segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Encontrar-te de novo

Todos os dias me lembro do meu pai, da sua voz, da forma como fazia tudo para me ver sorrir. Aquele jeito tão dele de mostrar que me amava, as suas palavras sussurradas antes de eu adormecer e o volume do seu orgulho em relação a tudo o que eu fazia.
Um bom pai não é, nem nunca será, aquele que nos dá tudo o que queremos, mas sim aquele que, dentro do que alcançamos, nos ajuda a viver com todas as nossas experiências, boas e más, e nos educa, nos faz crescer e nos transmite valores que nos serão indispensáveis para sermos felizes. Com o passar do tempo, sinto-me cada vez mais em paz: estou a encontrar o meu pai em mim. “Finalmente”, penso.
As saudades não diminuem, mas o meu pai existiu, e, enquanto o pude tocar e sentir o seu abraço, sei que tive o melhor pai do Mundo e que, infelizmente, muitos, por mais anos que tenham os pais a seu lado, nunca sentirão a cumplicidade e o amor que eu e o meu pai tínhamos um com o outro.

Sei que não posso mudar o Mundo. Sempre o soube. Só que às vezes, neste caminho que percorro sozinha, à chuva, sinto-me fora de mim, sinto-me maior do que eu sou… e sonho. Sonho ter o meu pai de novo ao meu lado, não apenas em espírito, mas assim, agarradinho, junto ao meu peito, perto dos meus olhos. Sonho que nos voltamos a encontrar, e que é um encontro tão feliz, um encontro tão nosso. E como são bons os sonhos, e as saudades quando não nos arrancam o coração. Aprender a dominar as saudades é outro desafio… quase tão grande como o de mudar o Mundo. Não se aprende. Não se muda. Mas temos que viver com isso. Tenho que viver com isso. Perder o meu pai fez-me encontrá-lo de novo de uma forma que eu não acreditava poder encontrar alguém. Preferia encontrá-lo no jardim, como tantas vezes acontecia, sou sincera, mas encontro-o no meu coração, longe da visão, longe da possibilidade alucinante que é tocar-lhe outra vez. Mas já é tanto, já é tão bom, depois de tanto tempo sem o encontrar em lado algum.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

"Quando tu me amas a mim (...)"

Cada vez que olho para ti vejo-me melhor do que aquilo que sou. Imagino-me mais forte, mais segura de mim mesma, mais confiante daquilo que consigo. Daquilo que consigo ao teu lado. Aliás, daquilo que só consigo contigo a meu lado. Dizem que quando amamos muito uma pessoa, não somos egoístas, que a amamos por aquilo que ela é, que desejamos ficar com ela, para sempre, para a ver crescer, para crescer com ela. Afirmam que, quando gostamos realmente de estar com alguém, é porque essa pessoa, à sua maneira, é da nossa maneira. É alguém que, caso gostemos de nos rir, nos proporciona gargalhadas inesquecíveis. É alguém que, caso adoremos falar, nos deixa a pensar na eloquência das suas palavras e faz com que estas ecoem na nossa cabeça de uma forma inexplicável. Dizem que quando amamos alguém, amamos essa pessoa separadamente de tudo o resto, e que este amor, quando é verdadeiro, quando é duradouro, supera tudo aquilo que sobra. Que se sobrepõe a todas as outras coisas, que se distingue pela sua vivacidade, pela sua honestidade e pela simplicidade, porque quando amamos alguém parece que temos o dom de tornar tudo mais claro, tudo mais nosso. Concordo, não posso deixar de concordar com tudo o que dizem. Amar uma pessoa é, definitivamente, amar tudo aquilo que ela é ou, pelo menos. uma maioria tão grande que nos faz esquecer aquilo de que menos gostamos.
Mas o meu caso é outro, Eu amo-te, mas amo, simultaneamente, quem sou contigo, como sou contigo. Amo a forma como consegues pôr-me a sorrir e amo conseguir arrancar-te aquele sentido de dever cumprido ao veres que expulsaste a tristeza que habitava em mim. Amo a maneira como me esforço para ser melhor ao teu lado, de como gosto de te surpreender, de como tento ser forte para te orgulhar. Amo tudo isso em mim, quando tu me amas a mim. Quando me deito ao teu lado e não tenho receio de fechar os olhos, porque sei que jamais irás embora. Ver-te é ver-me mais feliz, mais sincera, mais vulnerável, mas, mesmo assim, e ao contrário do que poderia parecer provável, mais forte, mais "pronta para tudo". Não sei se sou egoísta ao querer-te comigo por sentir que sou melhor ao teu lado, e desculpa-me se, de algum modo, te desiludido por amar assim. Gostava que me percebesses, e que tentasses ajudar-me a ser cada vez maior. Sei que não sou fácil, e não imaginas como a saudade me tem transformado. Vejo-me tanto em ti que, por vezes, desejo ser como tu. Admiro a forma como me amas, e como em ti não existe pretensões, ambição ou egoísmo. Amas-me só por amar. Talvez também te devesse amar assim.

 



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

"Mas sei lá"

A vida tem-me ensinado muitas coisas ultimamente. A primeira é que tudo acontece por uma razão, e muitas das vezes por uma razão que jamais entenderemos, mas que, ao contrário daquilo que nos é habitual, não devemos contestar, e muito menos tentar perceber. Não que não possamos, mas sim porque nos faz mal... Temos que aceitar. Simplesmente aceitar. Sei que não é simples, e que não há figura de estilo que suavize certas coisas que temos que compreender mas cujo sentido nunca entenderemos, mas sei lá, é a vida a dizer-nos algo. A fazer-nos rever as nossas prioridades. A lembrar-nos de que estamos vivos e que, por isso, é normal que nem sempre tudo corra bem.
A segunda coisa que tenho aprendido é que temos que amar quem nos rodeia, e, principalmente, mostrá-lo. Sem que seja um dia especial, sem que haja aquela obrigatoriedade de agradar outrem. Não dizer por dizer, mas dizer sem ter que explicar porque dissemos. "Olha, estou a ligar-te apenas para dizer que te amo. Eu sei que já o disse um milhão de vezes, mas quero ter a certeza de que sabes que te amo do fundo do meu coração e que me lembrei de ti. É só isto."
Outra coisa de que me tenho apercebido é que tudo acaba, tudo finda. As pessoas partem, os momentos dissipam-se, os cheiros perdem-se no meio de tantos outros e, com a quantidade de palavras que ouvimos por dia, muitas das vezes vamo-nos esquecendo daquelas que queríamos ter sempre presentes. Às vezes, também, por maior que seja o nosso esforço, perdemos aquilo que mais amamos, deixamos partir quem mais admiramos. Nem sempre dá para lutar por essas coisas, aliás, se há algo que a vida me tem ensinado é que não tenho total controlo sobre o que se passa à minha volta; não escrevo, ao contrário daquilo que acreditava, todo o meu destino.
A quarta coisa que a vida me tem dado a conhecer é a saudade. Tenho aprendido a viver com a saudade de quem partiu e com a saudade de alguém que deixei partir. Duas pessoas que me fazem tanta falta, vida! Quem me dera poder trazê-las de volta para mim. Voltar a cuidar de cada uma delas. À que foi para o céu, as palavras não chegam para o desejo desmedido que tenho de a querer junto de mim. Apesar de estar mais longe, sinto-a dentro de mim. À outra pessoa, àquela que deixei escapar, apenas queria dizer-lhe que, por mais pessoas, e momentos, e histórias, ela será sempre a pessoa, e o momento e a história. Perdi dois bocadinhos de mim, mas a vida disse-me que tinha que continuar. Mostrou-me que conseguia continuar. E talvez esta seja a maior lição que a vida me tem vindo a dar. Sim, aquilo que mais aprendi nos últimos tempos é que temos que lutar por nós próprios: que não podemos desistir, nem ser fracos e egoístas. Que temos que pensar na falta que faríamos aos outros caso partíssemos e no quanto ajudamos quando estamos felizes, quando nos esforçamos por ser felizes.
Ultimamente tenho aprendido muito com a vida... Existem coisas que ainda não consigo perceber, e várias são as vezes em que me interrogo sabendo que me faz mal, que não amo, ou que amo e não mostro, que não sei lidar com a saudade, com a saudade que sinto de quem partiu e de quem decidiu ir embora, que não luto por mim. Sei que ainda falharei tanto. Sei que sofrerei ainda tanto. "Mas sei lá", a vida um dia vai ser boa, não vai?





quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Um coração que morreu

Existem dias em que não tenho força. Dias em que acredito que chegou também a minha hora de dizer adeus, também a minha hora de abandonar tudo aquilo que é físico e que tantas vezes, para além de nos preencher, nos faz vazios. Dias em que a saudade parece transformar-se em raiva e em rancor; dias em que chorar não consegue aliviar uma alma que há tanto tempo parece inundada na sua própria comodidade que em nada lhe é cómoda. É aquela acumulação de sonhos não concretizados, de palavras deixadas por dizer, de beijos que ficaram por dar. Tantas coisas, tantas coisas que não são coisas. Andar à deriva como um barco de vela num dia de tempestade. Ter vontade de partir, mas sentir que nenhum sítio é suficientemente calmo para nos acolher. Aquela angústia que nos prende mas, ao mesmo tempo, nos liberta, e liberta em nós aquilo que de pior temos. Aquilo que, por ser tão obscuro, a ninguém mostramos. Vontade de partir tudo, de atirar tudo pela janela. Que se lixem!, que se lixem todos! Dúvidas que sabemos que nunca serão esclarecidas. Respostas que em nada satisfazem a nossa curiosidade. Tretas, tantas tretas. Porquê a nós?! Tantos caminhos, ter que tomar tantas decisões. Até quando aguentaremos? Até quando aguentarei? Quando a saudade me ataca, quando o frio não passa. Um coração transformado numa pedra. As mãos geladas, o resto do corpo a ferver. E por mais que as coisas corram bem, e que os dias bons se vão acumulando como as pegadas na areia, basta ver-te, pensar em ti, sentir-te, é como se o mar as apagasse, é como se nunca tivessem existido bons dias. Perco a cor. Tento encontrar-te; quando não te vejo, tento esquecer-te. Não sei o que sinto, não sei porque sinto tudo isto e ao mesmo tempo às vezes dou comigo a não sentir nada. E é aquela raiva, aquele ódio porque há quem tenha, e há quem não chore, e há quem tenha um rumo, e uma casa que é mais do que a que eu tenho, uma casa que é um coração preenchido, um coração amado, um coração que ama, um coração vivo. Talvez seja esse o problema: o meu coração morreu.
Morremos todos. Mais cedo ou mais tarde, perdemos a força. A vontade. A ambição. Os sonhos vão-se tornando tão distantes e tão irreais que deixam de ser concebíveis. E a melancolia da vida. E a melancolia da morte. Os disparos da personalidade, da euforia para a depressão, da embriaguez para ressaca. A vida assim. A vida sem nada. Um lugar cada vez mais vazio. Poeira, outono, geada, inverno. Quando dás por ti já desististe. Quando dás por ti estás a viver um desses dias. Desses dias que ninguém quer passar.
E aí, nesses dias, que de tão tristes que são nos tiram a vontade de os relembrar, apercebes-te de que apenas tu os podes ultrapassar. E que a força não pode simplesmente morrer sem lutar, sem lutar por ti.


sábado, 16 de agosto de 2014

Feliz aniversário, pai.

Pai,
Hoje é o teu dia de anos. Tal como sempre fiz, escrever-te-ei uma carta, visto que sei que é algo que sempre gostaste de ler. É o teu primeiro aniversário que não passaremos juntos desde que eu nasci e não sabes o quanto isso me está a afetar. Passaram-se pouco mais de quatro meses desde a tua partida: há dias em que parece que se passaram anos, outros onde sinto que ainda foi ontem que te despediste com um “até já, meninas”. A vida não foi muito boa contigo, pois não?
Espero que nos estejas sempre a ver do Céu, aliás, tento acreditar nisso todos os dias, caso contrário ser-me-ia impossível viver. Imaginar que podes não estar aqui, nem em lado nenhum… Sinto-me demasiado perdida e despida para tal. Se nos vês, como acredito, sabes que não tem sido muito fácil: há alturas do dia em que nem sequer tenho vontade de abrir os olhos, sinto que se os tivesse fechado contigo, ou por ti, estava tudo tão melhor, fazes tanta falta… Outras, felizmente, já vou conseguindo viver sem ti, apesar da dor que me causa pensar nisso e na celeridade com que tivemos que voltar a falar, a andar, a ir para a escola, a viver efetivamente sem ti.
Quando faleceste achei que o Mundo tinha acabado, e não conseguia ver qualquer saída para tudo isto, mas agora sei, e em muito se deve à mulher fantástica que cá deixaste para nos criar, que temos que continuar, que temos que seguir em frente… Tal como a mãe diz, temos que fazer tudo aquilo que sabemos que tu gostarias, tudo aquilo que tivermos a certeza que te vai orgulhar, mesmo que não seja o mais fácil para nós.
Amamos-te muito, pai. A tua partida fez-nos crescer imenso, mais do que todas nós queríamos crescer. Eu, para ser sincera, ainda não acredito que morreste. Estou sempre a pensar que se enganaram a identificar o teu corpo, e que daqui a uns tempos regressarás vivo, com aquele sorriso tão só teu, e que dará em todos os noticiários o erro da polícia, e do médico, e o milagre que foi tu estares bem… Como me parece estúpido quando o escrevo mas tão bom e plausível quando o penso antes de adormecer. Tu não vais voltar, pois não?
Merda. Eu sei que não gostavas que dissesse asneiras, mas neste momento só me apetece gritar: merda, merda, merda. Temos tantas saudades tuas. Fazes tanta falta… A vida sem ti perdeu tanta cor, tanta coisa. Não estava preparada para te dizer adeus com dezasseis anos. Aliás, não estava preparada para te dizer adeus nunca. Tínhamos uma relação tão especial, lembras-te? Amava-te e ainda te amo de todo o coração. Meu melhor amigo, meu mais que tudo, meu pai. Não percebo por que razão Deus te tinha que levar agora, e não imaginas como é para mim confuso visitar-te todas as semanas no cemitério e falar contigo a olhar para terra, e ver bichinhos, e formigas a passarem por entre os ramos de flores e a tua fotografia mal tratada pela chuva. Porquê a nós?!
Tenho que te pedir desculpa mais uma vez por todo o sofrimento que te causei enquanto eras vivo: por todas as vezes em que me portei mal, por todas as vezes em que não correspondi às expetativas altíssimas que tinhas para mim… Se soubesse que ias embora tão cedo, tinha mostrado tão mais o amor que sempre nutri por ti. E a admiração… E tudo. Tinha e tenho tanto orgulho em ti, pai. Sempre disse a todos os meus amigos que te amava muito, e que eras o melhor treinador do Mundo, e o melhor pai também. Ver que as pessoas te amavam tanto, e que também elas choraram a tua morte, só me faz ter a certeza de que tinha motivos para me gabar de ti.
A nossa vida mudou muito. Sei que nos estás a ver, mas quero contar-te uma coisa: a Carolina e eu tivemos muito boas notas na escola, melhores que no segundo período, até! E a Carolina já consegue tocar algumas músicas na guitarra que lhe ofereceram no Natal, e eu estou a escrever outro livro, pai.
A mãe agora vai andar a pé às vezes. Lembras-te como a tentavas convencer a sair do sofá e a fazer desporto? Agora a mãe faz!
Fomos passar uns dias a Sesimbra, a um hotel que a mãe encontrou na net, e a mãe deixou-nos estar os três dias inteiros na piscina, mas claro que não entrou, também não exageremos! Agora estamos no Algarve ainda, e vamos cá passar o teu dia de anos, por isso quem te leva esta carta é um amigo de confiança… Tenho muita pena de não estar aí. Tinha pensado que poderia ficar à sombra a ler para ti ou simplesmente a contar-te as novidades, mas só vamos embora amanhã.
Desde que morreste que me tornei uma menina muito triste. Às vezes choro muito alto, mas a maioria delas choro para dentro, faço-me de forte porque não gosto que os outros vejam as minhas fraquezas, sempre fui assim, tu sabes. Sinto um vazio enorme no coração, como se uma parte de mim tivesse também ela falecido e partido contigo. E sabes o que é o pior? É que sempre que me lembro de ti lembro-me do quanto tinhas sonhos para nós, e do quanto nos prometeste que íamos fazer tantas coisas que a vida não deixou. O Quintal da Carolina, o meu segundo livro… Precisamos tanto de ti.
Antes de partires disseste que não sabias o que ia ser das tuas filhas, contou-nos uma senhora que ouviu as tuas últimas palavras. Obrigada pai, obrigada. É tão bom no meio de tudo isto saber que não te esqueceste de nós. Estamos vivas, pai, e não te preocupes agora, descansa em paz, que estamos bem. A viver para ti, e por ti, para te orgulhar.
Protege-me sempre, pai, mesmo quando os anos passarem. Nunca te esqueças do quanto te amo e da quantidade de vezes que olho para o céu sempre que saio de casa à noite e o afinco com que procuro a maior estrela. Onde quer que estejas, espero que estejas a ler esta carta e a lembrar-te das coisas boas que eu e a mana e a mãe te demos, e das férias, e das prendas, e das brincadeiras.
Este ano eu e a Carolina não te vamos fazer nenhum teatro, nem uma dança ou uma música como era habitual, mas vamos tentar estar bem, porque a mãe disse que essa era a melhor prenda que te podíamos dar neste dia tão especial. Sei que já não estavas há muitos anos com os teus pais no teu aniversário, e que isso também te magoava muito, por isso olha, pai, aproveita. Dá um beijinho muito grande aos avós, e a todos aqueles que partiram e que eram teus amigos ou da nossa família. Não sei como é aí no Céu, e se vais celebrar o teu aniversário, mas nós aqui vamos.
Muitos parabéns, papá. Amo-te muito, nunca te vamos esquecer, nem vamos esquecer este dia que sempre foi tão bom. Um beijinho do tamanho do Mundo e obrigada pelos melhores anos da minha vida. Vou continuar a escrever-te e a pôr coisas no blog como sempre mandaste. Amamos-te muito! Foste um ser humano incrível, como poucos existiram. Aquilo que nos deixaste a nível material em nada se compara ao tesouro que escondeste em cada um dos nossos corações e que jamais poderemos agradecer. Espero continuar a orgulhar-te e a ser motivo daquele teu olhar emocionado que via sempre que fazia alguma coisa bem, por mais pequena que fosse. Por detrás da tua voz, voz que nunca esquecerei, que tantos diziam ser assustadora de tão grossa, estava e sempre estará um homem com o maior H do Mundo, porque nunca conheci ninguém com um coração tão puro, tão fácil de perdoar. 
Dizem que Deus leva primeiro os melhores para junto de si. Tenho a certeza de que te escolheu porque também ele reconheceu como eras bom. Para nós foi injusto, e dói muito, mas se calhar aí é um lugar tão bom, tão calmo. Descansa em paz, pai. Descansa em paz porque se há alguém que merece tranquilidade e sossego esse alguém és tu, que tanto em vida fizeste pelos outros.
O Kiko ainda é vivo, e desde que partiste sempre que alguém se aproxima de nossa casa não pára de ladrar como se fosse um cão enorme. Ensinaste-o bem. Obrigada por tudo, tem um dia muito feliz, meu querido pai.
O amor que sinto por ti é inexplicável e nunca desaparecerá. Por mais anos que passem nunca, mas mesmo nunca, duvides disso. Serei sempre a tua menina.
16-08-2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

"Se tivermos de acreditar no regresso, acreditemos."

Por mais que mudemos, há coisas que nunca devemos deixar que morram em nós, que se alterem. Afinal, se não nos mantivermos vivos, alguém o fará por nós? Temos de ter força, temos de ser fortes nos momentos em que acreditamos que toda a nossa garra se dissipou, naqueles momentos em que todas as nossas fraquezas aparecem para nos dizer o olá mais sofrido que conseguimos sentir. Ter ambição nas alturas em que parece impossível chegar a lado algum. Ser crente em alguma coisa, ser crente em alguma coisa depois disto. Depois de tudo isto... Não podemos perder-nos. A vida, em si própria, é já uma perdição, mas cabe-nos a nós escolher o nosso caminho. E as nossas ações tem repercussões tão grandes no nosso futuro! Não podemos deixar que a vida passe por nós. Temos de a viver intensamente, como quem acredita que a lua pode iluminar o dia e o sol aquecer a noite. Sonhar. Sonhar, porque o sonho comanda a vida. Ter esperança. Fé. A fé que nos falta a tantos de nós e que só nos momentos bons parece pertencer-nos. Sei lá... Não podemos deixar que aquilo que temos dentro de nós se extinga assim, sem luta, sem que tentemos levantar-nos outra vez. E quantas vezes forem necessárias até ficarmos de pé. Temos de ser nós a levantarmo-nos de manhã. Temos de ser nós a empenharmo-nos naquilo que queremos. Por mais que nos ajudem, temos de ser os nossos maiores amigos. Se não virmos em nós futuro, evolução, amor... Como poderemos ver à nossa volta? Como poderemos acreditar que virão dias melhores e que nada acabou, se deixamos que dentro de nós a vida seja vista de forma tão passiva, tão sozinha, tão só nossa? Viver implica lutar. É premente lutarmos por nós próprios. Mesmo quando uma parte de nós morreu, mesmo quando sentimos um bocadinho daquilo que somos a abandonar-nos. Não podemos sentir que esse abandono tenha sido um verdadeiro adeus para sempre. Se nos tivermos de alimentar com recordações, alimentar-nos-emos. Se tivermos de acreditar no regresso, acreditemos. Não podemos ter pena de nós próprios, não podemos acreditar que, caso demos só mais um passo, a queda num abismo sem fim é irreversível... Vamos ter tantos passos para dar, tantos caminhos para percorrer. E sempre que estiverem quase para desistir, sempre que acharem que estão quase no fim pensem em tudo aquilo que ainda poderão caminhar. E como tantas vezes o caminho é mais importante que a chegada. E como tantas vezes ainda há, principalmente quando não acreditamos, algo em nós que quer sair cá para fora, e que é feliz, e que ama, e que acredita que a vida é para ser vivida. Deixem de viver a vida com medo que ela não sorria para vós, que ela não seja justa. Ela nunca será totalmente justa... A justiça é tão relativa. Como podermos nós desistir sabendo que nem todos tiveram a oportunidade de escolher? Não há um passo que nos deixe cair no fim... Há uma caminhada que nos pode levar a um novo começo: cada um tem de encontrar, dentro de si, a parte mais viva e, mais importante que tudo, que mais quer viver... E deixá-la, porque a vida é para quem a VIVE.




segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Adormece-me hoje."

Olho para o céu e procuro uma estrela que brilhe mais do que qualquer outra. Procuro com tanta força que acabo mesmo por te ver, lá longe, mas tão perto, a brilhar para mim, a dizeres-me que estás aqui. Eu não me esqueci de ti, e não te preocupes, não me esqueço de que aqui estás! Preenches-me tanto, como poderia não te sentir comigo? Não me digam que é ilusão, porque eu sei que não é: podem ser só as lágrimas que me fazem ver-te, mas eu vejo-te. E por mais que tentem dizer-me que partiste, para mim tu continuas aqui, e mais junto a mim que nunca. Antes não falávamos a toda a hora, agora falamos. Oiço-te a sussurrar ao meu ouvido sempre que tenho uma dúvida, vejo-te a empurrares-me quando quero voltar para trás. Sinto o coração mais cheio que nunca, quase que consigo sentir a tua barba junto à minha testa, a dar-me um beijinho de boas noites. Porque dizem que partiste se continuas aqui? Porque é que te visitamos no cemitério e olhamos para a terra, se continuas aqui? Desenganem-se! Ele continua aqui! Ele nunca se foi embora. E quem acha que ele partiu é porque nunca o amou como eu o amei. Eu sei que ele não foi embora. Ele não se despediu, e eu sei que ele jamais se iria embora sem dizer adeus, sem me pedir que me portasse bem. Quando olho à minha volta vejo-te em todo o lado. Quando olho para dentro de mim, sinto-te também aí. Não quero que digam que partiste. Sinto-me mais perto de ti quando olho para a tua campa, porque acredito que essa agora é a tua nova casa e que, por um motivo que não quero aceitar, foste obrigado a mudares-te para aí. Vamos fazer-te uma campa muito bonita, todas nós pensamos muito nisso, e em como a tua nova casa será o teu rosto, e não só mais uma casa igual a tantas outras que lá vemos. Nunca me esquecerei de como gostavas de receber os nossos amigos com a casa arrumada. A tua campa está sempre limpa, tu sabes! E escolhemos flores lindas, para que, mesmo um bocadinho longe de mim, te sinta a abraçares-me. Não te vás embora! Não deixes que qualquer abraço, ou qualquer beijo do Mundo, te faça pensar que não preciso do teu, porque preciso. Todos os dias são uma luta, e se existem dias em que estamos melhor, em que sorrimos, é porque, mágico como sempre foste, me conseguiste desenhar um sorriso na cara. Obrigada por sempre me teres feito acreditar que nunca nos ias abandonar, obrigada por sempre me teres dito que me amavas mais que tudo e que me ias proteger de tudo aquilo que me poderia vir a acontecer. Formaste uma imagem tão bonita de ti próprio no meu coração que jamais a poderei esquecer. Brilhas tanto, pai. Tanto, tanto, tanto! Sei que lês tudo o que escrevo. Espero que também disto gostes e que, também aí, te orgulhes do amor infinito que sempre senti por ti. Apesar de saber que não te foste embora, tenho saudades tuas. Amo-te, amo-te, amo-te! Adormece-me hoje, por favor. Lindo.




 





terça-feira, 13 de maio de 2014

"Vigia-me (...) mesmo quando achares que não preciso de ti."

Pai,
Escrevo-te para te dar os parabéns. Os parabéns por teres escolhido a mulher certa, a mãe certa para nós. Se estivesses aqui nem ias acreditar... Quer dizer, talvez fosses acreditar, afinal, conhece-la há mais anos que nós. A mãe está a ser tão forte, tão boa para nós. Tem sido o nosso grande apoio, a nossa principal fonte de força, de esperança e a pessoa que mais está, não a tentar substituir-te, mas sim a fazer de tudo para que sintamos a tua falta de uma forma boa, e não revoltada e triste como tenho sentido. A mãe também tem muitas saudades tuas, e anda muito triste, mas quando está connosco tenta não nos mostrar, porque sabe que, se agora se for abaixo, leva-nos com ela. Tenho tanto orgulho na mamã. Tu também tinhas, que eu sei. Lembro-me como se tivesse sido ontem o quanto a elogiavas, o quanto a amavas. Sempre pensara na vossa relação como um modelo, na nossa família como um exemplo, onde o amor estava sempre presente. Obrigada por a teres amado. Obrigada por ter sido com ela que nos tiveste, que nos deixaste.
Sabes... Ainda não acredito que partiste. Todos os dias me deito com a mana, e com a mãe, e peço, naquele meio segundo que espero fazer um dia a diferença, que voltes. A mãe vai ser sempre a mãe, e a nossa está a ser fantástica. Mas tu, papá... Tu também fazes falta. Não temos um homem em casa, não temos a tua proteção, a tua voz, a tua presença. Regressa. Preenche-nos o coração e faz com que esta revolta toda que sinto vá embora. Faz com que consiga chorar quando preciso e não só quando escrevo. Tenho tanta coisa aqui dentro. E a mãe... Ela também precisa de ti. Ama-te muito! Sempre te amou! E nunca, mas mesmo nunca, te vai esquecer. Eu sei que tinham planos para o resto das vossas vidas. Eu sei do quanto, para vós, o amor que sentem é eterno. Eu sei que, um dia, os vão concretizar.
Às vezes gostava de ser mais forte, de abraçar com mais força a mãe, de a fazer sorrir como só tu sabias. Ela e a mana são as pessoas que mais amo no Mundo. Precisamos tanto de ti. Onde quer que estejas, não nos deixes. Amo-te muito! Tal como a Carolina, a mãe. Somos as três mulheres da tua vida. Até a mais pequenina já está a crescer.
Um enorme beijinho. Vigia-me todos os dias, mesmo quando achares que não preciso de ti. Eu preciso.





segunda-feira, 28 de abril de 2014

A vida fugiu de ti.

A nossa vida não tem sido fácil: cada uma de nós precisa das outras mais do que qualquer coisa no mundo e, ao mesmo tempo, afastamo-nos quando nos sentimos mais em baixo, na esperança infundada de não mostrarmos as nossas fraquezas. Às vezes parece que estamos a viver um sonho, involuntário, ridiculamente real. Às vezes, quando acordo, esqueço-me de que somos só nós e, só quando te procuro me apercebo de que não estás. Têm sido dias complicados, onde a melancolia, o desespero e a saudade se misturam e fazem com que me sinta permanentemente fora de mim, como que alguém que observa tudo, de longe, com uns binóculos tão bons que conseguem mostrar a quem os usa os sentimentos daqueles que praticam a ação. Tem sido angustiante, diria impossível de viver. A tua ausência, a tua presença. Procuro-te constantemente em mim e é rara a vez que te encontro... Sei que estás vivo, e eu sinto que estás aqui, na nossa casa, a ver-nos a tentar sobreviver, a ver-nos a tentar fazer aquilo que tu querias, aquilo que tu gostavas. Eu sei. Eu sei. Mas a verdade, a verdade... A verdade é que não te consigo encontrar no meu coração. Quando penso em ti... tu não imaginas o quanto ele abranda. As lágrimas apoderam-se de mim e aquela dor no peito que tanto tento aguentar alastra-se e faz com que pensar em ti seja como olhar para um buraco sem fundo, onde, por mais que tento, nunca acho o teu rosto lindo, que sempre fez de mim tão feliz, tão esperançosa. Dizem que és uma estrela no Céu, que olhas por mim, que me amas mesmo estando longe. Ai... Como quero acreditar nisso. Como quero sentir o teu abraço, como quero ouvir a tua voz. Sonho tanto contigo. Desejo tanto reaver-te. Temos tanta coisa para fazer, tantos sonhos para partilhar. Se és uma estrela porque não brilhas quando me encontro na escuridão? Onde estás quando preciso da tua voz? Porque não te sentas quando meto o teu prato para jantar? Porque não respondes quando falo contigo? Ensinaste-me tanta coisa sobre a vida, tanta coisa sobre os outros. Deixaste tanto ainda por dizer... Porque não me sussurras ao ouvido quando estou a adormecer? Porque não me beijas a testa quando preciso de carinho? Não me deixes! Não me deixes desistir! Não me deixes, pai. Preciso tanto de te encontrar. Preciso tanto que me ames, que cuides de mim. Até quando te vais esconder? Quero encontrar-te no meu coração, quero sentar-me ao teu colo e ouvir que está tudo bem, que estás aqui.
Porque é que a vida nos fez isto? Porque é que a vida fugiu de ti?




quarta-feira, 16 de abril de 2014

460 letras

Nunca deixes de acreditar. Nunca te conformes com aquilo que já és, com aquilo que já fizeste. Ambiciona, expande-te. Sê perfeito em tudo o que fazes, mesmo nas mais pequenas coisas cujas imperfeições pouco ou nada as mudariam. Ama intensamente. Ama de forma a que quem esteja à tua volta sinta que proteges quem amas e que és forte. O amor faz-nos fortes. Sonha. Sonha o mais alto que conseguires... Sonha de olhos abertos, para que possas ir escrevendo todas as tuas ideias. Sonha em ser diferente, sonha em melhorar-te. Não te restrinjas a ti: faz mais, faz maior, faz melhor. Tens que querer mudar. E mudar o que está à tua volta, sempre numa perspetiva evolutiva, rumo ao sucesso. Come, e come tudo aquilo de que gostas: nas proporções certas, sem exageros. Faz desporto. Cuida de ti. Não te cinjas pelos estereótipos que a sociedade tenta impingir-nos e onde cada um de nós é classificado, é rotulado. Não. Tu podes e deves ser único. Não invejes quem tem mais que tu, quem parece não merecer algo que já possui. Não te questiones sobre aquilo cujas respostas jamais irás alcançar. Luta pela liberdade. Pela tua e pela dos que te rodeiam. Nunca te esqueças de que a nossa liberdade não passa por fazermos tudo aquilo que queremos, mas, sim, tudo aquilo que precisamos de fazer para nos sentirmos bem, sem magoarmos os outros. Sê respeitador. Mesmo, e principalmente, quando não te respeitam: se fizeres o mesmo, se magoares quando te magoam, não és diferente, não és melhor. Não obstante, não tentes ser melhor que ninguém. Ultrapassa-te a ti próprio. Sem grandes pressas, sem aquela vontade louca e desmedida de ser alto, de ser maior. Não faças birras. Não percas tempo com aquelas discussões onde tu sabes que tudo vai ficar bem. Lembra-te de que não é para sempre. Um dia de cada vez. Sim, um dia de cada vez. Não faças da tua vida um livro folheado em dois minutos, em que não sabes o que aconteceu, mas, onde, podes dizer que viste todas as páginas. Não. Faz da tua vida uma moldura infindável, onde há sempre espaço para mais uma fotografia: guarda todos os momentos que conseguires contigo. Os maus, para que aprendas ou simplesmente para que dês valor aos bons. Estes últimos, para que, independentemente do rumo que tomes, saibas, e possas ver, que, outrora, foste tu. Foste desequilibrado, foste um falhado, tiveste sucesso, foste mau, ajudaste, perdeste ou até talvez tenhas sido só mais um. Não importa. Não te esqueças nunca, mas mesmo nunca, das tuas origens, da relva que pisaste, da chuva que te molhou, dos lábios que te aqueceram. Não te esqueças de ti. Nunca. E cuida-te, mima-te, protege-te, ama-te. És a coisa mais preciosa do mundo.



terça-feira, 15 de abril de 2014

Papá

Papá,
Não sei como começar esta carta. Foste embora sem avisar. Não podias ter dito adeus, não podias ter dito que não voltavas? Nem me despedi de ti. Nem te disse o quanto te amo, nem te desejei boa viagem. Amo-te tanto, papá. Quando soube que foste para o Céu não acreditei. Ainda hoje não acredito. Acho que vais voltar. Quando fecho os olhos com muita força vejo-te ao meu lado. E gosto tanto de te ver. Tenho medo de me esquecer das tuas feições, de perder o teu cheiro no meio de todos os outros cheiros que sinto. Nunca desapareças de mim, está bem? Promete. Temos tantas saudades tuas. E eu... Tenho saudades de tudo, até das coisas que nunca achei importante. Lembro-me tão bem de ti. Dos teus olhos. Da tua barba. De como amo as tuas festinhas nas noites de pesadelos, de como me apoiaste. Nunca desistias de mim, nem mesmo quando íamos correr e eu pedia por tudo para voltar para casa, porque não aguentava mais. Tu não deixavas. Dizias que eu conseguia, e empurravas-me se fosse preciso só para fazermos o trajeto que tinhas pensado. E na escrita... Foste tu que me ajudaste a escrever, a saber o que dizer. Todos os dias vinhas ao meu blog e, quando não tinha escrito nada novo, pedias-me que escrevesse. Tinhas tanto orgulho em mim. Às vezes até me sentia envergonhada quando dizias à minha frente a toda gente que eu tinha um livro e que "escrevia muito bem". Sempre me protegeste tanto... Fazias-me tudo... Amavas-me tanto. E à mana e à mamã. Éramos uma família tão feliz. Mesmo quando estavas triste. Mesmo quando parecia que nada te poderia ajudar. Eu dava-te beijinhos, muitos beijinhos, e a mamã também, tantos que nos afastavas em tom de brincadeira, e a mana, que adorava jogar ténis contigo e ajudar-te na agricultura. Todas nós te admiramos muito, papá. Admiramos-te mais que tudo. És o Homem das nossas vidas. Sempre foste. Fazias sempre os lanches para levarmos para a escola e mandavas-me mensagens a dar os parabéns pelas minhas notas. Ias-me buscar sempre que te pedia. Cantavas comigo no carro. Dançavas para nos entreter. E como dançavas bem. Concretizaste o meu sonho. Fizeste da mãe a mais feliz do mundo. Cuidaste de nós como se fossemos princesas e deixaste-nos, agora, desamparadas. Foste ter com os teus pais. Também eles amavas tanto. Como nos fazes falta. A mamã não tem muito jeito para a cozinha, tu sabes. Eu não sei fazer nada cá em casa, tu sabes. A mana só quer tocar guitarra e jogar playstachion. No fundo, cada uma de nós precisa de ti. Dá-nos sinais todos os dias da tua presença. Enche os nossos corações. Dá-nos esperança. Faz com que voltemos a sorrir. Faz com que eu consiga escrever, a mamã dar aulas e a mana ser boa aluna, todas sermos felizes. Vamos sempre pensar em ti. Cada uma de nós, à sua forma, lembra-se de ti. A mana diz que foste fazer uma viagem. Prometo que eu e ela vamos ser amigas. Desculpa. E desculpa todas as vezes em que fui má. Ou em que fui sair em vez de ficar no sofá com vocês. Prometo que vou portar-me bem. Que não vou beber, que não vou fumar. Que vou ajudar a mãe nas coisas cá de casa e que vou ser amiga da mana. Que vou pensar em ti sempre e que no teu dia de anos vou cantar-te os parabéns. Prometo que não vou deixar que ninguém faça mal à mana e que vou continuar a escrever. E depois, quando acabar de fazer um texto ou um livro, prometo, papá, que vou ao cemitério, e, junto à tua campa, lerei o que fiz para ti, baixinho, para que só tu oiças.
Descansa em paz, papá. Dá muitos beijinhos aos avós. Dá força à mamã para que ela possa ficar connosco para sempre. Mostra-me o caminho certo quando estiver indecisa. Ama-nos muito, mesmo quando passar muito tempo. Papá... Até já. Amo-te.



terça-feira, 25 de março de 2014

"(...) ouvindo-o apenas, sorrindo-lhe apenas, vivendo... apenas."

Lá longe, na igreja, tocavam os sinos indicando que eram seis da tarde. Eu olhava para o relógio em jeito de confirmação e observava o movimento do ponteiro dos segundos, na esperança de que este congelasse no tempo e que eu pudesse distanciar-me de tudo aquilo que a vida é. Às vezes penso: porque passa tudo tão rápido? Porque é que a vida é um ápice, um abrir e fechar de olhos, uma rajada de vento que nos arrefece? Não queria que o tempo fosse tão rápido, não naquele dia.
O relógio. Como estava concentrada no relógio e via o tempo a passar. Sentada naquele banco ferrugento da estação de comboios sentia a solidão de todos concentrada em mim. Olhava em meu redor e as poucas pessoas que ainda ali se encontravam pareciam procurar algo incalculável. Ninguém sorria, ninguém aguardava junto a mim. "Os comboios costumam ser pontuais.", dizia um homem ao telefone, preparando a família para o facto de ir chegar a horas. Do outro lado, não muito distante de mim, uma senhora mais idosa tentava, a todo o custo, perceber o que dizia o quadro dos atrasos dos comboios e, mesmo depois de lhe perguntar se queria que lhe lesse o que lá estava escrito, e de o ter efetivamente feito, esta continuava a tentar, por si mesma, descodificar as letras que passavam. Quase no banco à minha frente, um casal apaixonado beijava-se com sede de carinho. Riam-se alto, abraçavam-se tentando aquecer-se mutuamente. Estava frio.... Todos tinham algo para fazer, algo para dizer. Não teremos sempre? A estação só nos tinha a nós.
Já antiga, já usada, parecia conter nas suas paredes a história de vidas. De vidas que haviam por lá passado, que haviam lá esperado. Azulejos azuis, pormenores em branco. Em sujo. O tempo continua a passar. O comboio não chegava. A música.
Ouvia-se uma música. Uma pequena melodia, uma voz de cortar a respiração, daquelas que apenas ouvimos uma vez e nunca mais. Um encanto de uma sereia que puxa os pescadores para alto mar, um chamamento divino. Uma voz. Quanto mais atenção lhe dava, melhor a entendia. E via. Era um rapaz, talvez da minha idade, que, por, ao contrário de todos os outros, não dar nas vistas, não havia ainda sido narrado. Cantava sentado no chão da estação. Melodia que aquecia o coração e que pedia que fosse ouvida. Vezes e vezes sem conta. Queria ouvir mais de perto, queria dizer que gostava da sua voz. Reparei que ninguém o fazia. O comboio, segundo informações, estaria a chegar. Não havia tempo para o parabenizar. Tinha muitas malas comigo, o bilhete tinha voado e poisado na linha. Apenas uns segundos me restava. O bilhete. O rapaz e a sua voz. A minha écharpe que voava ao sabor das indecisões, dos medos, do inconveniente que é o atraso, a vida. Sabia que era agora ou nunca. Assim que entrasse no comboio poderia nunca mais o ver, poderia nunca mais lhe dizer. E ele merecia. A sua voz, a sua delicadeza. Aquela voz precisava de força, precisava de apoio. O chão era um injusto palco para ele. Eu tinha que o dizer.
A écharpe ficara caída no chão da estação. O bilhete fora pisado pelo comboio. E eu ficaria ali, junto ao rapaz, ouvindo-o apenas, sorrindo-lhe apenas, vivendo... apenas.
Porque nem sempre temos que chegar a horas. Viver é ter imprevistos, é ter surpresas, é ter enganos. É não ir caso existam motivos para ficar, mesmo que tenhamos comprado bilhete.

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sexta-feira, 7 de março de 2014

"Amar-te como quem ama..."

Amar-te. Amar-te todos os dias. E amar-te todos os dias um bocadinho mais. Amar-te ao abrir os olhos, amar-te ao adormecer. Amar-te quando estás presente, amar quando te ausentas. Amar-te em público e amar-te em privado. Numa multidão ou na solidão do quarto. Amar-te como és, como és fantástico e diferente. Amar-te quando queres e não deixar de te amar quando não me queres. Amar-te com todos os teus defeitos, amá-los a cada um deles e compreendê-los. Superar os teus medos e os meus, e amar cada pequeno passo que damos em prol desta superação. Amar-te de dia e de noite, quer faça chuva ou sol. Amar-te quando estás triste. Amar-te quando julgas que mais ninguém te ama, quando vês o mundo como um papão que te quer mal. Mostrar-te que estás errado, aconselhar-te. Dar-te tudo o que tenho, mostrar-te tudo o que sei. Desejar para ti aquilo que para mim ambiciono, e ajudar-te. Ajudar-te a seres tudo aquilo que perspetivas, amar-te nessa luta que é a vida. Amar-te...



Amar-te quando as coisas correm mal, amar-te quando tudo parece cair sobre nós. Amar-te de uma forma protetora, de uma forma maternal. Amar-te como quem ama um irmão, um pai. Amar-te assim... Querer que estejas comigo hoje, amanhã e para sempre. Para um sempre que não acaba, para um sempre que não arreda pé a nenhuma dificuldade, que não se importa de te amar à distância, que não é orgulhoso, que não te maltrata. Amar-te como quem ama um pequeno pássaro. Deixar-te voar. Acreditar que, depois de tudo o que passámos, mesmo que vás embora, voltarás. Amar-te como quem ama as ondas do mar. Querer ter-te em mim, comigo, mas não te agarrar. Deixar que venhas e vás, que sejas livre e ao mesmo tempo que estejas preso a mim... Preso por atitudes, preso por amor. Que saibas que te amo mais que tudo num mundo onde há tanto para amar e tão poucas pessoas que amam. Num mundo onde sempre haverá um lugar para ti, para nós. Amar-te como amo o pôr-do-sol. Esperar que apareças e, quando te posso ver, sorrir como quem vê algo singular, algo único. Como tu.
Amar-te na plenitude. Amar-te pela plenitude. Nada de nós excluir, nada de nós guardar. Ser dois, num. Amar-te como quem sonha. E quando acordo, amar-te ainda mais.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A árvore que não plantei

Num dia como tantos outros decidi cumprir um daqueles que dizem ser os requisitos para uma vida concretizada e plantei uma pequena árvore, que, na altura, não passava disso mesmo: pequena. Quase invisível aos olhos dos distraídos, quase transparente aos olhos dos apressados, decidi plantá-la num sítio que pouco ou nada lhe daria de bom: não a plantei numa floresta, ou num jardim perto de mim, onde a pudesse regar com regularidade. Ao contrário disso, e desprezando os conselhos de todos aqueles que já o haviam feito, plantei-a perto de uma estrada, de uma estrada movimentada, poluída, normalmente cheia de pessoas e de histórias, e de ruído e de pressas, e, acima de tudo, plantei-a longe da minha casa. Deixei-a, literalmente, abandonada a si própria, encarregue de se regar, de se nutrir, de crescer. Fi-lo, não porque não gostava dela, mas sim porque a amava. E amava-a tanto que queria ter a certeza de que não era mais um daqueles amores, daqueles loucos e fogosos, que, por termos sempre connosco, acabamos por deixar de dar valor.
Os dias passaram-se. Sucederam-se com aquela lentidão, por vezes tão lenta que cansa, onde cada coisa que fazemos é mais uma coisa que fazemos. Sucederam-se, também, com uma rapidez inexplicável, como um relâmpago que, por mais que tentemos fotografar, nunca aparecerá no ecrã exatamente como o vimos. E a planta lá ficou... Foi preciso esquecer-me dela, para me lembrar que ela existia. Foi preciso recordá-la, para sentir que a queria. Foi, inclusive, preciso chorar a pensar que já alguém a poderia ter colhido, ou arrancado, ou que até o mau tempo a podia ter destruído, para me consciencializar do quanto a queria proteger, do quanto a queria resguardar de tudo aquilo que a pudesse matar.
Apercebi-me de que, por mais que a desejasse, e achasse que agora, agora sim, poderia tomar conta dela, agora que tinha percebido que havia tempo para a regar, para a fazer crescer, para lhe dar as minhas palavras, mesmo no meio de tanta coisa, de tantas pessoas... Poderia ser tarde. Poderia ser tarde para pegar nela, se é que ela ainda ali estava, à beira daquela estrada movimentada e cheia de gente, tantas vezes vazia, e levá-la para um canteiro, para junto do meu quarto, para dentro da minha vida. Eu sempre a tinha amado, sempre a tinha visto como "minha", como um projeto pessoal, intransmissível e especial. E, mesmo assim, deixei-a sozinha. Deixei-a no meio do tudo e do nada, e só lhe dei valor quando me dei conta de que a poderia perder, de que, aquela vez em que a visitei, e vi que de uma pequena árvore não passava, poderia ter sido a última. 
Ri-me. Sabia a sal. As lágrimas sabiam a sal. Sempre souberam a sal. E porque chorava e me ria ao mesmo tempo? Nenhum de vós adivinha? Voltei a cometer o mesmo erro. Voltei a valorizar quando perdi, a lembrar quando esqueci. Voltei a querer proteger, depois de magoar. E, por mais que volte àquela estrada, e que ao invés de uma pequena planta esteja uma grande árvore, enraizada, feliz, e cheia de cor, de ar, de paixões... Não é a minha árvore. Nada fiz para que ela fosse assim. E eu queria. Queria tê-la ajudado, porque eu sabia que ela queria a minha ajuda. Afinal, fui eu que a havia plantado.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

"(...) Que aconchega o coração e a alma (...)"

Eu sabia que um dia as coisas iam voltar a ser o que eram. Sabia que, no lugar das lágrimas, ao invés da tristeza, estariam, de novo, dois sorrisos, duas solidões a protegerem-se uma à outra. Sabia que íamos pedir desculpa, e estar mesmo arrependidos, e sabia que isso não tardaria a acontecer, porque quando se gosta de alguém, cada dia longe dessa pessoa torna-se mais doloroso do que qualquer outro. Sabia que isso não tardaria a acontecer porque a tua ausência provocava em mim um vazio parecido à morte, e eu não queria morrer. Tinha noção de tudo isto. De que bastava umas palavras, uns gestos. Bastava ser sincera, deixar-me "cair", para que visses que contigo sinto-me erguida, mais forte. Às vezes, agora que penso, nem pedias nada de tão especial, que fosse motivo para tanta hesitação... Tenho pena que a vida não nos permita fazer uma pausa, como que um stop para que, estando o Mundo parado, possamos ver o que está realmente a acontecer à nossa volta e tomar, provavelmente, decisões mais acertadas. Tenho pena, também, que tenha sido necessário estarmos afastados tanto tempo para percebermos que só somos felizes juntos. Mas que alegria é, por outro lado, ter percebido isso! Ser um só com alguém, não fisicamente, mas espiritualmente, é, sem dúvida, um desafio que quando superado nos faz refletir sobre o facto de, toda a felicidade que havíamos sentido antes, não ter passado de uma meras alegrias... Porque agora, agora sendo um só, agora partilhando tudo, e estando juntos com alguém na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, agora sim é ser-se feliz. Não digo, até porque não acho, que seja impossível ser-se igualmente concretizado sem ninguém que nos acarinhe, que nos dê aquilo que em nós próprios tantas vezes não encontramos. Mas é diferente... É como que pedir a um barco que pare não sei onde, e espere não sei o quê, de talvez um não sei quem. Quando se ama, e quando o outro nos ama, daquela forma que nos aconchega o coração e a alma, como quem aperta sem apertar, quando se está assim... Quando se está assim tudo vale a pena! A vida vale a pena!
Amar é também saber pedir desculpa, e pedir que volte. Que volte, e que volte sem rancores, sem dores, sem fantasmas. Que volte e que tentemos de novo. Tentemos tantas vezes quantas as que acharmos conseguir suportar o falhanço que, inevitavelmente, poderá acabar por ser. Que tentemos, porque estamos juntos. E tentar estar com quem amamos não é, nem nunca será, uma loucura, um ato reprovável. Se for, que seja: sou louca, erro a toda hora. Mas sou feliz, e nem a loucura, nem a insanidade me farão deixar de acreditar que o que faço é viver.




domingo, 29 de dezembro de 2013

"Vivam porque esta é a vossa oportunidade..."

Já pensaste como seria se tivesses uma bomba-relógio dentro de ti? Se soubesses que apenas tinhas três dias, três dias para ser feliz, três dias para marcar a diferença, três dias que definir-te-iam para o resto da vida na memória de todas as outras pessoas? Que farias? Que loucuras cometerias? Deixar-te-ias ficar em casa, a chorar, a pedir para que os três dias que te restavam se prolongassem ou irias para a rua e fazias tudo aquilo porque sempre ansiaste mas pelo qual nunca lutaste por medo? Se soubesses que tinhas unicamente três dias para viver... Vivias?
O medo domina-nos. A vergonha domina-nos. Falta-nos atitude, falta-nos coragem. De nos distinguirmos, de mostrarmos o que somos. Falta-nos sensibilidade e falta-nos um bocadinho até de discernimento, que tantas vezes nos leva a tomar decisões erradas. Devíamos planear menos, ser mais espontâneos. Falo por mim, que sempre planeio tudo, que traço objetivos, que quero cumprir metas. Onde penso que posso chegar? Até onde acredito ter tempo para concretizar todos os meus sonhos? Devíamos deixar de fazer planos a longo prazo, promessas para amanhã. Nós não temos certezas de que haja um amanhã, e porquê esperar pelo dia seguinte se temos o de hoje? Não vos digo para serem inconsequentes, para ultrapassarem limites, para serem irresponsáveis pensando apenas no agora. Sugiro-vos que pensem no hoje, que aproveitem o hoje, que vivam para o hoje. Que amem loucamente, porque uma vida sem amor, é vivida de forma egoísta. Não têm que beijar, não têm que fazer juras que, decerto, nunca cumpririam se não soubessem quanto tempo vos restava, basta serem amigos. Basta desfrutarem dos pequenos momentos da vida e torná-los os maiores que a vossa alma consiga carregar. Basta serem livres e terem o espírito livre, a alma livre, o corpo livre. O corpo livre para irem e voltarem quando quiserem, para viajarem, porque viajar dá-nos vida, faz-nos conhecer vidas e, viver sem conhecer, sem visitar, sem tentar perceber, é uma vida desligada, tão desligada que nem parece ser vida. O espírito livre para se poderem emocionar, para poderem gritar, para poderem ser vós mesmos. Ninguém é perfeito e, pior que isso, nenhum de nós luta verdadeiramente pela perfeição. Fazemos e somos aquilo por que lutamos, conseguimos aquilo por que lutamos, temos o que temos porque assim o merecemos. A vida, tal como já disse imensas vezes, é uma luta incessante. Se é justa? Muitas das vezes, não. A bomba-relógio que está dentro de nós é má, é furiosa, é impaciente. Às vezes só pedíamos mais um dia, mais uma oportunidade e ela "zás", acaba connosco! Leva-nos para um lugar que nenhum de nós conhece, sobre o qual nenhum de nós pode fazer mais que breves suposições e deixa cá o nosso corpo, para que este seja chorado, seja abraçado, por vezes até interrogado. E, enquanto o nosso espírito está longe, há quem fique e "desperdice" os seus dias a chorar por nós, a pedir por nós. Esquecem-se de que também chegará a vez deles, que, um a um, todos nós encontrar-nos-emos e que aí sim, não há tempo para desperdiçar, não há tempo para aproveitar.
Vivam! Vivam mesmo quando as coisas correm mal, vivam mesmo quando perdem, quando se sentem tristes... Vivam porque esta é a vossa oportunidade, a vossa vez! Vivam sem pensar no próximo ano, no próximo século. Vivam a pensar a curto prazo, a concretizar a curto prazo! Não vos digo que deixem de ter expetativas, que vivam o dia de hoje com medo que seja o último, mas que tentem aproveitar todos os dias, porque um dia, é um dia... E como o de hoje, pode não haver mais.


 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

"Uma luta incessante, que não dá descanso..."

Todos os dias são uma luta. Uma luta incessante, que não dá descanso, que não perdoa, que não arreda pé, que não folga. Todos os dias são uma luta sem ti. Sem o teu apoio, sem o teu ombro, sem o teu modo de ser e de me deixar. Todos os dias são uma luta sem ti aqui. Sem a certeza de que se tudo correr mal tu animar-me-ás, sem a certeza de que se estiver sozinha, tu acompanhar-me-ás para onde quer que vá. Todos os dias são uma luta. Uma luta desesperante, ridícula, e ao mesmo tempo que enche, e que enche o estômago de tal forma que a comida não quer entrar, e que enche os olhos com tantas lágrimas, que, por mais que tente, escorrerão sempre, e enquanto quiserem, livremente por um rosto que necessita do teu carinho.
Todos os dias são uma luta. Uma luta na qual não queria entrar, mas uma luta que, ao mesmo tempo, jamais poderei abandonar. Todos os dias são uma luta horrível, destruidora e profundamente depressiva. São uma luta que enjoa, que magoa, que não era necessária. São uma luta que não pede equipas, que não pede lados. São uma luta que tenho que viver sozinha, que tenho que ganhar sem ninguém. São uma luta contra ser algum, e, ao mesmo tempo, contra todos os seres. Contra ti.
Estou cansada de lutar e consciente de que não posso parar de o fazer. As memórias assombram os meus dias e obrigam-me a não esquecer todo o brilho que outrora a minha vida teve, quando tu a abrilhantavas. Todos os dias são uma luta. Para mim, para muitos de nós. Vivermos sem as pessoas que amamos é, por si próprio, um desafio. Ser capaz de ser alguém num todo, sem os bocados que nos foram tirados, só prova o quanto estamos agarrados à vida. Não. Não a largaremos por nada deste mundo. Não me importo de lutar porque acredito que um dia deixará de ser uma luta. Nem tudo tem que ser mau. Nem tudo pode ser mau. A vida é fantástica.... Poder viver a vida é, por si só também, maravilhoso, lembrando-me da quantidade de pessoas que não têm agora essa possibilidade.
Todos os dias são uma luta. Talvez não uma luta que possa ganhar, mas uma luta em que, um empate, será suficiente. O importante é que nunca me esqueça de que a luta é por mim própria, pela minha vida, pelo brilho que quero que ela volte a ter. Pelo brilho que eu sei que tenho, mas que nunca o refleti, pois tu já o fazias melhor que ninguém. Não. Agora esta é a minha luta. E, independentemente do tempo que demore, eu vou lutar sempre com a mesma força, até ao dia que te amar deixe de me sangrar a alma e passe a ser apenas memória de uma luta senão vencida, quem sabe empatada.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Amar ou dizer amar...

No amor sempre me disseram que tínhamos duas opções. A primeira, mais trabalhosa e complicada, tinha que ver com o facto de, caso fosse mesmo amor, nunca desistirmos e lutarmos sempre, por mais que custasse e que parecesse impossível de resultar. A segunda, mais fácil, mais apetecível, mais rápida, era esquecer, ou dizer que se esquecera, pois o verdadeiro amor é inesquecível, e sempre o fora, e seguir em frente, andar literalmente para a frente, mesmo que o resto de nós ficasse para trás.
Diziam-me que no amor podíamos optar e que, caso escolhêssemos a primeira hipótese, teríamos que estar prontos para fracassar, para lutar em vão. Contavam-me histórias de pessoas que haviam lutado toda a sua vida pelo seu verdadeiro amor, por aquela pessoa que diziam ser tudo, que diziam dar-lhes tudo. Não morreram por amor, mas pela falta dele. Choraram tanto agarrados às memórias, e lembraram-se tanto delas, que se esqueceram de viver o presente, só porque quem queriam não estava junto delas, pronto a viver o mesmo tempo. Perderam-se tantas vezes que deixaram de se conseguir encontrar, e o amor apodreceu tanto que começou a tornar-se vago, vazio e doloroso. Doía muito na pele, no coração, nos pulmões. Custava tanto a respirar que apenas a noite silenciava as suas alturas mais ofegantes. O sono, muitas das vezes seguido de uma noite de recordações, era como que o descanso de uma vida, como que uma oportunidade de sonhar, e de sonhar com o nosso amor, de imaginar tudo aquilo que poderíamos ainda fazer, porque enquanto há vida, há esperança, e quem havia escolhido a primeira opção, mais trabalhosa e complicada, só pararia de lutar quando morresse. Sempre fora a opção que mais custava, mas que, tantas vezes, também trouxera felicidade... E quando as pessoas conseguiam voltar a estar juntas? Quando o motivo que as separara se dissipava e elas acabavam por cair nos braços uma da outra e viviam um amor quase eterno? Não agradeceriam todos os dias a Deus por tê-los ajudado a lutar? Quantas vezes estamos certos do que sentimos e no dia seguinte tudo nos parece ridículo e irracional?
Escolher a segunda opção: a opção mais fácil, mais apetecível, mais rápida... Dizer adeus porque não conseguimos dizer que queremos ficar. Ir embora, e seguir em frente, mesmo que com o coração despedaçado. Dizer que se ama, sem amar. Não lutar não é só sinal de cobardia, também é sinal de descrença. Quem é crente, acredita. E quem ama, tem que acreditar no amor! Tem que acreditar que existe uma força superior, uma vontade divina, algo, alguma coisa, que, nunca, mas mesmo nunca, nos impedirá de ser felizes! E, se a nossa felicidade passa por amar e ser amados, então porque havemos de nos enganar, e dizer que não amamos só porque as coisas não resultam, ou que não queremos, só porque alguém nos disse que afinal já não queria?
Seremos capazes de virar costas ao nosso verdadeiro amor? Saberemos viver sem ele, sem a sua presença? Conseguiremos amar mais alguém sabendo que não lutámos até podermos por outra pessoa? Conseguir-nos-emos apaixonar duas vezes? Mesmo apaixonar de verdade? Prontos a cometer todas as loucuras, prontos a deixar tudo só por alguém?
No amor temos duas opções... Uma é para quem ama, outra é para quem diz amar.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Adeus soluçado

Quantas vezes já pensaste que o poderias perder? Quantas vezes já pensaste como seria se ele saísse da tua vida? Como seria não tê-lo, não poder estar com ele, não poder tocar-lhe? Já pensaste nisso sequer? Na possibilidade de ele partir? De ele se ir embora para sempre? De nunca mais lhe poderes dizer o quanto o amas, o quanto precisas dele? Se soubesses que só teriam mais dois dias juntos, o que farias nas quarenta e oito horas que vos sobravam? Chorarias agarrada a ele, pedirias que não partisse, não era? De que valia?
Parece tão certo, tão seguro que ele fique connosco para sempre... Conseguimos imaginá-lo tão bem... Vemo-nos tantas vezes a crescer, a crescer junto dele. Vemo-nos tantas vezes a sorrir, e a sorrir para ele. Vemo-nos tantas vezes a passear, a passear de mão dada com a dele. Daqui a um ano, daqui a uma década. Conseguimos visualizá-lo tão bem. E como está ele crescido. Como o seu olhar continua confiante, como as suas mãos continuam quentes e como o seu colo continua a ser o local mais seguro do mundo...
Eu consigo vê-lo tão bem. Nem preciso de fechar os olhos. Basta-me um segundo, e toda a nossa vida em conjunto se desenrola diante da minha cabeça e do meu coração. Vejo-nos a concretizar todos os nossos sonhos, vejo-nos a chorarmos juntos por todos aqueles que não conseguimos realizar. Vejo-nos, inclusive, a fazer as coisas mais simples, a que nunca tinha dado valor, como cozinhar ou regar o jardim... Juntos. No futuro. Parece-me tudo tão certo, tão claro.
Lavo a cara, espero que as lágrimas se confundam com toda a água que inunda os meus olhos. Conseguia prever tudo, conseguia desenhar tudo. Tudo, menos a tua partida... Tu fazias parte do meu futuro. Tu eras um bocadinho do meu futuro. Nunca imaginara que poderias ir embora e, agora que foste, não consegui dizer-te mais que um adeus soluçado.
Gostava de ter sabido que irias partir, e ter aproveitado todos os segundos ao máximo desde o primeiro. Talvez assim a saudade fosse menor, talvez assim a dor fosse mais pequena.






domingo, 29 de setembro de 2013

Ser um bocadinho de paz...

Sou o futuro da sociedade. Eu, os meus colegas e amigos somos o futuro da sociedade. Somos nós que, daqui a uns anos, faremos as leis, e que, conscientemente, optaremos por cumpri-las ou não. Somos nós que ocuparemos os empregos dos nossos avós e dos nossos pais, que, graças ao tempo, partirão, deixando-nos a missão de fazermos do nosso mundo um sítio onde queremos viver.
Seremos nós os polícias, os professores, os advogados, os médicos, os políticos, os juízes, os arquitetos (…) Caber-nos-á a nós tomar decisões e mudar o rumo da história. Quando esta altura chegar, já não podemos culpar quem está acima de nós, quem pode realmente fazer algo… Porque esses, esses seremos nós.
Não teremos ninguém em quem pôr as culpas, e isso trar-nos-á não só mais responsabilidade, como maior autonomia. Todos nós devíamos pensar nisto. No facto de estarmos a crescer, a tornar-nos cidadãos presentes, quase eleitores, quase independentes. No facto de, daqui a uns anos, sermos nós os agentes, e não os sofridos. Se houver guerra, somos nós quem vai para a batalha. Se houver fome, somos nós que devemos dar que comer a quem não tem, por mais pouco que guardemos para nós. Se houver mortes, somos nós que vamos enterrar os corpos, e somos nós que vamos ter que explicar às crianças para onde partirão quem elas já não veem.
Crescer é, sem dúvida, um desafio. Sentir que somos o futuro, a esperança, é algo que nos devia pesar nos ombros todos os dias, cada vez que tomamos uma atitude que prejudica alguém, que nos prejudica a nós. Cada vez que criamos guerra, cada vez que acabamos com a paz (…) Mesmo que seja só na nossa casa, mesmo que seja só na nossa escola…
Vocês pensam que as grandes guerras não começaram só com vinte soldados de cada lado? Estão enganados. Tal como o desespero, a indignação e o sufoco, também o sentimento de revolta cresce quando estamos rodeados de pessoas cujas almas não estão tranquilas.
A paz é uma coisa fantástica, e nós não a valorizamos tanto quanto devíamos porque, para sermos sinceros, todos sabemos que nunca estivemos em guerra. Pelo menos numa tão grande que tenha feito história. Claro que todos nós já sofremos, e claro que cada um de nós, nem que seja por um segundo, já sentiu não estar em paz, e, pior que isso, já sentiu ter acabado com a paz de alguém. Pode ter sido um pequeno gesto, uma palavra sussurrada. Se tiver sido o suficiente para acabar a paz, então é repreensível.
A paz é, sem dúvida, um estado de espírito, um estado da alma, um estado de um povo. É algo indispensável, e que, na sua ausência, traz tristeza, dor, morte (…)
Cabe a cada um de nós fazer a paz, ser um bocadinho de paz. Como disse no início, somos nós o futuro, somos nós o amanhã. O mundo precisa de pessoas civilizadas, de cidadãos preocupados. Precisa de calma, de ponderação e de atitude. Precisa de mim, de ti e de quem está ao teu lado. Precisa das tuas ideias, das tuas soluções. Precisa que eduques a tua família para esta temática tão importante como é a da paz.
O mundo precisa de todos nós. Precisa de tréguas, de pombas brancas. De balões a desenharem o céu. Precisa de ouvir pedidos de desculpa, precisa de ouvir palavras de apoio. Precisa de sentir que há interesse nele próprio e que todos queremos que ele esteja em paz.

Cabe-me a mim, a ti e a quem está ao nosso lado. Manter a paz, construí-la. Mesmo que por breves minutos, mesmo que em pequenos espaços. Todos juntos, em cada canto, poderemos construir um bocadinho aquilo que, mais tarde, dará um mundo onde também queremos que os nossos filhos vivam. Um mundo em paz.