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terça-feira, 24 de julho de 2012

O reencontro...


- És mesmo tu? - perguntou Íris boquiaberta, enquanto procurava na sua mala o telemóvel que insistia em tocar.
Quando o finalmente encontrou, vira que era Ricardo, o seu marido, mas, e sem explicação credível, ignorou a chamada e pôs o seu melhor sorriso à espera de ouvir um “sim” daquela figura humana, que lhe era tão familiar, apesar dos anos que haviam passado.
- Sim, sou eu. O mesmo António de sempre ou, como tu me chamavas, o Toni. Um pouco mais gordo, com o cabelo esbranquiçado e umas quantas rugas… Mas, fantástico, como sempre fui! - disse ele, olhando para aquela mulher que há décadas não via mas que continuava bonita.
- Bem, eu também estou mais velha, os anos não passaram só por ti! É engraçado encontrarmo-nos agora, aqui… Numa loja de animais, hein? Aposto que nunca me imaginaste aqui!! - exclamou Íris, soltando uma gargalhada, aquela gargalhada que há mais de vinte anos fizera António tão feliz.
(…) Silêncio. Íris sentia-se agora envergonhada pelo seu riso histérico e António estava absorvido nos seus pensamentos de um passado tão feliz e promissor, onde aquela gargalhada era a música do amor deles e o silêncio a do fim de tudo.
- Tenho de admitir que não esperava ver-te aqui, visto que, quando quisemos comprar um cão, insististe que o pêlo sujaria toda a casa e o cheiro seria insuportável… Ainda bem que mudaste de ideias, tenho plena confiança nos teus dotes como domesticadora! - riu-se.
- Não gozes, as pessoas mudam!! Então e tu, comida para gato? Também nunca imaginei, parece um animal com tão pouca vida, tão sossegado… Nada que ver contigo, diga-se de passagem! - respirou fundo, para não deixar aquela última gargalhada replicar-se, e prosseguiu: - As pessoas mudam mesmo…
- Nunca ouviste dizer que os solitários têm sempre um monte de gatos? Não podia fugir à regra, ao menos nisto que seja certinho.
Íris não sabia o que havia de dizer. Fazia em Agosto daquele ano vinte e cinco anos que haviam deixado de lado a amizade e o amor que os unia e, agora, sabia que António continuava sozinho. Isso mudaria algo? Não, não podia mudar, já tinha passado tanto tempo! Inspirou o cheiro a comida para animais, sorriu e falaram mais alguns minutos, sobre várias coisas, deixando combinado um café para “um dia destes...”.
E a caminho de casa, os dois pensavam se aquele reencontro, era aquele tal que todos diziam ser “o reencontro”.

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