorar por algo diferente daquilo que já chorei, preciso que as minhas lágrimas transparentes vão com o vento e que ele me leve com ele.

O vento leva-me com a sua força e eu deixo-me ir, deixo-me levar, quero ir, estou farta de cá estar. As paredes perderam a cor branca e o céu deixou de me fascinar. Já nada é novo e o velho está-me a deixar mal, sinto o que um prisioneiro sente na prisão, a diferença é que não cometi nenhum crime para aqui estar.

Foi num dia claro em que nada parecia correr mal (…) o problema foi ter-me deixado levar na conversa turística deste homem. Estou aqui há nove anos e tenho pena de já não ver o sol a brilhar, só o vi meia dúzia de anos e sinto falta de pôr protector solar, sinto falta da areia nas cuecas depois de um dia na praia e das cavalitas do meu pai. Sinto falta de me sentir viva, sinto falta da escola, da rua, dos animais que via no jardim zoológico e do meu quarto.
Encontrei este papel e este lápis por afiar, agora escrevo este “diário” e espero ansiosamente que os meus pais me venham buscar.

Ainda não perdi a esperança. São nove e meia da manhã, ele vem aí (…)



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