terça-feira, 4 de abril de 2017

Quase três anos desde a tua partida

Querido Pai,
Os anos vão passando, e engane-se quem acha que não damos por eles. Por mais que os dias corram, por vezes, a voar, é impossível viver sem me relembrar de que já não estás aqui. Cada sorriso meu, em cada vez que não me sinto confortável e ninguém dá por isso, cada vez que converso contigo, cada vez que choro por ti, cada vez que a minha gargalhada faz a tua, cada vez que falo de ti a alguém. Os anos passam, mas nada muda. O amor, esse muda, esse cresce: expande-se, não tem fronteiras. E as saudades, matreiras e que atacam, por vezes, sem avisar, essas também não param de crescer. Porque os dias passam, os meses vão-se construindo, e com eles vem mais um aniversário meu, outro teu, uma Páscoa, um Natal. As ocasiões continuam a ter de ser celebradas, as velas a terem de ser sopradas, e por mais que, tantas vezes, não tenhamos disposição para festejar, sabemos que estarmos felizes é a maior alegria que te podemos dar. Eu sei que é a maior alegria que te posso dar, e eu quero tanto que sejas feliz… Que me vigies aí do céu e me continues a avisar, tocando no meu coração, cada vez que for incorreta para com alguém, cada vez que não escolher o melhor caminho, cada vez que exigir demasiado de mim e cada vez também que deveria ter pedido mais aos outros. Porque eu erro, e erro tanto, e tantas vezes me esqueço de que te tenho como anjo da guarda e, imprudente, acelerada e impulsiva como sou, ajo sem te pedir que me aconselhes. Mas até nessas vezes, por mais que não te dê oportunidade para te prenunciares, e tantas vezes me atiro de cabeça, há uma certeza que ninguém me tirará: é que até aí, nessa hora que tanto te deve frustrar e preocupar, até aí eu sei que me protegerás. Que não me dirás perante o meu insucesso que me tinhas avisado, e que cada vez que me parabenizarem com dois beijinhos no rosto, um deles foi por ti encomendado.
O amor que sinto por ti faz com que todos os dias me esforce para ser melhor, e com que, nas vezes em que me desvio desse lugar bonito que tanto visionámos juntos, a seguir nasça em mim uma dor e uma revolta sem fim, porque sei o quão bonito era o teu olhar cada vez que te dizia ter conseguido conquistar mais um bocadinho daquilo que ambicionámos. E que otimistas e bonitas eram as tuas esperanças.
Não consigo imaginar, por mais que tente, como será esse sítio em que agora, com toda a certeza, dominas com o teu charme, alegria e boa disposição. Mas espero que esteja à altura para receber um Pai tão incrível como aquele que tu és, e que, por mais que te tenha custado adaptar-te, agora já tenhas encontrado a Paz que tanto almejo para ti.

Amo-te com todo o meu coração, e se na tua vida via um exemplo, na tua morte vejo a brevidade da primeira, a força do amor, a mágoa da saudade. Por mais anos que passem serás sempre recordado em lágrimas, mas acima de tudo, e eu prometo que vou tentar, com um sorriso de orgulho, gratidão, respeito, e mil beijinhos enviados diretamente para o Céu.

terça-feira, 14 de março de 2017

Querida mãe


Querida mãe,



Hoje completas mais uma Primavera, daquelas em que o Sol nunca desaparece e faz desabrochar as flores mais bonitas do jardim. Continuas linda como eras quando, em pequena, usavas duas grandes tranças e tocavas piano. Hoje em dia ainda te recordas das cifras da "Noite Feliz" e, apesar de isso não ser importante, tens de admitir que te deixa feliz a memória não te atraiçoar!

Cresceste no seio de uma família que, acima de tudo, te amava mais do que tudo aquilo que há para amar, e onde reinava o sonho que pudesses chegar, com o teu irmão, mais longe ainda do que aquilo que ambicionavam para vocês próprios. Foste para a Universidade e, com o mesmo brio com que fizeste o teu curso, ingressaste no mercado de trabalho. Fizeste-te mulher, e, com uma saia pelo joelho, que jamais hoje usarias, foste para aquele que continua a ser o teu local de trabalho, há mais de vinte anos. É engraçado como, ainda hoje, as tuas amigas recordam a tua vivacidade e vontade de fazer mais, algo que, por mais anos que passem, jamais perderás.

Muitas coisas aconteceram ao longo destes anos, abraçaste muitos projetos e viste-te obrigada a ceder perante outros que, apesar de terem detido por algum tempo a tua atenção, não eram, realmente, aquilo que querias encabeçar. Ensinaste, e continuas a ensinar, e não há quem tenha sido teu aluno que não saiba, hoje em dia, as proposições, nem que seja pela obrigatoriedade de criarem um rap em que as mesmas constem. De tudo aquilo que recordas hoje com mais saudade e felicidade, num misto de dor e agradecimento, o pai é a constante, como se antes dele nada tivesse, para ti, importância suficiente para ser contado: sei de cor como se conheceram, como se apaixonaram, e conheço as vossas juras de amor quase tão bem como as que também eu própria hoje faço com aquele que também espero ser o homem dos meus sonhos.

Deste-me à luz, e, uns anos mais tarde, à Carolina. Lembro-me de ser pequena e de olhar para cima e ver o teu rosto, sempre tão cuidado e iluminado, como se me teres ao teu colo fosse uma bênção. Enganaste-te, mãe, bênção foi ter-te como mãe, e ter sido concebida nesse ventre que foi tão acarinhado durante meses e meses pelo pai. Lembro-me de me fazeres crer, tal como o pai sempre fizera, que se acreditasse com muita força nos meus sonhos eles se concretizariam. E tenho um número infindável de memórias tuas, contigo, ao teu lado, que não trocava por nada deste Mundo.

Quando escrevi o prefácio do "Madalena", e procurava as palavras certas para homenagear o pai, disseste-me que escrevesse que tinha um caráter imensurável. Escrevi-o, pois não há palavra do dicionário que melhor adjetive aquilo que era e é, e, hoje, digo-te que também tu tens essa qualidade. Porque sempre foste a nossa melhor amiga, minha, da Carolina e do pai. Porque quiseste ser minha confidente numa adolescência que nem sempre quis confessar, porque me apoiaste e me deste a garra necessária para que me sentisse invencível até o ser efetivamente. Porque sempre nos protegeste, porque sempre nos deste tudo aquilo que precisávamos, mesmo que isso não significasse tudo aquilo que queríamos e, acima de tudo, porque sempre foste um exemplo. Tu, o teu amor com o pai, a família que construíste. És não só aquilo que quero ser, mas aquilo que tenho de ser: porque a tua inteligência, sentido de humor e sensibilidade me enchem de orgulho, e porque é esse orgulho que sinto que quero também ver, um dia, espelhado na alma dos meus. Porque tu sabes, só nós sabemos, o quanto o teu coração é grande e a força com que amas, e essa força arrebatadora que supera a distância que não se conta em quilómetros. Porque te ergueste durante a tempestade, porque pensaste sempre em nós em primeiro lugar, porque nos dizes tantas vezes estar bem para nos ver bem.

Só te posso agradecer por seres uma daquelas mulheres que eu, com dezanove anos, ambiciono e luto por ser. O teu coração é do tamanho do amor que sinto por ti, e por mais que a vida nos fuja das mãos, e nós sabemos como ela é matreira, estamos juntos, os quatro, e o pai não podia estar mais descansado, sabendo que deixou os seus três tesouros juntos, abraçadinhas, tantas vezes na mesma cama ao fim de semana, a rir e a contar o que aconteceu.



Amo-te muito, muito, muito! Eu sei que, desde que o pai faleceu, este dia é diferente, mas queria que soubesses que nem por isso deixarei de te desejar um dia muito feliz!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Um novo renascer

As expetativas das outras pessoas dão-nos força, mas também nos retraem. Quando não nos conhecem, não esperam nada de nós, e tudo o que fazemos, por pior que seja, não as desilude. Quando sabem quem somos, quando já nos elogiaram, quando já nos disseram que conseguíamos fazer melhor, aí sim, esperam algo de nós. Que nos superemos, que cheguemos mais longe, que nos reinventemos. E cada passo que damos, cada coisa que fazemos, elas estarão lá, e serão cada vez mais críticas, cada vez mais exigentes. E esse medo de não nos superarmos, esse receio de não lhes darmos tanto quanto merecem, tanto nos incentiva como nos deixa sob luzes que não pedimos que nos encadeassem.
Hoje inicio o meu novo livro, reticente, sem grande confiança. Porque sei que esperam de mim aquilo que, apesar de acreditar ser possível, não posso prometer sem reticências. Que escreva sem parar, que seja rápida, que seja bom. Que aquilo que passe para o papel continue a fazer as outras pessoas rir, chorar, e, acima de tudo, sentir. Porque não escrevo para ter sucesso, já teria parado de o fazer há muito tempo se essa fosse a meta a alcançar, nem para ouvir que, de alguma maneira, o faço bem, mas porque preciso de sentir menos, com menor intensidade, e escrever faz-me sofrer menos, faz-me gritar menos, faz-me amar menos, quando o amor está prestes a sair-me do peito, porque nele já não cabe. Porque escrever exige que me silencie de todas as coisas que digo da boca para fora, e deixe voar aquelas que, por nada, digo a alguém. Porque escrever me faz refletir, reviver, e por mais que, por vezes, me magoe, deixa-me mais forte.
Deixar as palavras que me enchem a alma no papel, faz-me ficar mais leve, e por mais egoísta que seja ambicionar que, um dia, nada eu tenha que não sonhos, a verdade é que dar-vos aquilo que sou dá-me a oportunidade de, um dia, poder ser mais. A bagagem é importante, mas ter espaço para poder guardar coisas novas, é fulcral para quem não se contenta com aquilo que é, mais do que com aquilo que tem.
Tenho vontade de chegar cada vez mais longe, de abraçar cada vez mais pessoas que, como eu, procuram o conforto que precisam nas palavras dos seus iguais, que, pela diferença, nos agarram até à última página. Tenho vontade de escrever até que me doam os dedos, até que nada me reste para dizer, até que todas as personagens que me assombram o cérebro ganhem forma e sigam as suas vidas. Não posso prometer que o farei com a excelência que me é exigida, e que cada palavra vos vá tocar tanto como qualquer outra que já possa ter escrito, mas fá-lo-ei com o mesmo amor, este que cresce e me arrebata. Porque, no fundo, para lá de todas as vozes que possam dizer que já consegui, eu ainda estou a lutar pelo meu sonho, pelo sonho incrivelmente bonito e puro que é querer escrever para o resto da vida, assim, de modo despretensioso, sem esperar nada de vós, ansiando que também não esperem muito de mim.
Tal como foram os primeiros a saber que hoje iniciei esta jornada, também será convosco que partilharei o seu fim. Que esta necessidade desmedida de me libertar não finde, e que aquilo que, tantas vezes, apelidam de inspiração seja um rio que não seca, seja uma gargalhada que não tem fim, seja uma borboleta que, mais cedo ou mais tarde, brilhará fora do seu casulo. Que seja um caminho bonito, daqueles que fazemos sem medos, com os pés assentes no chão, mas com aquela sensação de que, se quiséssemos, os poderíamos sobrevoar só com o alento que nos dão ao percorrê-los.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2017

Ontem iniciou-se um novo ano, e com ele vieram todos os sonhos, esperanças e metas que esperamos alcançar. Vieram as promessas, os arrependimentos ficaram para trás, as decisões mais emblemáticas e as resoluções sólidas, cuja firmeza tantas vezes se perde ao longo dos dias. Vieram os beijos, os abraços, o fogo de artifício, o álcool em excesso, a alegria desmedida por se começar alguma coisa. Parece que, de um minuto para o outro, nos é dada uma nova oportunidade, e que, a partir dali, das doze badaladas, a partir dali, é que vai ser. Vamos esforçar-nos para sermos melhores, vamos trabalhar para nos distinguirmos daqueles que connosco competem por um lugar no mundo do trabalho, vamos amar mais, vamos ter mais tempo para aqueles que querem o nosso bem.
É bom ter um dia que simboliza o zero, o ponto de partida. Não é um recomeço, nunca será um recomeço. É reconfortante saber, e acima de tudo acreditar, que, de um dia para o outro, temos a possibilidade de começar uma nova vida, de decidir coisas importantes, de nos impulsionarmos e reinventarmos. Porque nem sempre é fácil termos a coragem necessária para acordar e dizer que aquele dia, que até então não era comemorado, será no próximo ano, por ter sido o dia em que fizemos algo por nós mesmos. Parece que temos de esperar que chegue este dia para escrevermos uma lista com objetivos e resoluções, parece que temos de esperar que chegue este dia para que digamos àqueles que nos perfuram a alma que não o voltarão a fazer, e àqueles que amamos que não os queremos perder. Parece que temos de esperar que chegue este dia para erguermos a voz e nos fazermos ouvir, para acreditarmos num futuro melhor, para lutarmos por um futuro melhor. Não são as doze passas, a taça de champanhe ou os votos de felicidades dos conhecidos e amigos que fazem do nosso ano diferente: somos nós. É a nossa ambição, força, esperança e perseverança. É o nosso querer, a nossa fé, é a forma como abraçamos os dias e como nos despedimos das noites. É o jeito como deixamos que nos amem e que amamos, a facilidade com que admitimos o erro e pedimos desculpa. É o facto de nos conseguirmos rir das nossas falhas e de nos sentirmos bem ao ponto de não termos de revelar aos outros o nosso sucesso. E é a maneira como olhamos para o Céu, para a Terra e para o Mar. A maneira como um dia de chuva nos entristece ou um raio de sol luminoso nos retrai e nos faz ficar em casa. São os nossos sonhos e a escalada que fazemos até à concretização de cada um deles.
A vida nem sempre nos vai sorrir e, saber aceitar a tristeza que tantas vezes a mesma acarreta, é tão nobre como festejar aquilo que de melhor nos dá. Que este ano todos nós sejamos um bocadinho mais de paz, de amor e de esperança. Que nada nos seja impossível se trabalharmos e que aqueles, com quem partilhamos o que de melhor e pior somos, fiquem connosco por muitos e bons outros começos.





terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cinquenta anos, querido Pai.

Querido Pai,
Hoje era dia de festa, de porco no espeto, de prendas, de beijos. Era o dia em que a meia-noite era ansiada por mim e pela Carolina e que, mal chegava, te surpreendia a ti com canções, textos, carinho e desenhos. Era o dia em que a casa se enchia de família, de amigos, daquele barulho que tanto nos reconforta o coração e nos relembra de que não estamos sozinhos. Os copos estariam levantados, dir-se-ia que por ti tudo, e sem ti "nada, nada, nada", e, quase que posso apostar, seria um dia muito feliz, afinal, só se fazem 50 anos uma vez.
Infelizmente, não tiveste essa oportunidade, e não celebrámos hoje contigo meio século, porque a vida não to deixou viver. Ao invés de te abraçarmos à meia noite, e de passarmos o dia a passear ou a organizar uma festa, a mãe comprou um grande arranjo de flores brancas onde colocou uma fotografia do vosso casamento e as três, tal como sempre fazemos, fomos visitar-te ao cemitério. Não te cantámos os parabéns, e desculpa, mas não preparei com a Carolina nenhum teatro ou dança: ficámos simplesmente ali, a deixar a tua campa bonita como sempre está, em silêncio. Não imaginavas assim os teus cinquenta anos, pois não? E não é triste como a vida nos impede de concretizar os nossos planos, e nos afasta daqueles que mais amamos?  A verdade é que aí, no Céu, talvez tenha sido só mais um dia. Aqui também o foi, mas para nós foi um dia ainda mais triste, porque a revolta, Pai, a revolta... mói. Esmurra-me o estômago. Tira-me a fome. E a única coisa que me reconforta é lembrar-me de todos os aniversários que passámos juntos, e de todas as prendas que te dei, de todos os textos que te escrevi. A única coisa que me reconforta é saber que te amei e amarei com todas as minhas forças, tal como tu a mim, e que jamais nos abandonaremos.
Hoje fazias cinquenta anos. E há quase três anos, quando te vi pela última vez, eras lindo. Tenho a certeza de que nada mudou, e se aqui estivesses serias o cinquentão mais charmoso de Leiria, tal como eu, a mana e a mãe somos, para ti, as mulheres/meninas mais bonitas do Mundo.
Que a paz more no teu coração, e que vivas a morte com a mesma serenidade com que viveste a vida. Feliz aniversário, pai! Amamos-te muito! Hoje e sempre! Obrigada por nos teres deixado tanta coisa invisível aos olhos.
Muitos muitos parabéns, meu amado Pai. Continua a cuidar de nós e que contemos o teu aniversário por muitos e muitos anos, tantos até o celebrarmos aí, todos juntos.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Já assim, velhinhos

Um dia todos vamos envelhecer, não vamos? As rugas vão mostrar ao Mundo o quanto sorrimos, o quanto chorámos, o quanto amámos. A nossa memória terá cada vez mais coisas para guardar, mas nós teremos cada vez menos força para nos recordarmos de tudo. Os nossos olhos quererão ver mais coisas, mais paisagens, mais vidas como as nossas, mas nós só vamos ver ao perto, cada vez mais ao perto. Com a idade, vamos conhecendo cada vez melhor os sons, e distinguiremos, na perfeição, o chilrear do pequeno pássaro que teima em cantar às oito da manhã de todos os barulhos da Natureza; a buzina do carro do nosso pai que é mais aguda do que a do carro da nossa mãe e o barulho que os nossos filhos farão a descer as mesmas escadas, e que é tão diferente... Mas um dia iremos confundir alguns deles, porque são tantos sons, tantas melodias... Os nossos pés, que já viajaram tanto, vão cada vez conseguir dar menos passos, e, por mais que queiramos correr, só iremos andar, A vida vai-se encarregando de nos ensinar que nem sempre será como queremos, mas só e simplesmente como conseguimos. Que com o tempo, é o tempo que manda. E que por mais que queiramos continuar a levar um quotidiano acelerado, cheio de pressa, frenético como a cidade que não dorme, um dia todos nós seremos prado, campo, serenidade e a leve brisa do verão que passa por nós sem darmos conta.
Um dia todos nós vamos aperceber-nos de que a vida finda e de que não há nada que possamos fazer senão aceitar e viver o que nos resta. Vamos perder aquela vontade louca de viver como se não houvesse amanhã, como tantas vezes sentimos na adolescência, e provavelmente até vai existir dias em que teremos quase a certeza de que não haverá assim tantos depois daquele e aí, aí, ao contrário do que faríamos uns anos antes, não vamos beber até perder o norte, nem beijar até os nossos lábios arderem de paixão... Possivelmente nem sequer vamos escrever uma lista com desejos, com coisas que queremos concretizar, porque, nessa altura, já saberemos que o facto de pormos no papel não faz com que o consigamos realizar. Então que faremos? Quem seremos antes de não sermos mais nada, nunca mais? Não vamos chorar, não vamos fazer promessas, de nada nos vale rezar. Que faremos? Onde iremos? Como se recebe a morte? Teremos a coragem suficiente para ficarmos simplesmente sentados num banco de jardim com um livro ao colo à espera que ela nos feche os olhos e nos embale?
É assustador imaginar que, um dia, vamos chegar a uma fase da nossa vida em que sabemos que já não temos assim tanta vida pela frente, e que poucas serão as coisas que não fizemos até lá e que ainda poderemos idealizar... Lamentar-nos-emos pelas palavras que não dissemos? Gritaremos pelas horas que perdemos? Como será esse momento que tanto nos assombra e fascina?
Um dia todos seremos velhinhos, e vamos provavelmente olhar para o futuro com a cara enrugada e os olhos em lágrimas: que sejam de esperança, de orgulho, de saudade antecipada. Que sejam por termos vivido um grande amor, que sejam porque termos rido até mais não. Um dia todos partiremos. O melhor era que todos partíssemos apenas assim, velhinhos, com histórias para contar aos netos, a andar porque já não se corre, a ver ao perto porque longe já é complicado, no campo porque toda a vida já foi na cidade.
 
   

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Receios

Receio não te ter dito que te amava vezes suficientes, todas as vezes em que te amei. Receio não te ter mostrado o quanto te admirava, e em como eras, para mim, um porto seguro, onde o mar não tinha corrente, e onde a areia não tinha conchas partidas. Receio ter guardado para mim tantos agradecimentos, tantas palavras de conforto, de carinho, de amizade, de admiração, e receio ainda mais que, no meio de todos os meus silêncios, não me tenhas ouvido falar.
Escrevo muito. Tanto quanto te amo. E gostava de conseguir dizer-te tudo aquilo que escrevo, e que me enche o coração e a alma, e me faz sorrir e chorar, que me emociona, que me enfraquece quando não me faz mais forte, mas não consigo. E, por isso, hoje digo-to por aqui. Digo-te que te amei muitas mais vezes do que aquelas em que to segredei, e que não te dei tantos beijos quantos aqueles que os meus lábios queriam, e que também não te pedi perdão todas as vezes em que me senti arrependida.
Digo-te hoje, sem vergonhas, sem medos, mas com muitos receios. Com receio que não te tenha conseguido dar tudo o que merecias, com receio que não tenha sido tudo aquilo que esperavas. Porque eu erro, e quantas vezes errei, e provavelmente perdoaste-me primeiro que eu a mim própria. Porque eu avanço, recuo, estou presente, mas tantas vezes chamaste por mim sem resposta, porque sabes, eu sou um espírito livre, uma alma sem dono, e toda a minha imaginação, todos os meus sonhos, tudo aquilo que eu sou é indomável, é fogo, é vento. Gostava de te dizer que desta vez seria diferente, e que existe um sítio no Mundo onde eu quero estar, e onde te prometo ser como esperas que seja, e dar-te aquilo que me dás, mas eu não sei se to posso prometer, e se é justo que nós, que vivemos a flor da idade, dos sonhos, da esperança, nos prendamos a promessas. Porque a vida nem sempre cumpre aquilo que nos prometeu, e porque as pessoas mudam, e, mesmo que os sítios fiquem nos mesmos lugares, deixam de ser nossos, para ser de alguém, para não serem de ninguém.
Receio que não te tenha conseguido mostrar aquilo que de mais profundo e bonito sinto, e receio-o principalmente porque sei o quanto gostarias de conhecer este amor que nutro desenfreadamente por ti, receio porque to mo mostraste, e como foi bom sentir que me amavas e que, por mais tempestades, dias difíceis, ausências, to me ias sempre amar.
Hoje olho para ti e sinto uma paz que nem sempre me foi característica: sinto que, por mais anos que passem, tu serás sempre o meu lugar preferido onde, por mais tempo que esteja longe, serei recebida de braços abertos, disposto a ouvir-me, a acarinhar-me, a amar-me. Porque é isso que fazes de melhor, porque é isso que és de melhor.
Receio, que um dia, quando a vida passar, me vás esquecendo, e que percas o meu cheiro no meio de todos os outros, e não recordes mais os meus vícios, as minhas manhas, os nossos sonhos. Que a nossa história seja eterna, e que a pintemos das cores mais felizes que as nossas tintas, as nossas lágrimas, os nossos sorrisos, consigam. Porque todos estes receios são fruto de um amor que não dorme, não descansa, não acalma. Que a vida fosse só amar, e como seríamos nós felizes.

sábado, 9 de abril de 2016

09-04-2016: dois anos desde a tua partida.

Querido pai,
No dia em que celebraremos o segundo aniversário do teu falecimento, não poderia deixar de te escrever. Como o tempo consegue, ao mesmo tempo, passar tão rápido e tão devagar. Às vezes parece que não te vejo há tanto tempo que se torna difícil recordar com exatidão o teu rosto; outras vezes, sinto que ainda ontem te abracei e te disse que ia dormir, certa de que te veria no dia seguinte. Hoje, por volta das seis e meia, realizaremos uma missa em tua honra, onde os nossos amigos e familiares marcarão presença, numa singela homenagem ao grande Homem que foste e serás.
Sinto-me triste todos os dias, por mais que ninguém o veja, e que poucos o saibam, sofro muito. Sofro muito, e sinto muitas vezes que devia chorar, devia viver o luto, sem conter os gritos, a raiva, as lágrimas, mas não consigo. Não consigo libertar-me desta máscara que criei para mim e onde me protejo, não consigo chorar tanto quanto queria, e principalmente, tanto quanto preciso, porque chorar implica explicar a todos aqueles que me rodeiam que ainda não consigo acreditar, e que ainda espero que tudo isto não passe de um pesadelo, e que um dia, tal como escrevi no meu livro, na "Madalena", tu regresses, rodando a tua chave na porta, com o teu sorriso e a tua barba, com a tua esperança e com a tua garra, com o meu porto de abrigo, com os meus sonhos, com a minha alegria.
Há dias particularmente difíceis, e este já está a ser um deles. Está a ser um deles porque hoje as pessoas abraçam-me e beijam-me mais do que o habitual, e falam de ti, e dizem-me que tens orgulho do que tenho feito e naquilo em que me tenho tornado, e ao invocarem o teu nome relembram-me de como durante dezasseis anos fomos uma família tão feliz e unida, e em como nada podia ser melhor. Abraçam-me e beijam-me e eu não consigo não acreditar que estás morto, porque se estivesses vivo não rezaríamos por ti, e as pessoas não choravam, e a mãe não estaria particularmente desanimada e a tentar desesperadamente que não o notemos.
Nestes dois anos que passaram por vezes a voar e outras vezes como se alguém me cravasse as suas unhas no meu peito até sangrar, nunca te esquecemos por um segundo. Só te posso agradecer por isso, por teres sido tão bom, tão grande, que jamais me senti perdida por não me lembrar de ti ou de nós. Obrigada por estares em mim e por fazeres com que seja melhor. Obrigada por seres o pai mais presente do Mundo, mesmo estando a quilómetros e quilómetros de distância, numa viagem que não terá fim e onde nos encontraremos mais cedo ou mais tarde. Prometo que ainda nos vamos ver, e que continuarei a ser a tua bebé, e que levarei comigo muitas vitórias, muitos sonhos concretizados, e muitos, muitos beijinhos, todos aqueles que guardei desde que partiste e que anseio desalmadamente libertá-los.
Amo-te muito! Lembrar-nos-emos para sempre do dia em que morreste, mas lembrar-nos-emos ainda mais do tempo em que viveste, e será sempre esse que recordaremos com um sorriso e com saudades.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Uma casa vazia

Vivemos, durante toda a nossa vida, numa busca incessante pelo conforto, pela estabilidade, pela paz. Procuramos, mesmo que acreditemos que não o fazemos, durante toda a nossa vida, pertencer a algo, a alguém. Assusta-nos ficarmos sozinhos, assusta-nos morrermos sozinhos. Imaginamos o nosso futuro e, inevitavelmente, imaginamo-lo perto de alguém. Conseguimos ver os sorrisos, ver as conquistas. Criamos uma casa vazia onde, aos poucos, o vazio se vai enchendo e vai dando lugar a um "nós" que jamais poderei ser só "eu": de móveis, de quadros, de pessoas, de memórias. O mar, com toda a sua irreverência, avança e recua, e nós, ali, nunca sozinhos, deixamos que ele nos molhe os pés, que ele nos molhe os pés até já não os sentirmos, de tão frios que estão. Vamos, então, para casa e aquecemos os pés um ao outro. O sol, também esse indomável, faz sentirmo-nos livres, livres para passear, para descobrir, para acreditar que o dia não acabará, e que nessa luta entre a luz e a imensidão das trevas, o sol vencerá. Nós os dois, que jamais imaginaremos estar sozinhos, iremos cuidar das sardas que alegram o rosto um do outro; iremos encontrar uma sombra que nos acolha de braços abertos e que nos faça conseguir ler aquele livro que ambos gostamos, apesar do sol imenso dessa tarde de primavera. À noite, quando o dia não vencer, e as estrelas teimarem em esconder-se, nunca nos sentiremos às escuras: eu serei a tua luz, tu serás a minha. Quando não souberes para onde ir, eu saberei onde te levar. Quando me sentir perdida, cheia de tudo e farta de nada, procurar-te-ei, e mesmo que nada esteja a nosso favor, e que todas as casas estejam ocupadas, todas as casas que poderiam ser nossas, e nas quais guardaríamos memórias, cores, sonhos, ficaremos, juntos, debaixo daquela ponte onde um dia nos podíamos ter cruzado. Não nos parece justo, assim sendo, não termos a oportunidade maravilhosa que é sermos felizes com alguém. Não nos parece justo que não tenhamos ninguém que sinta os nossos lábios, que queira envolver-nos nos seus braços e que veja em nós aquilo que mais ninguém viu. A beleza do meu acordar, a forma como os meus cabelos preenchem as minhas costas, a maneira como vejo o Mundo. Não somos mais, nem menos, e só pedimos que alguém que nos ame, nos compreenda, nos estime. Só queremos que exista alguém, por aí, que não peça demasiado, mas também não espere tão pouco. Que se aventure connosco nisto que é a vida, e que queira ler muito, viajar muito, sonhar muito, e sonhar alto. Que nos dê uma oportunidade para aprendermos, para nos apaixonarmos, para nos libertarmos. Procuramos uma companhia. Que não nos deixe morrer assim, sem ninguém, e que quando partirmos, nos recorde com saudades e conte, àqueles que o rodeiam, as nossas peripécias, as nossas histórias, os nossos feitos.
Não imaginamos estar sozinhos, porque isso parece implicar não ter filhos, não ter família, não ter almoços ao domingo, não ter surpresas depois de um dia cansativo de trabalho. Não imaginamos estar sozinhos porque, quando o estamos, parece que toda a gente tem alguém, e como é horrível ter de pôr sempre a chave na porta e nunca ninguém nos abrir quando tocamos à campainha. O que está em causa não é o agora, é, mas não é. É mais o futuro, essa incerteza sobre a qual tanto especulamos. É assustador, e ao mesmo tempo fascinante, não sabermos se daqui a alguns anos pertenceremos a algo, a alguém. Se teremos uma casa para mobilar, com coisas materiais, mas principalmente com aquelas que não o são; e não conseguirmos prepararmo-nos para a solidão, ou, por outro, para o amor, para a partilha, para a dor do outro, que, quando se ama, nos entristece mais que a nossa. E sonhamos, sonharemos sempre, e por mais que pensemos nisso provavelmente tudo será tão diferente, talvez melhor, talvez pior.
O importante é que, por mais que tenhamos medo de estarmos sozinhos, percebamos que a solidão não é sinónimo de tristeza, de rua amargurada, de céu cinzento. Que existem restaurantes abertos ao domingo, e que podemos reservar mesa só para um. Que viajar é a forma mais emocionante de nos afirmamos como seres livres, e que o facto de ninguém aplaudir as nossas batalhas ganhas não quer dizer que não tenhamos sido fantásticos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Querida Sofia

(Esta é a carta que a Madalena não chegou a entregar à sua querida filha Sofia, uma criança com um coração tão grande quanto o do seu avô, que aceitou um irmão adotado como se desde pequena o conhecesse e que só queria ver os seus pais juntos, e felizes, para sempre.)

Para a minha querida filha Sofia

Tem um bom dia, meu amor. Um dia tão bonito quanto o teu sorriso neste despertar. Acorda bem-disposta, veste-te, toma um bom-pequeno almoço e voa para longe de mim, para junto de todos aqueles que também te merecem ter. Vai com cuidado e, por favor, não te desconcentres na estrada: tens de olhar sempre para a esquerda e para a direita, e não te esqueças de que não é por ser uma passadeira que te podes aventurar num chão feito de zebras. Aprende muito, aliás, esforça-te para que nenhum dia seja em vão, para que o teu acordar não seja "por nada". Diverte-te, brinca, salta o mais alto que conseguires e não desistas só porque te dizem que jamais tocarás nas nuvens; respeita-te e respeita os outros, e recorda-te sempre de que a tua liberdade acaba onde a do próximo começa. Ri-te muito e faz os outros rir, como só tu sabes! Não excluas e não deixes que ninguém te ponha de parte. Basta seres tu própria: alegre, cheia de vida. Ensinar-te-ei mais tarde que nunca poderemos agradar a todos e que, por isso, é normal que nem todos aqueles com quem te cruzas sejam teus amigos para "todo o sempre", como nas histórias de encantar.
Quem me dera ter a tua idade de novo e ser assim, tão apaixonada, tão genuína. Com a idade vamos perdendo a nossa ingenuidade, vamos deixando de acreditar nos nossos sonhos, porque a ciência substitui a esperança no impossível, e começamos a ter uma visão muito menos colorida que a tua. Que isso demore a chegar, minha querida Sofia. Que continues a desejar, mais que tudo, um dia ser uma princesa, e que não te pareça impossível ser médica, cabeleireira e jardineira ao mesmo tempo. Que continues a amar os animais e que te emociones cada vez que o teu irmão te abraçar com força. Que sejas sempre solidária como até agora foste, e que me contes sempre o teu dia quando chegares da escola. Sem omissões, sem medo que, por algum motivo, te repreenda. Que continues a não distinguir as cores, porque isso só traz problemas, e que acredites para sempre que, no Mundo, só há pessoas boas. Espero que, por muitos anos, me vejas como uma heroína e ao teu pai como o super-herói mais admirado de toda a cidade e que, mesmo que tenhas mil e um amigos, e pessoas com quem amarás estar, jamais prefiras o café ao conforto do nosso sofá azul onde tantas vezes te contámos histórias. Quem me dera poder proteger-te para sempre, e deixar-te aqui, no sítio mais seguro do Mundo, perto de mim, do papá João e do Pedro. Se eu pudesse!
Mas não posso. E nós, mães, queremos inconscientemente que os nossos bebés, que para nós nunca o deixam de ser, fiquem connosco, para que cuidemos deles, para que, mais tarde, eles cuidem de nós. Mas a vida é uma estrada, com tantos quilómetros quantos aqueles que eu percorria por ti, e eu sei que tenho de te deixar ir. Sei que tens de fazer alguns percursos sem mim; outros precisarás que esteja ao teu lado, a apoiar as tuas decisões. Sei de tudo isto, mas mesmo assim custa, e cada vez que penso que vais crescer, e que um dia serás tu a ter força para me pegar ao colo, sinto um aperto muito grande no coração, porque só Deus sabe o quanto eu e o teu pai te amamos, e o quanto almejamos que sejas ainda mais feliz que nós.
Só te peço uma coisa, minha Sofia: cresce devagarinho. Um dia de cada vez, não tenhas pressas. Não arrumes as tuas bonecas no sótão cedo de mais, e não permitas que haja alguém que te diga que a fada dos dentes nunca existiu. Deixa-me pegar-te ao colo e beijar-te o rosto quando te levo à porta da escola e nunca recuses que te aperte essas bochechas pequeninas que herdaste do teu querido pai.
E sê feliz, pequenina! Sê feliz todos os dias, sê feliz como a mãe é, mesmo que nem sempre tudo corra como gostarias. Tens de ser forte, olha para mim. Olha para mim porque me esforço todos os dias para ser um exemplo para ti! Olha para o teu pai, porque ele, tal como eu, só quer iluminar o teu caminho e fazer de ti a pessoa mais acarinhada do Mundo.

Madalena



sábado, 29 de agosto de 2015

"Seremos o lugar onde tantas crianças sonham tocar (...)"

Na imensidão do céu, há sempre espaço para mais uma estrela. Por mais que ele se vá preenchendo, por mais que pareça que só existe lugar para mais uma, é surpreendente como se vão juntando e acumulando, uma a uma, por vezes em fila, outras vezes espalhadas por aquele mundo sem fim, onde o Homem tantas vezes já sonhou estar, mas onde, quando lá se encontra, se assusta e tem saudades de aqui estar. Todos nós um dia seremos estrelas, pequenas para quem nos vê como só mais uma numa noite iluminada, guias para aqueles que nos procurarão para reconfortarem os seus corações. Um dia todos nós partiremos, todos nós seremos estrelas cintilantes, à procura de um lugar no céu, tal como, durante a nossa vida inteira, procurámos um lugar na terra. A vida é feita de procura, da busca incessante: umas vezes com sucesso, outras vezes nunca encontramos aquilo que almejamos. Ter um lugar aqui, na terra, ou ali em cima, no céu, não depende só de nós, mas em muito está em nós: ser forte, ser crente, ser sonhador. Ter ambição e vontade e acreditarmos que alcançaremos tudo aquilo a que nos propusermos. Um dia faremos parte de uma constelação. Seremos o lugar onde tantas crianças sonham tocar quando nos vêem pelo telescópio, no sótão, e seremos, também, os ouvidos de todos aqueles que estão longe do seu amor, e que, na escuridão da noite, pedem-nos a nós, estrelas, que façamos com que a pessoa que mais amaram em vida, saiba que não a esquecem na morte. Quando todos nós formos estrelas, não haverá passado nem futuro, não haverá sonhos, nem desilusões. Estaremos ali, apenas ali, no céu, no escuro, escondidas ou cintilantes, entre as gotas da chuva, protegidas por uma nuvem maior, a criar os ambientes mais românticos ou a testemunhar as lágrimas mais sofridas.
Um dia, todos nós partiremos. Longe da pena, da saudade, do remediável, do reversível. Não seremos pó, não seremos lembranças, seremos estrelas. E brilharemos! Brilharemos como se não houvesse amanhã, até porque, para nós, estrelas, já não existem dias: somos apenas a noite. E, por mais que isso agora nos pareça distante, e nos faça ter medo, é o nosso destino, e temos de o aceitar com a mesma convicção com que uma árvore aceita ser despida no outono. Se anseia pelo momento em que todas as suas folhas partirão, e a deixarão ali, despida, desprotegida? Não. Mas sabe que esse momento vai chegar, e tem a serenidade e a quietude de o receber, como quem recebe o sol da primavera, e vê crescer em si bonitas flores ou saborosos frutos.


terça-feira, 14 de julho de 2015

15-07

Pai, hoje sinto tantas saudades tuas. São saudades tão sofridas, tão minhas, que não consigo partilhar com ninguém, o que faz com que, por momentos, Lhe peça que mas leve, porque não acredito conseguir viver com elas. São saudades daquelas que cortam a respiração e me fazem chorar compulsivamente agarrada a memórias distorcidas e a um rosto já falecido, visto no dia do teu funeral, quando te dissemos que te amaríamos para sempre. Amo-te tanto, meu querido pai. Há dias mais fáceis, em que me lembro de ti com uma saudade melhor, menos sofrida, repleta de orgulho e de esperança num futuro melhor. Mas há outros dias... em que sinto-me fora de mim, transfigurada, fragmentada, desfeita. Em que sinto que não aguento mais, que vou desabar, que o único sítio onde encontrarei paz é ao teu lado, no sítio onde acredito que estarás também és paz. Tenho sido uma guerreira. Temos sido as três, cada uma de nós como pode, como vai vivendo. Procuro-te pela casa, pela rua, no céu quando viajo de noite. Gosto muito de fixar uma estrela, a que brilhar mais, e ver se ela me segue até casa: quando isso acontece, acredito que sejas tu que me acompanhas e zelas pelo meu regresso ao lar. Amo-te muito! Obrigada por estares comigo, por me guiares, por me dares força para ser determinada e ambiciosa para chegar o mais longe possível. Estou sempre a pensar em ti e sei que tu também pensas em nós. Tenho saudades da tua voz e anseio ouvir o seu eco na nossa casa. Onde quer que estejas, está ciente de que nenhuma de nós se esquece um segundo que seja de ti e dos valores intemporais que nos deixaste. És um tesouro tão grande, tão raro que, por vezes, tenho medo de te desiludir, de não honrar o Homem e o Pai que foste. Esforço-me muito, todos os dias. Quero que olhes para mim e te sintas orgulhoso, que sintas que, por mais desorientada que hoje me encontre, nunca enveredarei por um caminho que te desagrade e que, por isso, podes dormir descansado.
Ainda não percebo o porquê de Deus te ter levado, e sinto muito raiva e mágoa pela tua partida porque tu eras e és a pessoa que eu mais amo no Mundo, e que sinto que me vai proteger para sempre. Sei que éramos iguais em muitas coisas, e que tu acreditas muito em mim, nos meus sonhos, nas minhas esperanças.


Sabes o quanto eu te amo. Não consigo escrever mais hoje, as lágrimas inundam o teclado do computador que tu e a mamã me ofereceram pelas minhas boas notas no oitavo ano. Muito obrigada por tudo. ÉS O MAIOR. Amo-te. És o meu anjo da guarda. E eu sei que nunca morrerás em mim!


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Feita de sonhos

Quando somos pequenos acreditamos que, um dia, teremos o Mundo aos nossos pés. É uma sensação fantástica aquela de acreditar que nunca é tarde de mais, e que ainda não chegou a nossa vez, "mas que está para chegar". Acreditamos que os dias maus são só para os outros e que os acidentes e as doenças são "coisas dos nossos primos muitos afastados". O tempo vai passando e, durante muitos anos, nós somos sonhos, apenas sonhos. Vivemos um dia de cada vez não com medo do dia seguinte, mas porque queremos aproveitar tudo ao máximo, sem pressas, na esperança garrida de que haverá sempre mais um dia, e que, para nós, o tempo é infindável. As tristezas são sol de pouca dura, e a chuva é fantástica porque rega o quintal dos nossos avós. Não vemos noticiários, e quando vemos não percebemos, mas "lá em casa vemos cada vez menos porque os meus pais dizem que são só desgraças". Não percebemos, aliás, muitas das vezes achamos que os adultos só podem ser disparatados, porque o Mundo não é nada como eles dizem! Avisam-nos para termos cuidado, pedem-nos para olharmos para os dois lados quando atravessamos a estrada, mas a verdade é que nós acreditamos que os carros vão parar e, se a bola que o João chutou vai para o meio da estrada, corremos sem medo para a apanhar, antes que a mãe dele ralhe por a bola se ter furado! Somos tão inocentes, tão felizes. A ignorância faz de nós donos do Mundo. Uma ignorância tão boa, tão saudável. Faz parte de nós ser assim. Ser sonhos, ser feitos de sonhos. Querer chegar à Lua como quem vai à padaria do Tio Zé e acreditar que vamos ser médicos e cabeleireiros e, quem sabe, jogadores profissionais de ténis de mesa. Ambicionamos tantas profissões, ter uma vida tão ocupada, com tanto trabalho, que nem nos lembramos que, caso conseguíssemos ser tudo aquilo que dizemos querer ser, mal teríamos tempo de nos sentarmos no sofá a ver os desenhos animados que tanto gostamos! Não obstante, adultos, escusam de nos dizer, quando somos crianças, que não podemos ser quatro profissões ao mesmo tempo: não queremos saber, simplesmente queremos ser!, e, quando se é criança, isso é o suficiente. Os nossos pais choram quando alguém parte e nós não percebemos o porquê de tantas lágrimas porque na catequese dizem-nos que "os melhores vão para o céu primeiro". Os nossos pais ralham-nos quando não estudamos ou quando tiramos más notas e nós ficamos realmente magoados, porque só nós sabemos o que estudámos (mesmo que tenha sido pouco, podíamos ter feito mil coisas mais interessantes quando pegámos nos livros!) e, para além disso, não precisamos de matemática para ser polícias! 
Temos tantos sonhos. Somos feitos deles, e de ilusões, e de histórias que impreterivelmente vamos escrevendo e nas quais fazemos ilustrações lindíssimas e cheias de cor, "tal e qual o Mundo é".

Aos poucos, como quem sobe pela primeira vez as escadas íngremes do palácio da Princesa Diana, vamos apercebendo-nos de algumas coisas e algumas delas, ai!, "quem nos dera nunca perceber!". Vamos perdendo muitas das ilusões que nos enchiam o coração de esperança e quando, ao jantar, os nossos pais insistem em pôr o noticiário, começamos a compreender o que os jornalistas dizem, com aquelas vozes ensaiadas e verdades escondidas. Na catequese, obrigam-nos, muitas vezes, a acreditar em coisas que não nos explicam e a Beatriz, que sempre foi mais adulta que nós, está a dizer que "não acredita no que não vê". Na escola disseram-me que não posso ser duas coisas ao mesmo tempo e que se neste país já conseguir ser uma devo dar-me por sortuda. Quando tiro uma má nota já não é preciso os meus pais me ralharem: fico mais tristes que eles, afinal, é o meu futuro que está em jogo! Tudo conta. Temos de nos aplicar. De lidar com pessoas de quem não gostamos e que, muitas das vezes, não nos respeitam, mas a nossa mãe diz-nos que, apesar disso, temos de as respeitar. Amamos como se não houvesse amanhã mas agora já ninguém nos pede em casamento como quando éramos crianças: o amor é assim mais leve, menos intenso... "um dia de cada vez". Não por querer viver tudo, mas por ter medo do futuro. Ao contrário de quando éramos crianças.

Um dia olhamos para trás e rimo-nos de nós próprios. Como é que é possível termos acreditado que o Mundo era assim?! Como é que é possível termos querido ser tantas coisas e pior, como é que achávamos que íamos conseguir concretizar todos os nossos sonhos? Onde tínhamos a cabeça quando achávamos que os nossos avós nunca seriam velhos de mais para partir, ou que os acidentes não existiam e que, por isso, nunca teríamos que chorar como os nossos pais? 

Eu sei onde tínhamos a cabeça. Tínhamos a cabeça nos sonhos! Quem me dera nunca ter deixado de ser feita deles.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Um ano desde a tua partida, pai.

Passou um ano. Como? Não faço a mínima ideia. Sinto-o como se fosse ontem. A intensidade do meu choro, do meu desespero e a força que faço para encarar todos os dias com um sorriso continuam a ser exatamente as mesmas de há um ano, quando o meu pai partiu para o Céu. As dúvidas não se dissiparam, antes pelo contrário: cresceram, e cresceram tanto que, por vezes, sinto-me "feita" de dúvidas, de questões que sei que jamais encontrarei resposta, mas sobre as quais é inevitável não me debater. Quem me conhece, sabe que sou católica, catequista até, e que, por isso, acredito muito em Deus, algo que me foi, primeiramente, incutido pelos meus pais. No dia em que me disseram que o meu pai se tinha ausentado para sempre, ajoelhei-me no chão da sala com o meu vizinho e rezámos, em conjunto, a Deus. Não estava ainda nada confirmado e, na minha cabeça, aquela oração podia mudar tudo. Rezei com tanta força e convicção, que a minha desilusão com Deus, quando soube que o meu pai tinha efetivamente morrido, não pode ser expressa em palavras. É tão difícil aceitar que Deus, o meu outro Pai, uma figura que me é tão querida, e com quem tantas vezes desabafei, me tirou uma das pessoas mais importantes da minha vida. Porquê?! Expliquem-me, por favor. Consolem esta minha mágoa que não vai embora, que me enche de lágrimas, de revolta, de sonhos destruídos, de pontes divididas a meio. Explica-me, Deus, por favor, o porquê de teres levado um Homem que, em vida, foi mais do que tanta gente que conheço e que se esforçou tanto para dar tudo àqueles que amava. Tem de haver uma explicação, não tem? Porra, eu amava e amo o meu pai TANTO! Era e é o meu ídolo e, ao mesmo tempo, o meu maior fã. Porque é que mo tiraram? A mim, à minha irmã, à minha mãe? Porque é que a vida levou  um Homem como tu, papá? Eu não quero acreditar que passou um ano, não quero, nem consigo acreditar que passou tão rápido e que, por outro lado, ainda vou ter de aguentar tantos anos quanto este, cheios de mágoa e de saudade. A vida é madrasta. Madrasta, difícil, estúpida. Qual é o direito que a vida tem de ser assim breve, de ser assim decisiva, de nos tirar tudo de um dia para o outro?
Já não acredito que vais voltar. Sei que não posso acreditar, porque isso me faz sonhar com o teu regresso e chorar ao acordar, Tenho de acreditar que foste para um sítio melhor, e que estás em Paz a observar-nos e a fazer com que consigamos concretizar todos os nossos sonhos, como sempre quiseste. Mas como é que queres que isso me conforte, pai,
se sei que aqui estavas em paz, e ao nosso lado, no melhor sítio do Mundo, o nosso lar?

Amanhã realizar-se-á uma missa em tua homenagem, no Convento dos Franciscanos, em Leiria, às sete e meia. Obrigada por estares em mim e por nunca me teres abandonado durante este ano. Obrigada por me teres amado como se estivesses aqui. És o meu Mundo, pai.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Dentro de mim. Tu sabes.

Pai,
Os dias têm passado. Um de cada vez, como quando aqui estavas. Cada dia continua a ter vinte e quatro horas. Continuo a ir para a cama por volta das dez e meia; a acordar às sete e meia para ir à escola, mas agora, desde que partiste, é a mãe que me faz o pequeno-almoço. Há dias melhores, outros piores. Quase um ano desde a tua partida, penso agora, quando te escrevo esta carta. Sinto a dor de te ter perdido com a mesma intensidade que na altura, quando recebi a notícia da tua morte. Parece que foi ontem...Disseram-me que este vazio que sinto ia diminuir com o tempo. Que a saudade que me revoltava e me fazia querer destruir tudo o que está à minha volta ia desaparecer, ia atenuar, porque nasceria em mim uma "saudade boa", que me faria recordar os bons momentos que passámos.., A verdade é que, todos os dias, me controlo tanto, faço tantos esforços, finjo tanto... Tu sabes. Tu sabes, porque estás dentro de mim, e sei que és tu que puxas as minhas lágrimas para dentro, quando sinto uma tristeza tão violenta que só se acalma ao escorrer pelo meu rosto. Tu sabes, porque vais a caminhar ao meu lado, quando estou na rua e vejo tantas famílias, tantas famílias que podíamos ser nós. Tu sabes, porque ouves as minhas conversas com Deus, ouves o quanto peço que Ele te traga de volta e ouves todas as vezes em que peço perdão por não ter sido uma filha melhor, mais presente. Tu sabes, pai.
Ainda hoje me interrogo porque é que Ele te levou. Sei que é uma pergunta para a qual jamais obterei resposta, mas isto não me impede de me questionar sobre o motivo da tua partida. Porque eu sei que tu não merecias, que tu não estavas pronto.
Deixaste-me a melhor mãe do Mundo. Que te ama todos os dias mais, tal como acontecia em vida. Tu sabes, tu consegues ouvi-la a falar de ti. Tu sabes, consegues vê-la a olhar para ti, a procurar-te onde quer que esteja.
Estou a lutar por nós. Juro que estou. Pela mamã, pela mana. A lutar para que nos mantínhamos unidas, para que a tua ausência não nos corrompa.
Estou a homenagear o Homem que foste, o Pai que és.
Não tenho palavras. Tu sabes. Tu sabes, porque vives em mim. Porque eu abri o meu coração e deixei que encarnasses no meu corpo, para que tenhas outra oportunidade de viver e para que eu consiga ser feliz.
Era impossível estarmos mais juntos, pai. 



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Encontrar-te de novo

Todos os dias me lembro do meu pai, da sua voz, da forma como fazia tudo para me ver sorrir. Aquele jeito tão dele de mostrar que me amava, as suas palavras sussurradas antes de eu adormecer e o volume do seu orgulho em relação a tudo o que eu fazia.
Um bom pai não é, nem nunca será, aquele que nos dá tudo o que queremos, mas sim aquele que, dentro do que alcançamos, nos ajuda a viver com todas as nossas experiências, boas e más, e nos educa, nos faz crescer e nos transmite valores que nos serão indispensáveis para sermos felizes. Com o passar do tempo, sinto-me cada vez mais em paz: estou a encontrar o meu pai em mim. “Finalmente”, penso.
As saudades não diminuem, mas o meu pai existiu, e, enquanto o pude tocar e sentir o seu abraço, sei que tive o melhor pai do Mundo e que, infelizmente, muitos, por mais anos que tenham os pais a seu lado, nunca sentirão a cumplicidade e o amor que eu e o meu pai tínhamos um com o outro.

Sei que não posso mudar o Mundo. Sempre o soube. Só que às vezes, neste caminho que percorro sozinha, à chuva, sinto-me fora de mim, sinto-me maior do que eu sou… e sonho. Sonho ter o meu pai de novo ao meu lado, não apenas em espírito, mas assim, agarradinho, junto ao meu peito, perto dos meus olhos. Sonho que nos voltamos a encontrar, e que é um encontro tão feliz, um encontro tão nosso. E como são bons os sonhos, e as saudades quando não nos arrancam o coração. Aprender a dominar as saudades é outro desafio… quase tão grande como o de mudar o Mundo. Não se aprende. Não se muda. Mas temos que viver com isso. Tenho que viver com isso. Perder o meu pai fez-me encontrá-lo de novo de uma forma que eu não acreditava poder encontrar alguém. Preferia encontrá-lo no jardim, como tantas vezes acontecia, sou sincera, mas encontro-o no meu coração, longe da visão, longe da possibilidade alucinante que é tocar-lhe outra vez. Mas já é tanto, já é tão bom, depois de tanto tempo sem o encontrar em lado algum.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

"Quando tu me amas a mim (...)"

Cada vez que olho para ti vejo-me melhor do que aquilo que sou. Imagino-me mais forte, mais segura de mim mesma, mais confiante daquilo que consigo. Daquilo que consigo ao teu lado. Aliás, daquilo que só consigo contigo a meu lado. Dizem que quando amamos muito uma pessoa, não somos egoístas, que a amamos por aquilo que ela é, que desejamos ficar com ela, para sempre, para a ver crescer, para crescer com ela. Afirmam que, quando gostamos realmente de estar com alguém, é porque essa pessoa, à sua maneira, é da nossa maneira. É alguém que, caso gostemos de nos rir, nos proporciona gargalhadas inesquecíveis. É alguém que, caso adoremos falar, nos deixa a pensar na eloquência das suas palavras e faz com que estas ecoem na nossa cabeça de uma forma inexplicável. Dizem que quando amamos alguém, amamos essa pessoa separadamente de tudo o resto, e que este amor, quando é verdadeiro, quando é duradouro, supera tudo aquilo que sobra. Que se sobrepõe a todas as outras coisas, que se distingue pela sua vivacidade, pela sua honestidade e pela simplicidade, porque quando amamos alguém parece que temos o dom de tornar tudo mais claro, tudo mais nosso. Concordo, não posso deixar de concordar com tudo o que dizem. Amar uma pessoa é, definitivamente, amar tudo aquilo que ela é ou, pelo menos. uma maioria tão grande que nos faz esquecer aquilo de que menos gostamos.
Mas o meu caso é outro, Eu amo-te, mas amo, simultaneamente, quem sou contigo, como sou contigo. Amo a forma como consegues pôr-me a sorrir e amo conseguir arrancar-te aquele sentido de dever cumprido ao veres que expulsaste a tristeza que habitava em mim. Amo a maneira como me esforço para ser melhor ao teu lado, de como gosto de te surpreender, de como tento ser forte para te orgulhar. Amo tudo isso em mim, quando tu me amas a mim. Quando me deito ao teu lado e não tenho receio de fechar os olhos, porque sei que jamais irás embora. Ver-te é ver-me mais feliz, mais sincera, mais vulnerável, mas, mesmo assim, e ao contrário do que poderia parecer provável, mais forte, mais "pronta para tudo". Não sei se sou egoísta ao querer-te comigo por sentir que sou melhor ao teu lado, e desculpa-me se, de algum modo, te desiludido por amar assim. Gostava que me percebesses, e que tentasses ajudar-me a ser cada vez maior. Sei que não sou fácil, e não imaginas como a saudade me tem transformado. Vejo-me tanto em ti que, por vezes, desejo ser como tu. Admiro a forma como me amas, e como em ti não existe pretensões, ambição ou egoísmo. Amas-me só por amar. Talvez também te devesse amar assim.

 



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

"Mas sei lá"

A vida tem-me ensinado muitas coisas ultimamente. A primeira é que tudo acontece por uma razão, e muitas das vezes por uma razão que jamais entenderemos, mas que, ao contrário daquilo que nos é habitual, não devemos contestar, e muito menos tentar perceber. Não que não possamos, mas sim porque nos faz mal... Temos que aceitar. Simplesmente aceitar. Sei que não é simples, e que não há figura de estilo que suavize certas coisas que temos que compreender mas cujo sentido nunca entenderemos, mas sei lá, é a vida a dizer-nos algo. A fazer-nos rever as nossas prioridades. A lembrar-nos de que estamos vivos e que, por isso, é normal que nem sempre tudo corra bem.
A segunda coisa que tenho aprendido é que temos que amar quem nos rodeia, e, principalmente, mostrá-lo. Sem que seja um dia especial, sem que haja aquela obrigatoriedade de agradar outrem. Não dizer por dizer, mas dizer sem ter que explicar porque dissemos. "Olha, estou a ligar-te apenas para dizer que te amo. Eu sei que já o disse um milhão de vezes, mas quero ter a certeza de que sabes que te amo do fundo do meu coração e que me lembrei de ti. É só isto."
Outra coisa de que me tenho apercebido é que tudo acaba, tudo finda. As pessoas partem, os momentos dissipam-se, os cheiros perdem-se no meio de tantos outros e, com a quantidade de palavras que ouvimos por dia, muitas das vezes vamo-nos esquecendo daquelas que queríamos ter sempre presentes. Às vezes, também, por maior que seja o nosso esforço, perdemos aquilo que mais amamos, deixamos partir quem mais admiramos. Nem sempre dá para lutar por essas coisas, aliás, se há algo que a vida me tem ensinado é que não tenho total controlo sobre o que se passa à minha volta; não escrevo, ao contrário daquilo que acreditava, todo o meu destino.
A quarta coisa que a vida me tem dado a conhecer é a saudade. Tenho aprendido a viver com a saudade de quem partiu e com a saudade de alguém que deixei partir. Duas pessoas que me fazem tanta falta, vida! Quem me dera poder trazê-las de volta para mim. Voltar a cuidar de cada uma delas. À que foi para o céu, as palavras não chegam para o desejo desmedido que tenho de a querer junto de mim. Apesar de estar mais longe, sinto-a dentro de mim. À outra pessoa, àquela que deixei escapar, apenas queria dizer-lhe que, por mais pessoas, e momentos, e histórias, ela será sempre a pessoa, e o momento e a história. Perdi dois bocadinhos de mim, mas a vida disse-me que tinha que continuar. Mostrou-me que conseguia continuar. E talvez esta seja a maior lição que a vida me tem vindo a dar. Sim, aquilo que mais aprendi nos últimos tempos é que temos que lutar por nós próprios: que não podemos desistir, nem ser fracos e egoístas. Que temos que pensar na falta que faríamos aos outros caso partíssemos e no quanto ajudamos quando estamos felizes, quando nos esforçamos por ser felizes.
Ultimamente tenho aprendido muito com a vida... Existem coisas que ainda não consigo perceber, e várias são as vezes em que me interrogo sabendo que me faz mal, que não amo, ou que amo e não mostro, que não sei lidar com a saudade, com a saudade que sinto de quem partiu e de quem decidiu ir embora, que não luto por mim. Sei que ainda falharei tanto. Sei que sofrerei ainda tanto. "Mas sei lá", a vida um dia vai ser boa, não vai?





quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Um coração que morreu

Existem dias em que não tenho força. Dias em que acredito que chegou também a minha hora de dizer adeus, também a minha hora de abandonar tudo aquilo que é físico e que tantas vezes, para além de nos preencher, nos faz vazios. Dias em que a saudade parece transformar-se em raiva e em rancor; dias em que chorar não consegue aliviar uma alma que há tanto tempo parece inundada na sua própria comodidade que em nada lhe é cómoda. É aquela acumulação de sonhos não concretizados, de palavras deixadas por dizer, de beijos que ficaram por dar. Tantas coisas, tantas coisas que não são coisas. Andar à deriva como um barco de vela num dia de tempestade. Ter vontade de partir, mas sentir que nenhum sítio é suficientemente calmo para nos acolher. Aquela angústia que nos prende mas, ao mesmo tempo, nos liberta, e liberta em nós aquilo que de pior temos. Aquilo que, por ser tão obscuro, a ninguém mostramos. Vontade de partir tudo, de atirar tudo pela janela. Que se lixem!, que se lixem todos! Dúvidas que sabemos que nunca serão esclarecidas. Respostas que em nada satisfazem a nossa curiosidade. Tretas, tantas tretas. Porquê a nós?! Tantos caminhos, ter que tomar tantas decisões. Até quando aguentaremos? Até quando aguentarei? Quando a saudade me ataca, quando o frio não passa. Um coração transformado numa pedra. As mãos geladas, o resto do corpo a ferver. E por mais que as coisas corram bem, e que os dias bons se vão acumulando como as pegadas na areia, basta ver-te, pensar em ti, sentir-te, é como se o mar as apagasse, é como se nunca tivessem existido bons dias. Perco a cor. Tento encontrar-te; quando não te vejo, tento esquecer-te. Não sei o que sinto, não sei porque sinto tudo isto e ao mesmo tempo às vezes dou comigo a não sentir nada. E é aquela raiva, aquele ódio porque há quem tenha, e há quem não chore, e há quem tenha um rumo, e uma casa que é mais do que a que eu tenho, uma casa que é um coração preenchido, um coração amado, um coração que ama, um coração vivo. Talvez seja esse o problema: o meu coração morreu.
Morremos todos. Mais cedo ou mais tarde, perdemos a força. A vontade. A ambição. Os sonhos vão-se tornando tão distantes e tão irreais que deixam de ser concebíveis. E a melancolia da vida. E a melancolia da morte. Os disparos da personalidade, da euforia para a depressão, da embriaguez para ressaca. A vida assim. A vida sem nada. Um lugar cada vez mais vazio. Poeira, outono, geada, inverno. Quando dás por ti já desististe. Quando dás por ti estás a viver um desses dias. Desses dias que ninguém quer passar.
E aí, nesses dias, que de tão tristes que são nos tiram a vontade de os relembrar, apercebes-te de que apenas tu os podes ultrapassar. E que a força não pode simplesmente morrer sem lutar, sem lutar por ti.


sábado, 16 de agosto de 2014

Feliz aniversário, pai.

Pai,
Hoje é o teu dia de anos. Tal como sempre fiz, escrever-te-ei uma carta, visto que sei que é algo que sempre gostaste de ler. É o teu primeiro aniversário que não passaremos juntos desde que eu nasci e não sabes o quanto isso me está a afetar. Passaram-se pouco mais de quatro meses desde a tua partida: há dias em que parece que se passaram anos, outros onde sinto que ainda foi ontem que te despediste com um “até já, meninas”. A vida não foi muito boa contigo, pois não?
Espero que nos estejas sempre a ver do Céu, aliás, tento acreditar nisso todos os dias, caso contrário ser-me-ia impossível viver. Imaginar que podes não estar aqui, nem em lado nenhum… Sinto-me demasiado perdida e despida para tal. Se nos vês, como acredito, sabes que não tem sido muito fácil: há alturas do dia em que nem sequer tenho vontade de abrir os olhos, sinto que se os tivesse fechado contigo, ou por ti, estava tudo tão melhor, fazes tanta falta… Outras, felizmente, já vou conseguindo viver sem ti, apesar da dor que me causa pensar nisso e na celeridade com que tivemos que voltar a falar, a andar, a ir para a escola, a viver efetivamente sem ti.
Quando faleceste achei que o Mundo tinha acabado, e não conseguia ver qualquer saída para tudo isto, mas agora sei, e em muito se deve à mulher fantástica que cá deixaste para nos criar, que temos que continuar, que temos que seguir em frente… Tal como a mãe diz, temos que fazer tudo aquilo que sabemos que tu gostarias, tudo aquilo que tivermos a certeza que te vai orgulhar, mesmo que não seja o mais fácil para nós.
Amamos-te muito, pai. A tua partida fez-nos crescer imenso, mais do que todas nós queríamos crescer. Eu, para ser sincera, ainda não acredito que morreste. Estou sempre a pensar que se enganaram a identificar o teu corpo, e que daqui a uns tempos regressarás vivo, com aquele sorriso tão só teu, e que dará em todos os noticiários o erro da polícia, e do médico, e o milagre que foi tu estares bem… Como me parece estúpido quando o escrevo mas tão bom e plausível quando o penso antes de adormecer. Tu não vais voltar, pois não?
Merda. Eu sei que não gostavas que dissesse asneiras, mas neste momento só me apetece gritar: merda, merda, merda. Temos tantas saudades tuas. Fazes tanta falta… A vida sem ti perdeu tanta cor, tanta coisa. Não estava preparada para te dizer adeus com dezasseis anos. Aliás, não estava preparada para te dizer adeus nunca. Tínhamos uma relação tão especial, lembras-te? Amava-te e ainda te amo de todo o coração. Meu melhor amigo, meu mais que tudo, meu pai. Não percebo por que razão Deus te tinha que levar agora, e não imaginas como é para mim confuso visitar-te todas as semanas no cemitério e falar contigo a olhar para terra, e ver bichinhos, e formigas a passarem por entre os ramos de flores e a tua fotografia mal tratada pela chuva. Porquê a nós?!
Tenho que te pedir desculpa mais uma vez por todo o sofrimento que te causei enquanto eras vivo: por todas as vezes em que me portei mal, por todas as vezes em que não correspondi às expetativas altíssimas que tinhas para mim… Se soubesse que ias embora tão cedo, tinha mostrado tão mais o amor que sempre nutri por ti. E a admiração… E tudo. Tinha e tenho tanto orgulho em ti, pai. Sempre disse a todos os meus amigos que te amava muito, e que eras o melhor treinador do Mundo, e o melhor pai também. Ver que as pessoas te amavam tanto, e que também elas choraram a tua morte, só me faz ter a certeza de que tinha motivos para me gabar de ti.
A nossa vida mudou muito. Sei que nos estás a ver, mas quero contar-te uma coisa: a Carolina e eu tivemos muito boas notas na escola, melhores que no segundo período, até! E a Carolina já consegue tocar algumas músicas na guitarra que lhe ofereceram no Natal, e eu estou a escrever outro livro, pai.
A mãe agora vai andar a pé às vezes. Lembras-te como a tentavas convencer a sair do sofá e a fazer desporto? Agora a mãe faz!
Fomos passar uns dias a Sesimbra, a um hotel que a mãe encontrou na net, e a mãe deixou-nos estar os três dias inteiros na piscina, mas claro que não entrou, também não exageremos! Agora estamos no Algarve ainda, e vamos cá passar o teu dia de anos, por isso quem te leva esta carta é um amigo de confiança… Tenho muita pena de não estar aí. Tinha pensado que poderia ficar à sombra a ler para ti ou simplesmente a contar-te as novidades, mas só vamos embora amanhã.
Desde que morreste que me tornei uma menina muito triste. Às vezes choro muito alto, mas a maioria delas choro para dentro, faço-me de forte porque não gosto que os outros vejam as minhas fraquezas, sempre fui assim, tu sabes. Sinto um vazio enorme no coração, como se uma parte de mim tivesse também ela falecido e partido contigo. E sabes o que é o pior? É que sempre que me lembro de ti lembro-me do quanto tinhas sonhos para nós, e do quanto nos prometeste que íamos fazer tantas coisas que a vida não deixou. O Quintal da Carolina, o meu segundo livro… Precisamos tanto de ti.
Antes de partires disseste que não sabias o que ia ser das tuas filhas, contou-nos uma senhora que ouviu as tuas últimas palavras. Obrigada pai, obrigada. É tão bom no meio de tudo isto saber que não te esqueceste de nós. Estamos vivas, pai, e não te preocupes agora, descansa em paz, que estamos bem. A viver para ti, e por ti, para te orgulhar.
Protege-me sempre, pai, mesmo quando os anos passarem. Nunca te esqueças do quanto te amo e da quantidade de vezes que olho para o céu sempre que saio de casa à noite e o afinco com que procuro a maior estrela. Onde quer que estejas, espero que estejas a ler esta carta e a lembrar-te das coisas boas que eu e a mana e a mãe te demos, e das férias, e das prendas, e das brincadeiras.
Este ano eu e a Carolina não te vamos fazer nenhum teatro, nem uma dança ou uma música como era habitual, mas vamos tentar estar bem, porque a mãe disse que essa era a melhor prenda que te podíamos dar neste dia tão especial. Sei que já não estavas há muitos anos com os teus pais no teu aniversário, e que isso também te magoava muito, por isso olha, pai, aproveita. Dá um beijinho muito grande aos avós, e a todos aqueles que partiram e que eram teus amigos ou da nossa família. Não sei como é aí no Céu, e se vais celebrar o teu aniversário, mas nós aqui vamos.
Muitos parabéns, papá. Amo-te muito, nunca te vamos esquecer, nem vamos esquecer este dia que sempre foi tão bom. Um beijinho do tamanho do Mundo e obrigada pelos melhores anos da minha vida. Vou continuar a escrever-te e a pôr coisas no blog como sempre mandaste. Amamos-te muito! Foste um ser humano incrível, como poucos existiram. Aquilo que nos deixaste a nível material em nada se compara ao tesouro que escondeste em cada um dos nossos corações e que jamais poderemos agradecer. Espero continuar a orgulhar-te e a ser motivo daquele teu olhar emocionado que via sempre que fazia alguma coisa bem, por mais pequena que fosse. Por detrás da tua voz, voz que nunca esquecerei, que tantos diziam ser assustadora de tão grossa, estava e sempre estará um homem com o maior H do Mundo, porque nunca conheci ninguém com um coração tão puro, tão fácil de perdoar. 
Dizem que Deus leva primeiro os melhores para junto de si. Tenho a certeza de que te escolheu porque também ele reconheceu como eras bom. Para nós foi injusto, e dói muito, mas se calhar aí é um lugar tão bom, tão calmo. Descansa em paz, pai. Descansa em paz porque se há alguém que merece tranquilidade e sossego esse alguém és tu, que tanto em vida fizeste pelos outros.
O Kiko ainda é vivo, e desde que partiste sempre que alguém se aproxima de nossa casa não pára de ladrar como se fosse um cão enorme. Ensinaste-o bem. Obrigada por tudo, tem um dia muito feliz, meu querido pai.
O amor que sinto por ti é inexplicável e nunca desaparecerá. Por mais anos que passem nunca, mas mesmo nunca, duvides disso. Serei sempre a tua menina.
16-08-2014