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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Adaptação da lenda de São Martinho

Não era um soldado, mas sim uma mulher. Uma mulher muito pequenina, daquelas que não se podem mesmo medir aos palmos! E tinha uns olhos azuis da cor do mar, do céu e da camisola de lã que vestia naquele dia. Não ia a cavalo, mas sim a correr, numa tentativa inútil de não se molhar. Não só chovia imenso, como trovejava  o céu parecia uma tela abstracta e nunca inacabada… De segundos a segundos, um pincel veloz desenhava um raio bem amarelinho a lápis de cera, e pumba! Ouvia-se um estrondo!
Aquela mulher estava a passear para desanuviar a cabeça, como tantas vezes fazemos. Cansada do seu trabalho, dos seus colegas e da porção de cartas por abrir em cima da mesa da sala com contas para pagar, precisava de apanhar ar. Sentia-se aborrecida, como se tivesse  sido sugada pelo furacão da rotina. Não conseguia mudar nada no seu dia, e isso irritava-a. Acordava todos os dias às oito e meia da manhã, tomava banho, vestia-se, comia sempre um pão com queijo e bebia dois goles de leite de chocolate e lavava os dentes, bem como se calçava e escolhia o casaco, tudo isto ao mesmo tempo, e vezes sem conta durante o ano… Estava farta! E, ali, à chuva, sentia que estava finalmente a fazer alguma coisa diferente. Se estivesse a cumprir a sua rotina, àquela hora encontrar-se-ia no meio de uma secretária impecavelmente arrumada, e não ali, como uma doida varrida, a molhar-se sem procurar abrigo.
Por outro lado, e numa cidade bem próxima, um indivíduo tentava a todo o custo abrigar-se. Mas, ao contrário do que reza a história, não era um mendigo, mas sim um menino com cerca de doze anos, a tremelicar de frio, enquanto num gesto de humildade pedia que lhe dessem algo para vestir. Chamava-se Martinho, e era um sem abrigo recente naquela rua. Os pais tinham-no abandonado num dia igualmente chuvoso e agora caminhava sem destino, inocentemente esperando a chegada dos seus progenitores e de um pedido de desculpas sincero com a devida justificação.
Já passava das oito da noite, e, com aquela caminhada a passo acelerado, foi inevitável aquela mulher e Martinho cruzarem-se. Tal como todos os outros adultos naquele dia, também ela tinha passado para dar uma moeda, mas, e desta vez distinguindo-se dos restantes, ela parou. E, assim que lhe estendeu a mão para que se levantasse, começou ainda a chover mais e só puderam parar de correr quando chegaram a casa dela. Não disseram uma única palavra no caminho, mas ambos sabiam o que significava: um novo começo para ambos.
Há alguma coisa que quebre mais a rotina que uma criança? E Martinho, não precisaria de uma mãe que não o abandonasse?
Não será este então o milagre que poderíamos celebrar anualmente? A solidariedade é o milagre da sociedade.


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