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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Memórias desenhadas

Quem me dera que nunca tivessem inventado a fotografia... Porquê? Porque são elas que nos fazem recordar, ter saudades e querer de volta. Quem me dera que nunca tivessem pensado em captar uma imagem tão real que, por mais anos que passem, nos transporta sempre para o passado. Olhar para uma fotografia, observá-la, passar os dedos lentamente, vezes sem conta, por cima daquele lugar, daquela pessoa... Relembrar os cheiros, os próprios momentos aí revelados. Voltar a viver mais uma vez aquilo que nunca poderá ser repetido e ficar triste. Desiludido e nostálgico, porque aquilo, de uma forma ou de outra, não era para ser relembrado. Independentemente de ter sido bom ou não, é passado, não volta.
Mas ali está, emoldurada ou numa gaveta trancada, aquela fotografia, a preto e branco se mais antiga, a cores graças às mais recentes invenções. A pedir para ser vista, tocada e relembrada. A pedir para fazer parte do presente quando o passado não pode ser revivido. E a remoer tudo aquilo que se passou: olhamos para o nosso sorriso e perguntamos o que aconteceu, o que mudou. Vemos uma fotografia onde estamos rodeados de pessoas e chamamos a solidão para lhe pedir explicações. Rasgamo-las, queimamo-las, mas elas permanecem, em cinzas, ou em pequenos montinhos de papel, não intactas, mas presentes.
E podemos chorar, rezar para que tudo volte, podemos revoltarmo-nos e desistir de viver o presente porque nunca mais poderemos tirar uma fotografia igual àquela que tanto nos faz sorrir... que nada muda. E é por isto que eu não gosto de fotografias: fazem-me lembrar coisas e pessoas que, por mais tempo que passe, continuo a querer ter comigo e a meu lado, mas que, infelizmente, só são recordações. E, por mais feliz que sejamos, por mais momentos inesquecíveis que passemos, há sempre coisas que nunca queríamos ver.
Que acabem as fotografias e, com elas, todas as memórias daquilo que nunca poderá voltar a tornar-se real. Era isso que eu almejava.

3 comentários:

  1. Obrigadaa :D e acredita também és muito expressiva :)
    gostei principalmente desta frase "queimamo-las, mas elas permanecem não intactas, mas presentes." está mesmo muito bom vou por a frase no meu blog entre aspas e com o teu nome x)

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