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terça-feira, 19 de julho de 2011

Despedida do campo

Flores brancas enchem o meu jardim. Rosas fechadas ou abertas pedem água, está muito calor. Atravesso cada pétala com os dedos e canto-lhes uma canção de embalar. Quero que adormeçam, que não vejam o camião de mudanças a chegar e eu a abandoná-las; às flores, aos passarinhos que lá vivem nos ninhos do telhado, às vizinhas, à escola e à casa onde morei treze anos. Visto que era uma despedida e que nem as flores nem os passarinhos podia levar, limitei-me a deixar um bilhete aos novos proprietários da casa a dizer “Reguem as plantas do jardim e dêem de comida aos passarinhos”, escrevi o meu nome no final e colei no frigorifico, na esperança que alguém o lesse.
Caixotes cheios de roupa e brinquedos velhos impedem que a casa se mantenha limpa e organizada. Foram horas e horas a empacotar todas as coisas que durante mais de uma década coleccionei… Só para todas as enciclopédias da vida animal e vegetal foram uns seis caixotes! Tinha e espero ter na casa para onde vou agora, uma biblioteca pessoal, com livros de todas as cores e feitios. Adoro ler e daí a estar tão renitente com esta mudança…

Sempre vivera no campo, numa casa à beira rio, numa aldeia que mal se via no mapa. E agora tinha de enfrentar de cabeça erguida uma cidade cheia de barulho, poluição e falta de tranquilidade. Na aldeia onde morava jamais se ouviam carros ou pessoas a discutir, mas na televisão, quando mostravam cidades luxuosas e cheias de gente, era o que mais havia.

Eu, todos os dias, acordava com o barulho das enxadas a cavar a terra e era assim que também adormecia muitas vezes. Outras vezes, adormecia com o barulho do vento que quase nos levava a casa para o céu. Ao contrário da minha irmã, que quando o vento soprava com força não conseguia dormir, com medo que as suas bonecas fossem levadas, era quando eu dormia melhor. Porque eu confio no vento, na Natureza e nos animais. Ele, a Natureza e todos os fenómenos de que por aí se ouvem falar são para o nosso bem, castigam quem merece e beneficiam quem pensa como eu. Nunca fiz mal a nenhum ser, por mais pequeno que fosse e, por isso, sei que o vento também não me fará mal.

Na cidade, tudo é robusto e estranho. As pessoas acordam com despertadores e adormecem a ver televisão. Não existem espaços como o meu jardim, onde me posso deitar a ler. As pessoas buzinam e gritam umas com as outras, vivem a vida à pressa.

Vai ser difícil adaptar-me, mas como na minha aldeia se diz “o espírito do campo permanecerá sempre contigo”.

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