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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Facada

Levar uma facada, é como deixar de ser amada, dói muito ao início, choramos, gritamos, e andamos uns dias, umas semanas e por vezes meses a mudar de penso, a desinfectar, a cuidar da ferida. Um mês, dois ou mais tarde ainda, podem passar anos, fazemos uma festinha, suave, com o dedo indicador, na ferida. E com o toque, sentimos tudo o que se passou. Vemos quem nos deu a facada, porque o fez, como estávamos nesse dia, o que dissemos, tudo (…) relembramo-nos dos menores pormenores, de como estava o tempo e o número de tarefas que ainda tínhamos para realizar antes do sucedido. Depois, queremos perguntar alto e em bom som porquê a mim, porque não a outro… E é aí que erramos, é aí que erro. O destino é aquilo que nos é prometido, mudá-lo só depende de nós: levar uma facada numa rua escura, só nos fará pensar no futuro que temos de ter sempre uma luz; levar uma facada numa rua sem saída, só nos fará pensar mais tarde que o nosso caminho é numa estrada sem fim, onde andamos e andamos, e só veremos sempre o horizonte. O nosso caminho é um traço continuo, que oscila e estica e encurta, e fica gordo e magro, e anda aos pulos e em linha recta. E não pára, e fica parado, e não salta e manda grandes mortais. O nosso caminho é interrompido por quedas, desgastes, idas à guerra, horas perdidas, tardes manchadas e noites sofridas, o nosso caminho é interrompido por inundações que nós próprios choramos, por incêndios que nós próprios ateamos, por terramotos que nós próprios abalamos. Levar uma facada, é só mais uma dor, mais uma lágrima, mais uma ferida que dá lugar a um penso, que mais tarde é retirado e fica… a cicatriz, a lembrança, o vestígio que retira a esperança, o medo, a desilusão, a queda que mais tarde leva à traição.

Levei uma facada, estou bem. Caie e fui atropelada, sobrevivi. Deixei de ter sítio onde morar, como quando os outros deixam comida no prato para mais tarde eu roubar, sou má aluna na escola, não quero saber. Perdi tudo o que tenho, o que tinha, neste caso. Continuo bem. Só mais uma facada, uma dor, uma perda, um vestígio, que mais tarde dá azo à desconfiança, que relembra os momentos maus e depois, uma facada, que faz ferida e é curada, que deixa uma cicatriz, que é mais tarde tocada e no fim… Não há fim! É um ciclo vicioso, da queda. Da desilusão. Da dor. Da mágoa.

Levar uma facada, é bem melhor que deixar de ser amada. Deixar de ser amada, é como deixar de ter terra onde poisar os pés, é como tentar andar por entre nuvens ou pedras de um rio… Se escorregamos, é o fim.


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